O primeiro dia da segunda morte

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O primeiro dia da segunda morte

Sinopse

Um tiro assinala a segunda morte de Mariana, atingindo violentamente seu coração, que há muito já não batia. Até então, a eternidade era sempre igual: décadas deslizando pelos corredores do palácio em seus sapatos de cetim, sendo mera espectadora do mundo dos vivos. Vendo e sendo vista apenas por uma menina estranha, igualmente silenciosa e invisível. Agora, ela não sabe o que irá acontecer – só sabe que terá de deixar os limites do palácio, o cenário de beleza e ilusão em que se refugiou – e enfrentar o mundo.

Com rara delicadeza e perícia na arte da escrita, Mara Bergamaschi cria uma biografia imaginada, uma “história fantasmagórica-filosófica de muitos anos em um só dia”. E tece com engenho uma narrativa que une a vida, a morte e a imaginação de duas jovens solitárias, separadas no tempo por mais de um século.

Resenhas

Resenha de 'O primeiro dia da segunda morte', de Mara Bergamaschi


Por Ronize Aline


 Nem tudo é o que parece. Esse seria um bom subtítulo para “O primeiro dia da segunda morte”, romance de Mara Bergamaschi que será lançado nesta quarta-feira, dia 14, às 19h, na Travessa de Ipanema (Visconde de Pirajá 572). À primeira vista, um livro despretensioso; no entanto, à medida que a leitura avança, revela-se muito mais complexo, quase a fazer troça dos que ousaram acreditar na sua simplicidade inicial. Poderia-se dizer que o livro trata da morte e da solidão que a acompanha: “Pensavam que eram dores, mas não, era tão somente a perdição, a desesperança, a impossibilidade de retribuições e recomeços, a solidão do fim da vida.” Mas, para além da morte, o livro fala da vida, da mesma solidão também ali presente (“nunca deixei de temer a separação e o abandono”) e das tentativas — bem-sucedidas ou não — de reescrevê-la.


Ter uma segunda chance, viver após a primeira morte o que não se conseguiu viver em vida: essa parece ser uma ideia por demais tentadora. Um acerto de contas com o passado. “Planejei a permanência do meu eu ideal, não do real.” E ter como testemunha ninguém além de uma “menina que não cresce”, personagem emblemática cujo papel a cumprir no destino de Mariana, a protagonista, é uma das agradáveis surpresas do livro.


Uma (im)provável segunda morte serviria para que ela relembrasse seus tempos de nobreza, a vida na corte, e revisitasse o que aconteceu na (e após) sua primeira morte. No entanto, o que encontra é apenas esquecimento: sem rastros, sem marcas, sem sinal de sua passagem por essas terras. “Vejo que meus esforços para preservar minhas origens foram em vão: no meu caso, não houve limites para o esquecimento.” E essa é a verdadeira morte.


A escrita segura e precisa de Mara — que lançou em 2009, também pela 7Letras, o livro de contos “Acabamento” — está ali, desde o primeiro parágrafo, quando já de cara somos instigados a procurar o que existe além de: “Ninguém, nem mesmo quem já está morto, gosta de levar um tiro no peito”. O que muda é o andamento do texto. Se fosse uma sonata, “O primeiro dia...” começaria como um adágio, já que, de forma lenta e gradual, a história vai se apresentando ao leitor. Um andamento lento, de aproximação, de “acomodação” (o termo italiano deriva de “ad agio”, que significa comodamente). Narrativa e leitor estão se acomodando um ao outro.


O texto avança e, com ele, o ritmo. Da metade para o final o adágio vai sendo substituído pelo vivace, um andamento mais rápido, capaz de alterar até mesmo a respiração do leitor para que ele possa acompanhar a escrita cadenciada e as reviravoltas que a autora prepara. Enquanto a primeira parte é lida de forma serena, imergindo pouco a pouco na vida da Condessa Lussac, que nasceu numa fazenda no interior do Brasil, casou-se com um nobre e foi viver em Paris, a segunda é lida de forma entusiasmada, ávida por desvendar quão astuta e audaciosa era Mariana — Dana para os mais chegados —, que sempre se sentiu deslocada na vida de luxos que a própria vida lhe reservou.


Tal qual uma Penélope moderna, Mara vai costurando e descosturando sua história enquanto deixa pistas, rastros pelo caminho, para que possamos juntar os retalhos. “Da primeira vez, morri mais velha, aos 44 anos...”, diz a protagonista em determinado momento, para, mais tarde, emendar “Doença, tristeza ou suicídio, um depois do outro ou tudo junto, não importa: o fato é que não foi difícil morrer quando ainda era uma jovem senhora.” E o que temos à nossa frente é um instantâneo daquilo que, na realidade, demorou anos para acontecer. “Amadurecera: nem entusiasmo com o mundo interior nem sofrimento com o exterior. Engana-se quem pensa que isso se chama sabedoria. O nome certo é morte”, diz Mariana. E quando pensamos que finalmente compreendemos suas decisões, há um novo (des)fazer dessa trama. E assim amadurece Mariana, ainda que precise morrer uma primeira vez para que isso aconteça, e amadurece Mara, num texto que vai ganhando em intensidade.


Escrita na forma de um fluxo de consciência, a narrativa traz pensamentos, lembranças, desejos, dúvidas, digressões de uma personagem construída a partir de uma complexidade tão própria dos seres de carne e osso: “O estranho é que queria desaparecer e, ao mesmo tempo, ser lembrada”. Mas a história vai muito além do que está sendo contado, e algo ainda mais perturbador vai aos poucos vindo à tona. E falar mais seria revelar a carta na manga. Ou, nesse caso, o último e perfeito retalho costurado aos demais. Já que nem tudo é o que parece.

Informação Adicional

Número de páginas 108
Ano 2012
Formato 14x21
Edição 1
Número da revista Não
ISBN 978-85-7577-900-2