Monodrama

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Monodrama

Sinopse

Monodrama vem quebrar o jejum de 13 anos de Carlito Azevedo, autor de destaque no atual cenário poético brasileiro. Este é o livro mais político, no sentido amplo, do autor, mas também o mais irreverente e emocionado. Poemas extensos e uma multiplicidade de personagens surgem destas páginas nas quais predomina a figura do imigrante, do clandestino, do outro a quem o mundo hostil fecha portas. Se o desencanto político dá o tom dos poemas iniciais, a pauta mais autobiográfica da série “H.” é uma novidade no estilo do autor. Neste texto dedicado à experiência da doença e morte da mãe, o autor convoca a ironia e a emoção para afrontar a grande contradição humana: a certeza e a inconformidade com a perda.


Monodrama foi um dos dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2010

Resenhas

Por Bernardo Carvalho


Jornal Brasil econômico


A PARTIR DO BANAL, O MAIS TERRÍVEL E O MAIS BELO


Que seria de Portugal sem Pessoa e sem Camões? Ou da Rússia sem Tolstói, Dostoievski e Tchékhov? Ou da Irlanda sem Joyce e Beckett?A literatura melhora os países, mesmo quando é para contar suas derrotas e seus horrores – e sobretudo quando conta suas derrotas e seus horrores. Só por burrice um Estado não defende sua literatura. É uma questão de marketing, para não falar de coisas mais elevadas.


As cidades também só têm a ganhar com a prosa dos seus escritores e a lírica dos seus poetas. Ninguém duvida que Buenos Aires seja melhor com Borges, Dublin seja melhor com Joyce e o Rio com Drummond seja melhor do que sem ele. Se eu dissesse o mesmo de um poeta como o Carlito Azevedo, talvez você torcesse o nariz. Mas seria por simples desconhecimento. O que é natural, já que ele ficou treze anos sem publicar nada. Enfim, o problema pode ser resolvido, porque ele acaba de lançar um livro extraordinário: Monodrama (7Letras). Este pode não ser o espaço ideal para uma resenha. Mas Monodrama tampouco é um livro comum. E não é todo dia que você vai bater os olhos num livro assim.


Num dos poemas, uma amiga diz ao poeta, ao passar por uma moça que se pica junto a uma mureta do Aterro do Flamengo: “Nenhum poema/ é mais difícil/ do que sua época”. Carlito Azevedo nasceu em 1961. É um poeta carioca, com dicção carioca, que passou a vida no Rio, e o simples fato de ele ser um poeta carioca hoje, num tempo tão pouco literário, já enriquece essa cidade que, a despeito de toda beleza, de todo marketing e de toda autosugestão, não é propriamente o lugar mais aprazível do mundo. Mas é melhor com esses poemas do que sem eles.Em tempos difíceis, é um alívio viver no mesmo país e falar a mesma língua de um poeta como esse.


Monodrama não diz horrores do Rio. Ao contrário, celebra a melhor tradição da poesia brasileira feita no Rio de Janeiro, aquela que combina o aparentemente simples com a ironia, sem precisar recorrer ao insólito para se fazer poética e original. É uma poesia ao mesmo tempo discreta e incisiva, cuja precisão do corte é perturbadora, fazendo surgir do banal o mais terrível e o mais belo. Um sentido extraordinário por trás das coisas mais coloquiais, como no fragmento reproduzido na contracapa: “Eu pergunto se/ você quer ir para/ casa “Sim”/ se está pensando/ em grandes espaços vazios/ “Sim” se tudo/ vai passar/ tudo vai/ ficar bem/ “Sim sim”/ se realmente/ se apaixonou/ se pensou em/ morrer “Sim”/ se eles cortaram/ os seus lindos/ cabelos.”. Ou no poema que fala de uma menina com xilofone e flores, escrevendo poemas numa rua de Berkeley, na Califórnia: “(…) não havia mesmo nada ali/ quando ela escrevia os poemas (…) e lá se vão dez/ ou treze anos/ e eu simplesmente nunca/ os/a/ consegui esquecer”.


Não sei o quanto pode haver de traição em revelar que Monodrama converge para um poema incrível, “H.”, sobre a morte da mãe. É o poema final. A certa altura, o filho se inquieta, ao se dar conta de que não sabe se a mãe teve “uma morte boa ou uma morte má”. Não sei o quanto pode haver de traição em expor aqui a reposta da mãe morta (Hilda, a mulher do H do título) ao filho, mas cito assim mesmo, porque ela revela afinal o poeta que ele é:


“– Com parada com a larga eternidade de nada sentir, nada provar, nada tocar, ver e ouvir que nos espera, a morte no sono, como dizem que coube a Chaplin, vale o que valem as dez costelas partidas, as orelhas arrancadas, os dedos decepados, a laceração horrível entre o pescoço e a nuca, a equimose larga e profunda nos testículos, o fígado lacerado, o coração lacerado, o rosto inchado irreconhecível, os hematomas, última forma física assumida por Pasolini nesse louco planeta que agora, para você, gira também sem mim.”


Se alguém ainda quiser saber para que serve a literatura, a resposta está dada: para que de vez em quando alguém escreva um poema como esse “H.”, do Carlito Azevedo.

Informação Adicional

Número de páginas 156
Ano 2009
Formato 13x20
Edição Não
Número da revista Não
ISBN 978-85-7577-625-4