Memória de antes cadáver

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Memória de antes cadáver

Sinopse

A protagonista de Memória de antes cadáver encara o mundo com uma filosofia muito própria e singular. “Inigualável, inadaptável, indigna”, como bem se define, ela habita uma existência à margem, na periferia da humanidade, à sombra dos cadáveres. Estranha, alheia às convenções sociais, caminha pelas ruas acompanhada por uma solidão indissolúvel – e sua compreensão do mundo ora lança o leitor ao torvelinho da insensatez, ora inflama uma lucidez dolorosa.


Por meio do abismo pessoal desta narradora, Narjara Medeiros confirma seu dom de criar universos ficcionais riquíssimos, numa escrita que prima pela linguagem saborosa e pela força imagética, num enredo mirabolante. As peripécias desta personagem num mundo estranho e tão cruel quanto ela própria fluem num voo lisérgico de imaginação delirante – e são tão habilmente tecidas que enredam, absorvem e tragam o leitor em sua espiral, como só a boa literatura é capaz de fazer.

Áudio

BATE-BOLA COM NARJARA MEDEIROS


A fim de conhecer um pouco mais a respeito do romance Memória de Antes Cadáver e sua autora, também fizemos um pequeno bate-bola com a Narjara Medeiros. Vale a pena conferir!


PODLER: Como surgiu a ideia para o título do seu romance, Memória de Antes Cadáver?


NM: O título nunca surge inteiramente num rompante de inspiração, ele é sempre trabalhado, manuseado até a exaustão, como o próprio texto literário. Eu penso em algumas palavras que poderiam ser usadas, palavras que naquele momento me seduzem, então durante dias combino essas palavras com outras, como um alquimista que se esforça para reproduzir a química do ouro. Por exemplo, durante a escrita do primeiro livro gostava da palavra “rasteira”, e mais tarde a palavra “caniço” me seduziu sobremaneira. “Caniço” é uma palavra bonita, gosto da sua aparência de mistério e demência e de seu significado simplório. Queria um título que combinasse as duas palavras, então apareceu “rasteira no campo de caniços”. Quanto a “memória de antes cadáver”, a primeira palavra que surgiu em minha consciência foi “cadáver”. Outra palavra que considero forte e bonita. Então devido ao descortinar do texto, ao desenrolar das imagens dramáticas, que se materializaram em forma de memórias, me ocorreu o título completo. Tentei que o segundo título fosse sobretudo fácil, pois o primeiro as pessoas não sabiam o significado da palavra “caniço”. É estranho o fato de palavras desconhecidas provocarem sensações desagradáveis, em vez de provocarem o contrário, ou seja, a surpresa e a curiosidade. Algumas pessoas tem medo de palavras. Você diz “cutelaria” e a pessoa fica amuada, se esgueira e corre para longe. Uma palavra estranha é como uma arma engatilhada. É uma pena, pois as palavras estão desaparecendo.


PODLER: A protagonista do seu livro vive um tanto à margem da sociedade, ou até da humanidade. Esse tipo de existência a transforma em heroína, de alguma maneira?


NM: É curioso pensar no conceito de “heroísmo”. Penso que existe na condição humana, impregnado no mais profundo do Ser, uma inclinação para o heroísmo. Assim como estamos essencialmente formatados para comer e defecar. Dessa maneira, qualquer manifestação humana será potencialmente carregada de heroísmo. Da forma como vejo hoje, a personagem do romance realiza o seu heroísmo em segredo, sobrevivendo numa sociedade onde não se sente à vontade. Como exercer o heroísmo num ambiente onde você se sente estrangeiro? Como salvar aqueles que você deseja ver decapitados? Não a vejo como uma heroína no sentido clássico, de promover um grande acontecimento, mas no sentido de manter o equilíbrio numa corda de espetos.


PODLER: Fale um pouquinho sobre a Casa do Sol.


NM: A Casa do Sol foi construída em 1966, em Campinas, pela Hilda Hilst, escritora que considero o maior acontecimento literário em território nacional até agora, juntamente com Guimarães Rosa. O Nietzsche dizia “escreva com sangue, e o sangue será espírito”. A Hilda materializou esse conselho. Morar na Casa do Sol, mesmo sem a Hilda, foi uma experiência muito especial. Aí conheci duas pessoas que se tornaram grandes amigos para mim, o escritor José Luiz Mora Fuentes e a artista plástica Olga Bilenky, amigos e herdeiros de Hilda. Ela dizia que o Mora era o seu “irmão da alma”. Eram muito ligados os dois.


O Mora Fuentes foi um tipo de homem incomum nos dias de hoje, muito elegante e gentil, cortês nos menores gestos do cotidiano. Lembro de uma situação em que ele plantou flores em frente a janela do meu quarto e do quarto da Renata (a cantora Renata Caldana, que também morava lá), simplesmente pelo fato de que mulheres gostam de flores e é agradável abrir a janela e vê-las pela manhã. E possuía um conhecimento muito vasto de literatura nacional e estrangeira, filosofia, mitologia. Então conversar com ele era exageradamente bom, e ele falava muito bem, transformava histórias banais em acontecimentos fantásticos. Os dias com ele eram divertidos, sempre, mesmo quando estava irritado, pois tinha o talento de acrescentar humor e ironia em todos os assuntos. Tudo com ele era engraçado e agradável, desde tomar o café da manhã até uma simples viagem de carro ao supermercado. E a Olga completava esse movimento, ela trazia a loucura, a inventividade, o improviso. A Olga é um tipo de mulher muito especial, também em extinção. Era uma harmonia perfeita a união dos dois. Além do contato com essas duas pessoas que considero demasiadamente importantes na minha formação pessoal, morar na Casa do Sol me trouxe disciplina e concentração para escrever. É um lugar onde é possível se desconectar do restante do mundo e se voltar para si mesmo, adentrar o labirinto, esse espaço desconhecido que se constrói por dentro. É uma tarefa importante para a escrita. Nesse tempo que passei na Casa do Sol, que foi um tempo de interiorização, descobri que o processo do artista deve ser o contrário. O artista deve fugir de si para entrar no outro, nos outros. Deve estar constantemente em fuga. Constantemente fora de si. O escritor deve ser eternamente nômade, nem sempre um nomadismo espacial, mas no que diz respeito a variação de mundos, de personalidades. “Sinto-me nascido a cada momento, para a eterna novidade do Mundo” (Alberto Caeiro). Escrever é criar formas de vida. Não acredito em artistas comedidos, sedimentados, com medo de explodirem ou de criarem extravagâncias. Medo de provocarem rupturas, de serem apontados como “O Louco”. Os empresários e os engenheiros que criam hidrelétricas devem ser comedidos. Mas os artistas devem estar em constante ebulição. Pois sem isso não há arte. Ter medo é o mesmo que ter pés de areia, rapidamente você desmorona. E se não há medo, toda queda é para o alto. Esse tipo de artista corajoso está em extinção, é uma pena, e nesse sentido Hilda Hilst foi artista de verdade, inteiramente poeta. E a Casa do Sol conserva essa lembrança.


PODLER: Você escreve ouvindo música? Que tipo de música você ouve com mais frequência?


NM: Eu não escrevo ouvindo música. Preciso estar muito concentrada para escrever e a música me desconcentra. Às vezes cito músicas nos textos, mas certamente não estava escutando a música enquanto escrevia. Não consigo imaginar um médico escutando Bach enquanto executa uma cirurgia cerebral. Para mim, no silêncio a inspiração se desenrola com mais habilidade. Em todo caso, eu gosto bastante de música brasileira, acho o Caetano Veloso um gênio, adoro o Jorge Mautner, o Jards Macalé, o Tom Zé, o Belchior, o Fagner (o disco Orós, de 1977, dirigido pelo Hermeto Pascoal, é ótimo), o Arrigo Barnabé, o Eduardo Dussek, a Cida Moreira, o Gonzaguinha, Tom Jobim, Ernesto Nazareth, Villa Lobos, Benjamim Taubkin, Jocy de Oliveira, cem nomes e ainda faltaria muita coisa. O Brasil é um pais essencialmente musical. Acho que a reflexão do brasileiro se dá também através da música, que é uma forma de comunicação (como foi inicialmente a poesia na Grécia, e depois passou a ser a filosofia). Por isso, nossos compositores, nossos músicos, muitas vezes são antes de tudo poetas e filósofos. Por exemplo o Noel Rosa, o Nelson Cavaquinho e o Lupicínio Rodrigues. Ultimamente estou escutando as músicas do JP Simões, um poeta e cantor lisboeta, deliciosamente pessimista. E também a ópera Carmen, do Bizet, com a Agnes Baltsa e regência do maestro Herbert von Karajan. O Paulo Francis dizia que quem não gosta de ópera gosta de “Carmen”. Não é verdade, “Carmen” é deslumbrante. Os homens não gostam dessa ópera, sabemos o motivo: as mulheres avant garde os assustam. Besteira. Só acho uma pena que a Carmen morra no final. Por exemplo, a Cio Cio San (Madame Butterfly, do Puccini) e a Isolda (da ópera Tristão e Isolda, do Wagner) são mulheres bobonas, frágeis, atormentadas pela paixão. Então acho ótimo que o final seja a morte, (“l'amour est un oiseau rebelle / que nul ne peut apprivoiser / o amor é um pássaro rebelde / que ninguém consegue aprisionar”). Mas a Carmen é uma mulher altiva, corajosa, dona de si. Ela não devia morrer.


PODLER: O que é mais importante para você, como escritora, forma ou conteúdo?


NM: A harmonia perfeita entre os dois. Essa harmonia é o charme da escrita, é o estilo.


PODLER: Quais são os seus heróis na literatura?


NM: Os meus personagens.

Informação Adicional

Número de páginas 120
Ano 2011
Formato 14x21
Edição 1
Número da revista Não
ISBN 978-85-7577-861-6