Ramerrão

Disponibilidade: Em estoque

R$29,00

Ramerrão

Sinopse

Que o leitor não se deixe (des)enganar: são muitas as leituras que se abrem neste Ramerrão de Ismar Tirelli Neto. Em meio a sutis modulações que nos levam ora para um tom epistolar, ora para o verso da prosa, e em outras horas para algum lugar que fica além do mero poema, o autor mostra que é mestre em fugir do óbvio, em criar novos sentidos com o fino artesanato de quem sabe brincar a sério com as palavras. Cada cena, sequência e corte deste ramerrão nos conduzem cinematograficamente pelos cenários mais diversos: a casa, o quarto, o hotel, ruas e postais do mundo inteiro, num labirinto de imagens que expõe intimidades – que só podem ser nossas, as desses personagens estranhos embora íntimos. Tendo nas mãos a chave-mestra que o autor nos oferece para abrir as portas dos labirintos da linguagem, podemos encontrar aquela matéria oculta e rara de que é feita a poesia.

Áudio

Para ouvir: Ramerrão by Editora 7Letras

Resenhas

UM JOVEM POETA QUE BUSCA O ATRASO NA ESCRITA


Em ‘Ramerrão’, Ismar Tirelli Neto faz do descompasso com o mundo uma forma irônica de crítica e reflexão


(Franklin Alves Dassie - O Globo, caderno Prosa & Verso, 3 de setembro de 2011)


“Ramerrão” é o segundo livro de poemas do jovem Ismar Tirelli Neto. Publicado três anos após “Synchronoscopio”, parece seguir um dos caminhos trilhados no livro de estreia. Entre um humor quase histérico e uma narratividade melancólica (atravessada, em certo sentido, pela ironia), Ismar parece investir, conscientemente, no segundo caminho. Esse é encenado, entre outras coisas, através de um endereçamento que o autor apresenta no poema que abre o livro? “Remeto uma série de cartas estridentes a R. Um apanhado de provincianismos do peito. Como lá me vão, a íntegra”. A estratégia conjuga uma dimensão pública (a cena do teatro) e outra íntima (o escândalo doméstico) e faz lembrar, assim a noção de “cena” que Roland Barthes não cansava de lembrar.


Essas “cartas estridentes”- esse “apanhado de provincianismos do peito”- são escritas por um personagem que estabelece com os lugares e ventos uma relação deslocada, como se as cenas de “Ramerrão” fossem interpretadas por alguém que está sempre atrasado. E será essa uma das imagens mais recorrentes no livro: “atrasado/ para uma palestra/ atrasado/ para o ano novo/ atrasado/ para o próprio/ apedrejamento”. Atrasado para reconhecer o fim de um acontecimento, como se lê em “Reality roll”: “O medo de perder o que, a rigor, já está”. O atrasado vê as coisas passarem, parece não lidar bem com eventos simples, enfim, se relaciona com as coisas práticas de uma forma “incompetente”. “Ele pensa em fazer a cama” encena isso: “Todos os meus/ vizinhos, os teus inclusos, já/ fizeram as suas/ Por que você não/ tenta?”.


E depois de se perguntar, afirma: “Atrasado de novo, ele falha/ ao embarque. Enquanto ela parte; o/ mar, lençol badernado”. Atrasado, o personagem das cenas de Ramerrão se define assim no poema “Os arquivos”: “Sou um homem/ detrás do seu tempo. Me ultrapassa o que vim/ fazer aqui”. A experiência de estar sempre atrasado, entretanto, é atravessada nesses poemas por uma autoironia que problematiza uma noção romântica do autor como alguém incompreendido, que não se adapta ao mundo, que está “atrasado” em relação ao tempo presente.


Mas, ao mesmo tempo, tal experiência remete ao passado, a um exercício de memória, que estaria relacionado ao endereçamento que Ismar escolhe como procedimento poético. A terceira parte de “Preocupações épicas” mostra isso: “As primeiras lembranças/ sofrem rasgos/ profundos/ nos lados/ dos indicadores/ cutículas/ arrancadas”. E o poema termina assim: “O menino/ põe sangue entre/ as ferragens/ Sua Olivetti/ gagueja”. Isso, por um lado, é a oportunidade de ver a cena da escrita: a dificuldade de dar forma às “primeiras lembranças”, que se rasgam nesse gesto, e como escrever acaba sendo um gesto corporal, que imprime no corpo outros “rasgos”- indicadores machucados, cutículas arrancadas. Por outro, a cena da escrita mostra como Ismar tensiona os tempos: o passado afeta diretamente o presente, vide o corpo lacerado (a mão que escreve) e, assim, a escrita não se transforma numa espécie de lugar de lamentar aquilo que o atrasado perdeu, deixou escapar. A melancolia é então problematizada e a rotina – que o título do livro sugere – atravessada por um ruído “estridente”.


Resposta a um tempo pautado pelo imediato


A tensão entre passado e presente aparece no poema “A história da riqueza dos homens (uma balada)”, quando Ismar solicita a forma da balada para montar outra cena: “bom,/ cá estou,/ no passo exato/ onde previa estar/ escrevendo/ esquetes humorísticas/ de quinta/ para uma súcia/ de desmiolados”. Esquetes de quinta: e mais uma vez a ironia agindo como potencia capaz de suspender a seriedade que a leitura das narrativas do atrasado poderia suscitar.


“Ramerrão” irá sugerir (ou endereçar), nesse sentido, uma questão: de que forma se colocar diante de um tempo em que o imediatismo parece imobilizar uma forma de pensamento menos “competente”- no sentido de ser menos prático – e que vá além do “no que você está pensando agora?” ou “o que está acontecendo?” das redes sociais. Ismar sugere uma resposta ao figurar nessas cenas alguém que se questiona, mas que volta  meia se atrasa, porque talvez tenha ficado preso numa “Cena contínua num restaurante de beira de estrada”, para lembrar outro poema do livro. Preso num lugar em que o passado – os escombros de uma espelunca – é motivo de uma “emoção inculta”. Melhor, que o passado, através da escrita, faz surgir no presente uma “cena contínua” e nem um pouco banal.

Informação Adicional

Número de páginas 70
Ano 2011
Formato 14x21
Edição 1
Número da revista Não
ISBN 978-85-7577-778-7