Onde o céu descasca

Lu Menezes

Poesia

Disponibilidade: Em estoque

R$32,00

Onde o céu descasca

Sinopse

“Onde o céu descasca” convida o leitor a encontrar a poesia em cenários imperfeitos, transitórios, imensuráveis. Janelas a esmo, sotaques e paisagens distantes, palmeiras ao vento, o espaço – solidão e medo, crença e descrença, amor e relações de vizinhança cósmica – são alguns dos tópicos que encantam o leitor a cada página. Os versos de Lu Menezes descortinam cenas, decifram o que parece evidente, e exigem a sensibilidade e a entrega de quem se permite ir além da compreensão – em busca do que a poesia desperta em cada um de nós.



Músicas de Pedro Ariel Meirelles:
1. Botânico
2. Éden
3. Arpeggio

Resenhas

Versos embebidos em azuis


Obra de Lu Menezes amplia a experiência ótica pela força da linguagem


(Por Laura Erber)


 


Antes de se suicidar, Pierrot Le fou besunta o rosto com o azul do céu de Antibes, o mesmo azul que se alastrou pela última pintura de Nicolas de Stäel. A citação é conhecida: o próprio Stäel, pouco antes de se lançar da janela do seu ateliê em Antibes, encomenda tubos de azul ceruleum, que nunca chegou a abrir. Cézanne dizia que ao pintar a sua “Velha com rosário” havia sido tomado por um tom-Flaubert, uma cor azulada, indefinível, que se desprendia de “Madame Bovary”. Quando o azul se torna mais que um colorido, fica impossível não citar o azul-matéria de Yves Klein, o azul-meditativo de Derek Jarman e o inesquecível araçá azul de Caetano Veloso.


Essa atração é mais antiga e já atormentava os pintores viajantes que aportaram no Rio de Janeiro desde o século XVI. Esses artistas em trânsito logo perceberam que, apesar da exuberância natural da cidade, o ar estava quase sempre tomado por uma espécie de véu que encobria os azuis do céu e os detalhes da paisagem, como em certas vistas do Rio de Thomas Ender. Alguns paisagistas seguiram para Minas, onde o ar é mais seco e transparente, outros preferiram o recuo no longe-perto da Ilha de Cobras, de onde podia vislumbrar a silhueta do Rio sob um céu de nuvens esparsas. Baptista da Costa, nas alturas da Serra da Estrela, registrou o céu turvo das tempestades tropicais, de um azul-dramático, quase violeta.


A perseguição do azul e dos olhares entranhados na paisagem reaparece agora no belo livro de Lu Menezes, “Onde o céu descasca”. As seis sessões de poemas que integram o livro são pontuadas por um azul errante, “diluidor de montanhas”, que migra dos olhos de um amigo morto ao “azul-suspeito” de um taxi, ou do azul-bastardo “no isopor de uma embalagem de ovos” ao azul “legítimo em toda espécie de flor” e irrompe finalmente, com toda carga de artifício, no céu esfolado de uma pizzaria, no poema que dá título ao livro.


“Onde o céu descasca” participa da antiga vocação da literatura para construir um dispositivo visual, tornar-se também máquina de visão. O Rio de Janeiro do livro é uma paisagem de camadas sobre camadas, impregnada pela consciência de já ter sido mil vezes vista, pintada, fotografada, filmada, comentada, descrita, romanceada. Mas a obra não é feita só de céu de simulacros – uma imagem que esconde outra e mais outra; como a parede do restaurante, a falha revela uma “amostra menor do limbo”. A escrita afiada do poema desarma os clichês que impedem uma aproximação sensível, algo “experimentável” e não apenas consumível.


Não por acaso Lu Menezes fez tese de doutorado – “Um ver e um desver no olhar” (2011, inédita) – sobre a dinâmica cromática na obra de João Cabral e do poeta americano Wallace Stevens, distinguindo o uso retiniano da cor (Stevens) do uso semântico (Cabral). Em “Onde o céu descasca” parece que os diferentes usos se entrecruzam, ampliando a experiência ótica pela força ficcionalizante da linguagem. Não que os poemas sirvam como ilustração de uma tese implícita, longe disso, mas é que no uso cromático se evidencia uma oscilação que perpassa a escrita, ora tendendo à paixão descritiva, ora abandonando a referencialidade, investindo em deslizamentos semânticos e jogos de nomeação. Mas a cidade corroída barra as transfigurações metafóricas, desarma a fábula, como em “Tsunami e a vizinhança”. O que está em jogo nesse livro é a construção de um olhar ao mesmo tempo cúmplice e interrogativo, que gruda nas coisas vistas mas também pode flutuar.


A ideia não é condenar a brutalidade da vida urbana nem poetizar para transcender ou redimir; o poema cria posições para ler, possibilita de novo uma experiência de contato, desentranhando os olhares acumulados na paisagem. A poesia aqui é nuançada e culta, permeada por citações pictóricas, históricas e literárias, mas nem por isso abdica da educação sentimental feita nas ruas. O humor quixotesco pode transformar um ventilador de padaria em “subproduto tropical de moinho”. A elaboração estética não é sublimação do ordinário ou tentativa de resistir a ele, as múltiplas e estranhas formas desse convívio é que tornam o livro de Lu Menezes contagiante e necessário. Com indica o poema de abertura, trata-se de voltar à terra, como um astronauta que, depois de enfrentar o grande medo da escuridão espacial, fareja novamente o solo e só pensa em “chegar ao sofá – ligar a TV e tirar o sapato do pé”. A aventura cósmica e os acontecimentos banais se enlaçam. Como cartógrafo, o poeta prefere fazer mapas de fluxos internos. Uma corrida de taxi no Flamengo pode nos levar ao Algarve, passando por dentro das saudades do motorista português que fala de inesquecíveis frutas com caroço.


O livro anterior de Lu Menezes, “Abre-te, Rosebud!”, e 1996, já marcava posição no terreno minado da poesia contemporânea, mostrava que a escola de facas cabralina ainda era um bom romance de formação para o poeta, mas já não definia um caminho a ser seguido, pois “a imperfeição é o nosso paraíso” e disso não se foge impunemente. A sintaxe minuciosamente trabalhada, os jogos de ecos e assonâncias e o uso deliberadamente anacrônico da língua distanciam a escrita de Lu Menezes do relaxamento cool da poesia marginal. No seu caso, abdicar da ilusão de estabilidade da engenharia construtiva não significou abandonar a habilidade artesanal, o rigor de ourivesaria. Viajar sem a couraça da nave, ver um “homem-tatuí” se afogar na areia da praia, experimentar o mundo das emoções (e aflições) sublunares e aproximar, sim, o poema do ordinário, não para atingir o epifânico, mas buscar a força plástica que vem das “1001 fontes não intencionais de poesia”.


Obra rompe um longo jejum de 15 anos


Para quem acompanha a vida da poesia brasileira, esse livro é um acontecimento. Não só porque rompe o jejum de 15 anos da autora, mas porque confirma a vitalidade tensa da poesia feita aqui e agora. O poema deixa a modernidade, porém carrega seus estilhaços, sua faísca. Essa tensão irresoluta entre a linguagem meticulosa e o desencanto blues terrestre inquieta e fascina. “Onde o céu descasca” confirma o caminho aberto em 1996 e o reforça. O olhar contemporâneo – anacrônico por vocação – não se restringe nem à urgência do presente, nem sucumbe aos apelos necrosantes do que não volta mais. Que a extrema discrição da autora não sirva de motivo para que esse precioso livro passe por nós despercebido.

Informação Adicional

Número de páginas 110
Ano 2011
Formato 14x21
Edição 1
Número da revista Não
ISBN 978-85-7577-860-9