Algum Lugar

Paloma Vidal

Romance

Disponibilidade: Sem estoque

R$38,00

Algum Lugar

Sinopse

A mudança do Rio de Janeiro para Los Angeles força um casal a lidar com o vazio e a solidão, encarando as próprias fragilidades, desejos, angústias. No estranhamento das línguas e culturas que se misturam, a narradora nos conduz para dentro de uma geografia íntima onde vão se diluindo as fronteiras entre personagem e autora, entre fato, sonho e ficção. Em “Algum Lugar”, Paloma Vidal explora a sensação de deslocamento e pertença, num romance em que pulsa, viva, a arte da escrita.



O romance "Algum lugar " foi um dos semifinalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2010.

Áudio

A mudança do Rio de Janeiro para Los Angeles força um casal a lidar com o vazio e a solidão, encarando as próprias fragilidades, desejos, angústias. No estranhamento das línguas e culturas que se misturam, a narradora nos conduz para dentro de uma geografia íntima onde vão se diluindo as fronteiras entre personagem e autora, entre fato, sonho e ficção. Em “Algum Lugar”, Paloma Vidal explora a sensação de deslocamento e pertença, num romance em que pulsa, viva, a arte da escrita.



O romance "Algum lugar " foi um dos semifinalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2010.

Resenhas

O Globo – Prosa e verso 14 de agosto de 2010


 Beleza erguida da melancolia seca


 Beatriz Resende


Em Algum lugar, Paloma Vidal narra uma história aparentemente muito simples, quase minimalista. Na primeira parte do livro, “Los Angeles”, a narradora muda-se para os Estados Unidos, onde espera a chegada de M. O casal precisa preparar suas teses, sobreviver com o dinheiro curto, tentar alguma relação com outros estrangeiros à sua volta, falando mais espanhol do que inglês e, sobretudo, amarem-se e desamarem-se na difícil tarefa de viverem juntos na relação inexorável que existe entre amor e melancolia. M. fecha-se cada vez mais num mundo próprio. A narradora precisa trabalhar, estudar, lavar a louça e buscar o que a sábia companheira Virginia Wolf chamava de “um teto todo seu”, ou seja, um mínimo de espaço/tempo para seus próprios interesses. M. não aguenta e volta para o Brasil.


 


Difícil trabalho de rejeição dos efeitos espetaculares


A segunda parte “Rio de Janeiro”, recebe mais um personagem, o bebê, mais adiante C. Na parte final, “Los Angeles”, a cidade americana é apenas lembrança. A narradora está sozinha com C. e o deslocamento espacial vai apenas do Catete a Buenos Aires, onde reencontra a cidade da infância: “é como se visse tudo espelhado: de um lado Buenos Aires, do outro, o Rio”. Montado num cavalo de pau, C. acena para a mãe como se partisse para uma longa viagem. Fim da narrativa, sem nenhum drama, sem sensações de depaysement, sem saudades de feijoada, sem elogios ou queixas ao mundo do capitalismo global. É na melancolia seca da narradora e na construção do narrar que estão a beleza, a originalidade e a provocação deste texto que não é para ser lido, é para ser relido.


Na escolha pela simplicidade contundente está o resultado de difícil trabalho de rejeição de efeitos espetaculares, de desrealização do cotidiano quase óbvio, construindo o ficcional com os recursos não dramáticos possíveis no biografismo, e aliando tais recursos à reflexão permanente sobre a condição da existência trazidas ao texto sem qualquer exibição dos conhecimentos teóricos que a autora detém.


Quando trata do narrador em ensaio desse título, de 1936, Walter Benjamin identifica aquele que troca experiências, passando-as de pessoa a pessoa, e faz isso num momento em que “as ações da experiência estão em baixa”, o da Europa em guerra, quando os narradores emudecidos não têm o que falar diante de um mundo ético destruído. Apesar da constatação de que “quem viaja tem muito que contar”, este narrador de experiências desmoralizadas não tem o que narrar. Nesse mundo, a narração é substituída pela informação em trânsito, nova forma de comunicação e, segundo Benjamim, um dos mais importantes instrumentos do capitalismo. O pensador mostra que apesar de a cada manhã recebermos notícias de todo o mundo e de os fatos apresentados já nos chegarem acompanhados de explicação, o mundo já era pobre em histórias surpreendentes. Não é difícil perceber que em nosso tempo-espaço globalizado, onde as informações chegam não a cada dia, mas a cada instante, a tarefa do narrador não é mais fácil.


Na oposição que estabelece entre narração e romance, Benjamin identifica na narração uma espécie de forma artesanal de comunicação onde o narrador imprime sua marca, como o faz um artesão ao moldar um objeto, ao contrário do romance, pertence à era das formas técnicas de comunicação. Dessa cadeia de tradição que transmite acontecimentos sem a pressa das informações faz parte fundamental a “reminiscência”, o evocar da memória. E é a propósito da memória que o pensador faz uma das mais interessantes observações do ensaio ao afirmar que, quanto maior a naturalidade com que o narrador renuncia às sutilezas psicológicas, mais facilmente a história se gravará na memória do ouvinte.


Esta espécie de roteiro do trabalho do narrador serve como norteador da leitura de Paloma Vidal. O modelo de narrativa segue as possibilidades diversas da escrita íntima. O diário de viagem, ou aquele mais privado, onde seu autor registra um pensamento, uma impressão, um sentimento inexplicável, uma frase única que precisa ser registrada para reflexão futura: “M. trocou o dia pela noite: janta diariamente às 3 da manhã”. Ou o registro de um sonhador separado do corpo que adormeceu; “Você sonha mais uma vez com o homem desconhecido...” E diários de leitura, como o registro da introdução de Susan Sontag a “Rua de mão única”, onde Benjamim menciona os inúmeros cadernos, cartas, diários. “Tudo vira escrita, até os sonhos, uma escrita capaz de condensar a experiência”.


 


Obra não faz qualquer pacto autobiográfico


A reminiscência aproxima, definitivamente, o narrador do leitor, já que uma das propriedades do narrador é poder narrar, com dignidade, a própria vida. É isso que o faz um mestre. Fique porém, bem claro, que em Algum lugar não há qualquer pacto autobiográfico. Nem uma linha sequer se apresenta como sendo não ficcional. É na forma escolhida, na condução da escrita literária e não na sedução da confidência ou no espontaneísmo testemunhal que está a habilidade artesanal deste romance, qualidade a destingui-lo, a atribuir-lhe uma aura de unicidade.

Informação Adicional

Número de páginas 176
Ano 2009
Formato 13x20
Edição Não
Número da revista Não
ISBN 978-85-7577-634-6