Pequena biografia de desejos

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Pequena biografia de desejos

Sinopse

Pequena biografia de desejos apresenta tanto o Brasil privilegiado quanto o país de uma imensa maioria de trabalhadores anônimos, aqueles que dificilmente são protagonistas do imaginário da classe leitora brasileria. Mas não se engane: não é um romance dedicado à pedagogia ou à defesa de bandeiras políticas - como toda grande literatura, o livro de Tridapalli aposta, como fio narrativo primordial, na investigação da condição humana mais atemporal e mais livre de demonstrações de teses ou teorias.

Resenhas

Resenha publicada no site Interrogação
por Emanuela Siqueira


Uma das características mais marcantes da Literatura produzida hoje é justamente o bom uso do realismo do dia a dia — considerado outrora um objeto sem ânimo e interesse — como um contexto rico. O curitibano Cezar Tridapalli, em Pequena Biografia de Desejos (Editora 7Letras, 2011), traz a vida comum e seus personagens como forças motrizes para dentro do romance, dando mais sinais de como a literatura do presente vem rendendo frutos extremamente interessantes, alimentados pelo anonimato do cotidiano.
Desidério é um porteiro que leva uma rotina insignificante para a maioria das pessoas, o homem pega o mesmo ônibus todo dia — para quem mora em Curitiba, o famoso Ligeirão-Boqueirão — e passa inúmeras horas acordado, lendo e escrevendo. O personagem principal de Pequena Biografia de Desejos é uma espécie de anti-herói, só que sem nenhum tipo de glamour que esses personagens costumam ter, construido sob o perfil de homem comum visto pelos olhos do fantástico.
O protagonista se apresenta através das narrativas de suas próprias mazelas costuradas com a história de outros personagens que ajudam a dar forma na sua vida-ficção. A mãe que foge de casa, um pai que só existe fisicamente, um casamento sem o mínimo de amor e os sonhos de escrever livros tão geniais quanto os que passa as madrugadas lendo, são pequenas peças que formam detalhadamente o enredo da vida do personagem.
Desidério poderia ser um homem comum se os livros não o tirassem do marasmo do cotidiano. Sonhador, sua realidade — desde sempre urbana e crua pela ótica do realismo banal — sempre foi moldada conforme o lirismo dos livros. É o homem comum, sem ostentações, mas repleto de mecanismos que o tiram do conformismo e o colocam dentro de um realismo fantástico, um dos aspectos que introduz Pequena Biografia de Desejos como uma obra que se alimenta do contemporâneo sem precisar, em momento algum, ser confessional. Pelo contrário, Desidério não quer confessar nada, nem sabe usar as palavras faladas, ele suprime seus sentimentos e acredita que a sua real redenção sejam as palavras escritas e num livro só seu.
É principalmente a paixão e o desejo que movimentam a vida de Desidério. Além de ter um fascínio desmedido por livros — o homem chega a escrever trechos de livros na mesa da guarita — ele encontra Adele, uma professora de italiano, que alimentando um amor platônico involuntário, ainda o encoraja a escrever sobre todos os sentimentos que ele acreditava não possuir.
A narrativa de Pequena Biografia de Desejos é movida justamente por essa paixão e desejo literário que o protagonista desenvolve ao longo das suas leituras. O narrador faz uso de uma voz íntima que funciona como um off cinematográfico, apresentando a vida dos personagens com direito a flashbacks. A cada capítulo, novas histórias vão sendo apresentadas e costuradas ao mosaico que forma a grande biografia de Desidério. Sem as personagens — e suas insignificâncias detalhistas associadas a um e outro enredo literário — o protagonista jamais existiria e encararia com tamanho desejo a sua própria ficção.
O espaço onde circula o personagem é Curitiba, um ponto interessante se pensado sob a situação que boa parte dos romances contemporâneos se organizem em outras metrópoles do país. A Curitiba de Desidério é descrita pelo ponto de vista de um eterno transeunte que conhece bem apenas o bairro em que viveu, o trajeto que faz há tanto tempo de casa para o trabalho, e vice-versa, e claro, a Biblioteca Pública do Paraná.
A voz que Tridapalli faz uso é sufocadora, direta e repleta de referências, o que pode não agradar leitores receosos com o romance contemporâneo. Pequena Biografia de Desejos lembra obras ao estilo de Henrique Vilas-MatasSaramago e o fantástico — mais moderado — das realidades latinas de Gabriel Garcia Màrquez e mesmo assim, mantendo sua própria construção. Há uma necessidade de respiração depois de cada capítulo na saga de Desidério, o que fez minha leitura ter contado com boas pausas entre um capítulo e outro, sendo que isso não é de forma alguma um problema e sim um ótimo processo de assimilação. Além disso, é bastante lírico e atual o discurso sem pausa e caótico da obra que, mesmo usando muitos recursos de linguagem contemporânea, mantém o ritmo romanesco clássico.
Pequena Biografia de Desejos nem de longe parece um romance de estreia. É uma ode — e isso é o que mais encanta — às paixões e desejos que os livros podem causar. É sobretudo, um romance sobre livros para leitores apaixonados.


http://www.interrogacao.org/2011/08/livro-pequena-biografia-de-desejos-cezar-tridapalli/?fb_ref=facebook&fb_source=profile_oneline






A REINVENÇÃO DA VIDA (por Vilma Costa, no Rascunho)


O romance Pequena biografia de desejos, de Cezar Tridapalli, apresenta algumas questões relevantes. Ele nos faz refletir sobre a vulnerabilidade humana que permeia a existência de pessoas comuns, diversas entre si, e excepcionais dentro dessas diferenças, em seus conflitos e suas estratégias de sobrevivência.


Desidério Santos dos Santos, o protagonista da trama, é um desses cidadãos comuns em torno do qual se estabelecem as ações e as construções temáticas e problemáticas do texto. A narrativa é conduzida por um narrador onisciente que tem um domínio absoluto sobre a interioridade dos personagens apresentados. Isto não acontece apenas por descrições sumárias, mas pela relação que estabelecem entre si e, cada um a seu modo, consigo mesmo, com a cidade que habitam e com as obsessões que alimentam. Desidério é um porteiro humilde de um edifício de Curitiba, onde residem pessoas da classe média. Mora na periferia da cidade, no bairro Boqueirão.


Vivia duas realidades: de um lado, o trato direto com as pessoas, vulgar, rotineiro, em que usava alguns monossílabos e, quando muito, algumas frases de três ou quatro palavras (…) Por outro lado, desde que começara a ler romances, com mais regularidade desde 1989, criara uma outra realidade, imaterial (…) Esse imaterialismo paralelo só encontrava perpendiculares quando trazia algum dado do mundo concreto para as abstrações desse seu outro mundo.


De um lado, o porteiro vivia como trabalhador, cidadão prestador de serviços, anônimo em seu rotineiro cotidiano. Por outro, a partir da leitura e de seus recursos imaginativos vai criando para si uma outra realidade, esse imaterialismo paralelo da ficção, que muitas vezes se encontra ou se confronta com a outra realidade vulgar de um mundo concreto. Da leitura compulsiva parte para a escrita secreta, numa paixão desenfreada pela fabulação dessa outra possibilidade de existência.


O romance é composto de doze capítulos. Especialmente os primeiros apresentam os principais personagens. Eles se entrelaçam na realidade cotidiana de Desidério e por sua vez, de alguma forma, têm influência sobre sua outra realidade, a imaterial. Vive com a mulher, Macária, um casamento sem paixão e, muitas vezes, sem sentido, e com um velho pai ausente e sofrido pelo abandono da mulher, mãe do protagonista. Esta, no dia do aniversário de 15 anos do filho, abandona a família para sempre. O fato marca de maneira decisiva a vida do rapaz e do pai que se fecha para o mundo e torna-se, de princípio, um ausente presente, como um morto vivo. Quase tudo que se sabe do protagonista, ou do que ele se tornou, data do momento posterior aos 15 anos e do abandono da mãe e do pai. Uma rara exceção é a referência a Antônio, um amigo de infância morto afogado num rio da cidade. O episódio é quase pontual e o menino morto é só uma lembrança rápida do primeiro contato com a morte e de um tempo no qual sua espontaneidade de comunicação ainda não havia sido bloqueada. Antônio passou muito rápido pelo romance, teve vida curta nas duas realidades transitadas ou construídas por Desidério.


Santiago é o professor catedrático, orgulhoso de sua sabedoria livresca, que se coloca acima dos demais e que, sem saber, deixa para Desidério uma valiosa herança. Depois de um incêndio em seu apartamento, joga no lixo sua biblioteca atingida em parte pelas chamas. O personagem é cheio de técnicas de persuasão sobre alunos, público de suas palestras e, principalmente, alunas. Sua história de vida e de sucesso traz também uma crítica severa aos mecanismos de projeção dos “gênios” acadêmicos, estabelecendo uma relação intertextual com contos como A teoria do medalhão, de Machado de Assis, e O homem que sabia javanês, de Lima Barreto. “(…) aprendeu já cedo a confirmar a opinião consensual, a falar mal de intelectuais que se sentavam em suas escrivaninhas”.


Adele, professora também de italiano, apaixonada pela literatura, encontra na guarita do prédio onde mora outro leitor voraz e com ele tenta se comunicar. Ela tagarela sem parar e ele dá sinais de interlocução, longe de um diálogo. Ela fala enquanto ele emite monossílabos no plano da realidade concreta. Mas do ponto de vista da realidade inventada, ela se torna a musa inspiradora de mais um texto sem fim, dos tantos que o porteiro ousara ensaiar escrever, a segunda parte de um livro perdido a ser encontrado. Ele vive por ela uma paixão arrebatadora que o lança a um mundo novo de sensações e desejos há muito adormecidos.


Metaficção
Durante todo o romance o aspecto metaficcional é de grande relevância. A ficção se debruça sobre o processo de escrita e da criação artística do protagonista na busca de sentidos e de domínio técnico, sem esconder a precariedade dessa busca. Logo no primeiro capítulo a metáfora da aranha seca ilustra essa questão. “(…) talvez até inventasse um trecho do livro apenas para poder colocar a associação entre as aranhas secas e as palavras que não dizem mais nada.”


Até que ponto a biografia é dos desejos? É um questionamento que pode ser feito sobre a propriedade do título do romance. Desidério vem de desejo, é um ser desejante como as outras criaturas que com ele contracenam. Mas isso será suficiente para defini-lo? As histórias que aqui se narram falam de desejos, mas também de frustrações, de incomunicabilidade, da inércia frente aos obstáculos que a vida inexoravelmente impõe. Que papel teriam os desejos nesse conjunto paradoxal de sentidos, sentimentos, paralisações, ações e reações? Que expectativas do leitor são satisfeitas ou frustradas nesse processo? Cabe, estabelecer as diferenças entre surpresas produtivas e hermetismos impenetráveis. Neste sentido o narrador de Tridapalli esforça-se para garantir coerência em meio a tantos paradoxos.


A biografia fala de histórias de vidas que se cruzam no espaço urbano de uma cidade grande brasileira, Curitiba. Portanto, geograficamente localizada, dentro do contexto histórico dos últimos anos. Trata-se de uma biografia nada tradicional, não obedece a uma linearidade temporal, na qual nascimento, vida e morte se sucedam numa lógica formal. Muito menos parece pretender apenas traçar a trajetória previsível de um sujeito comum. As histórias de vida do protagonista e demais personagens se configuram como “pré textos” para outras discussões. Talvez a palavra pequena seja uma maneira de suavizar a pretensão maior de biografar desejos de muitos personagens simultaneamente. Mais do que a vida vivida, a vida sonhada, a vida desejada, a vida imaginada como provável, mesmo que impossível, estão em foco. A cada capítulo, novos personagens vão sendo apresentados. Transitam pelo tempo num vai e volta, sem ordem cronológica rígida, da mesma forma que caminham pela cidade. O estabelecimento de uma cartografia orientando os passos desses homens e mulheres não se dá enquadrando-os num espaço físico ou num tempo linear, apenas. Quando as ruas são nomeadas, o centro e os bairros são citados, parte-se da necessidade de contextualização e localização territorial. Estas, entretanto, são submetidas a um movimento oscilante e permanente, como o pêndulo de um antigo relógio que teimosamente não congela o instante nem o ponto fixo no mapa. “O Boqueirão do final dos anos 80 é isso, um bairro múltiplo em seu provincianismo (…) Um trajeto de ida e volta, toda a extensão da avenida (…) que o trazia para a periferia e o levava para o vórtice, movimento pendular entre o centro e a margem (…)”


O que importa é a cartografia de desejos que não se deixam mapear. Como analisa Suely Rilnik, no prefácio de Cartografias do desejo, dela e de Félix Guattari, “independentemente das datas, tais cartografias têm em comum a busca de saídas na constituição de outros territórios, para além dos territórios sem saídas, outros espaços de vida e de afeto. São, elas todas, obras dos tais inconscientes que, atrevidos, protestam.” É importante considerar que a criação artística, com toda a sua precariedade e a sua indefinição de sentidos, oferece a tais inconscientes atrevidos a possibilidade de protestarem com a reinvenção de outros espaços de vida e de afeto.


:: 3 PERGUNTAS :: CEZAR TRIDAPALLI


• Como foi o seu primeiro contato com a literatura? E o que ela representa atualmente em sua vida?
A primeira — e vaga — memória é de minha irmã, três anos mais velha, com livros ricamente ilustrados. Eu tinha uns cinco anos. Mas, como não freqüentamos pré-escola e só aprendemos a ler bem com sete ou oito anos, o primeiro livro que eu li de fato foi na 2.ª série, o inesquecível Cachorrinho Samba na floresta (da grande trilogia Cachorrinho Samba, da Maria José Dupré!). Na 5.ª série, a obrigação de ler dois livros por mês foi algo bom para mim, que me fez ler obras importantes para a idade. No Ensino Médio eu gostei de estudar a Semana de Arte Moderna e seus autores, embora só lesse trechos de obras, em livros didáticos. Lembro também de ter ido a uma palestra com o Paulo Venturelli na Biblioteca Pública do Paraná. Aí, depois, já na faculdade de Letras, tive aula com ele, fui apresentado a Dostoiévski e toda essa turma. Estava dada a bússola. Tudo isso me transformou em um leitor, mas não no estereótipo do bom leitor. Perdi a bússola e vou abrindo picadas a esmo. Eu queria ser mais obsessivo e disciplinado; em vez disso, sou um leitor lento (embora veja aspectos positivos nisso) e sazonal. Às vezes passo semanas sem ler literatura e vou para outras leituras, sem nenhuma sistematização. Depois, há períodos em que leio bem e bastante — para o meu ritmo. Embora instável, já li o suficiente para saber que a literatura alarga modos de ver as coisas, nos deixa menos obtusos, nos coloca diante de conflitos que nos fazem sempre cotejar o fingimento da ficção com a vida. E isso nos torna menos fundamentalistas, o que não é pouco, uma vez que os grandes e pequenos fundamentalismos são o que de mais tosco a humanidade já produziu.


• O que você pretende com sua escrita, o que espera alcançar?
Se não sou um leitor compulsivo, ao menos sou um leitor ruminante, daqueles que o Machado de Assis dizia, em Esaú e Jacó, que têm quatro estômagos no cérebro e por lá faz passar e repassar o que lê. E as leituras que me tocam sempre fazem com que eu fique cheio de exclamações, interrogações e reticências dentro da cabeça, que forme algumas certezas provisórias e muitas dúvidas permanentes. É a essa coleção mal ajambrada de pensamentos que eu tento dar forma, é isso que eu tento recriar artisticamente e oferecer a quem estiver a fim de participar dessa conversa entre subjetividades. Embora o leitor leia solitariamente, ele está sempre fazendo uma leitura compartilhada com muitas vozes que se escondem e reaparecem renovadas na voz do narrador de um romance, por exemplo. Então… O que eu pretendo? Pretendo tecer enredos usando criativamente a linguagem e contando histórias que signifiquem algo para as pessoas. Ou: pretendo ser lido.


 Por que a escolha do romance como gênero literário a ser encarado em seu trabalho de criação?
É uma resposta puramente especulativa, não tenho nenhuma certeza dela: acho que o romance funciona melhor — para mim, é claro — na apreensão das complexidades do mundo. O romance te dá mais tempo e espaço para “enredar enredos”, e eu acho que não conseguiria fazer isso de modo tão denso e concentrado como fazem os contos e os poemas. Outra resposta possível e simples é que o romance tem sido o gênero literário que eu mais leio.

Informação Adicional

Número de páginas 220
Ano 2011
Formato 14x21
Edição 1
Número da revista Não
ISBN 978-85-7577-755-8