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Belvedere [1971-2007]
Chacal
- Assunto: Poesia
- Formato: 14x21
- Número de Páginas: 382
- ISBN: 978-85-7577-368-0
- Ano: 2007
- Coleção: Ás de colete
Depois de 36 anos de exercício poético e treze livros publicados, Chacal dá uma "parada estratégica para ver a vista" e publica Belvedere, edição de sua obra completa produzida entre 1971 e 2007 que, portanto, traz não apenas os poemas de seus primeiros livros, mas também as produções mais recentes, que demonstram um claro amadurecimento do autor. Entre os doze livros contidos em Belvedere está o pequeno Muito prazer, Ricardo, com o qual o poeta inaugurou sua poesia aos vinte anos de idade. Chacal foi um dos pioneiros da chamada geração mimeógrafo, que tirou a poesia das estantes das livrarias para "cair no mundo". Na década de 1970, com o grupo Nuvem Cigana, realizou, pela primeira vez no Brasil, a poesia moderna falada. Acompanha o volume uma edição fac-símile do livro Quampérios, editado originalmente em 1977 e considerado pelos críticos uma das melhores obras do autor.
Sobre o autor
Chacal é carioca, poeta e criador do CEP 20.000 (Centro de Experimentação Poética). É considerado um dos expoentes da poesia marginal dos anos 70.
Resenha de Belvedere [1971-2007] / Revista eletrônica Trópico (31/12/07)
BOMBA ANTIMONOTONIA
Fabiano Calixto
Em "Nuvem Cigana - Poesia e Delírio no Rio dos Anos 70" (Azougue Editorial, 2007), o editor e poeta Sérgio Cohn contribui com um trabalho de muita competência para a reavaliação da produção poética da chamada contracultura brasileira.
O livro, com um bom material iconográfico e uma pequena antologia, contém ainda depoimentos dos principais protagonistas do grupo da poesia marginal carioca dos anos 70, uma prosa com poetas, como Chacal, Charles, Ronaldo Santos, Ronaldo Bastos, Bernardo Vilhena, entre outros.
Cohn extrai a atmosfera daquele período em que jovens que amavam a vida, a poesia, os Beatles e Bob Dylan, em seu QG no o píer de Ipanema, oásis antiditadura, nas famosas dunas da Gal (por onde passavam as pessoas de "língua alada"), armavam seu plano de resistência poética, pois, para eles, a única e verdadeira arma contra a ditadura era a poesia, essa bomba antimonotonia.
Marcada pela brutalidade do período militar e pela loucura do período pós-hippie, essa geração deu uma forte contribuição ao panorama da cultura brasileira do período e também do momento seguinte -como bem observa o organizador.
Além da invenção da poesia moderna falada no Brasil (na expressão feliz de Chacal: "poesia propriamente dita"), influenciou, na música popular, os grupos de rock dos anos 80, para onde alguns migraram como letristas, e, no teatro de besteirol, com o grupo Asdrúbal Trouxe o Trambone.
Tentou-se, por um longo período, desabonar a poesia desta geração, acusando-a, como se acusa até hoje Oswald de Andrade, de brincalhona e sem seriedade.
Na verdade, creio que essa poesia era realmente lúdica e divertida. E não tinha mesmo a seriedade, que vestia muito melhor os generais e a repressão do que uma juventude sufocada e repleta de sonhos -não de um mundo ideal, mas de um mundo melhor. A poesia marginal foi entendida pelo avesso errado. Ou não foi entendida.
Mas o que realmente importa é a reavaliação por que passa hoje. É poder notar como ela é feita de muitas boas idéias poéticas, de irreverência, de provocação, de jogo, além de manifestar com tanto vigor a "doença da época", como diria Chacal: a doença de querer, mais que escrever, viver a poesia.
O fauno de calça Lee
"aqui/ o amanhecer/ vai me encontrar/ agora", diz um dos poemas de "A Vida É Curta Pra Ser Pequena", um dos livros contidos neste "Belvedere", reunião da poesia completa de Chacal, escrita entre 1971 e 2007 (ed. CosacNaify/ 7Letras). O livro é uma boa oportunidade para o leitor ir ao encontro do amanhecer sempre novo desse poeta ligado à geração da chamada poesia marginal, que proporcionou outras cores para a literatura brasileira naquele momento nublado da ditadura militar e dotou a poesia de uma liberdade incrível.
São 13 livros, de "Muito Prazer, Ricardo" a "Belvedere", em que se nota que a poesia de Chacal, bem feita, livre e leve, também chega à beira dos 40 anos com um gosto extremamente jovial.
Acertadamente o poeta e crítico Manoel Ricardo de Lima chama a atenção para a sinceridade contida na trajetória do poeta. Entendo essa sinceridade como um modo de perceber o mundo sem colocá-lo dentro de perspectivas pasteurizadas, falsas, mas que, ao contrário, mantém um caráter de cumplicidade entre autor, obra e leitor.
Uma sinceridade que há mais de três décadas vem assobiando, chupando cana e fazendo poesia. O que, sem dúvida nenhuma, é muito difícil manter sem cair numa espécie de fraqueza, num autofuzilamento.
Os poemas de Chacal também são divertidos. E a diversão de seus poemas está no modo como ele opera a linguagem, na sua imaginação melodiosa e, em muitos momentos, nonsense, como no hilário "Modificado": "eu hoje acordei modificado/ nasceu um rabo no meu suvaco/ não sei se foi o cu que eu comi ontem/ tava escuro e eu tava com fome (...)" .
A herança oswaldiana é declarada e aberta. Sem crise, ou angústia, como preferem alguns. Porém, esse diálogo é aberto, jamais fechado, o que, se assim fosse, o tornaria um epígono, coisa que passa longe de ser verdade. Tanto é que a alegria da composição que havia na obra de Oswald aparece aqui, só que bronzeada, com camisa florida e chinelas de dedo:
"nasci pra ser calígrafo mas de tanto dar topada me transformei num topógrafo até topar com o Topogígio minha sorte então mudou penetrei a poesia conheci o que é o amor hoje sou feliz pra tutuca"
A experimentação de Chacal tem partes com a vida, não só com a poesia. Isso é um elemento importante para a longevidade de sua obra. Um "antropofágico pagão", "fauno de calça lee", "orfeu fudido", se apaixonando e se embriagando ao som de Neil Sedaka para apagar a solidão de poeta na idade do rock, mas ainda em busca da palavra gaiata e gostosa, sempre no limite entre a loucura e a razão e, no sufoco, como dizem os poemas de seu melhor livro, "América", de 1975. A experimentação que ultrapassa o limite das páginas do livro e cai de corpo e alma na vida.
É um gesto muito importante recolocar em circulação a obra de Chacal, que não tinha uma obra em grande circulação há décadas. As novas gerações de leitores podem assim desfrutar da visão deste "Belvedere". Uma visão de mundo. Dentro do mundo.
ANTOLOGIA MÍNIMA
CHACAL
Prezado cidadão
colabore com a Lei.
colabore com a Light.
mantenha luz própria.
Poema para ser transfigurado
quem somos
o que queremos
logo logo saberemos
por enquanto
sabemos
que um gesto
uma palavra
podem transformar o mundo
qual deles
qual delas
saberemos já já
essa a missão do artista:
experimentar
por isso somos preciso
por dar nossas vidas
pelo que - ainda não - é
pelo que - quem sabe - será
o que somos
o que queremos
saberemos juntos
já já
RONALDO SANTOS
copacabana
princesinha traída
currada
aída cury despencada num trigésimo andar de alumínio e mármore
estatelada no calçadão gélido destes tempos modernos
sem que uma só mariposa ronde o cadáver de tuas luzes de mercúrio
do teu jeito falso de classe média
de todos os cafajestes
de tua imensa sinceridade
*
um lance de dados jamais abolirá os doidos
um lance de doidos jamais abolirá os dados
CHARLES PEIXOTO
Diário de bagos
quando você se abaixa pra pegar um disco
com seu vestido curtinho
delicioso
aparece a calcinha no rego moreno da bunda
curto muito
meu olhar derrete de prazer
não há como enganar a evidência
desculpe o volume do lado esquerdo da calça sem cueca
com tesão não se trinca
antes todos entendessem e se dedicassem de corpo e
cama
obs.: meu pau esquecidamente duro
cai no esquecimento
Drama familiar
mais um berro histérico
e mato um
BERNARDO VILHENA
Vida bandida
Chutou a cara do cara caído
traiu o melhor amigo
corrente soco-inglês e canivete
o jornal não poupou elogios
sangue & porrada na madrugada
É preciso viver malandro
não dá pra segurar
a cana tá brava a vida tá dura
mas um tiro só não dá pra derrubar
correr com lágrimas nos olhos
não é pra qualquer um
mas o riso corre fácil
quando a grana corre solta
precisa ver os olhos da mina
na subida da barra
aí é só brincadeira
ainda não inventaram dinheiro
que eu não pudesse ganhar
Revanche
eu sei que já faz muito tempo
que a gente volta aos princípios
tentando acertar o passo
usando mil artifícios
mas sempre alguém tenta um salto
e a gente é que paga por isso
fugimos pras grandes cidades
bichos da mato em busca do mito
de uma nova sociedade
escravos de um novo rito
mas se tudo deu errado,
quem é que vai pagar por isso?
a favela é a nova senzala
correntes da velha tribo
e a sala é a nova cela
prisioneiros nas grades do vídeo
e se o sol ainda nasce quadrado
quem é que vai pagar por isso?
o café, um cigarro, um trago,
tudo isso não é vício
são companheiros da solidão,
mas isso só foi no início
hoje em dia somos todos escravos
e quem é que vai pagar por isso
eu não quero mais nenhuma chance
eu não quero mais revanche
GUILHERME MANDARO
que não seja o medo da loucura
que nos obrigue a baixar
a bandeira da imaginação
*
quando a escolhi por companheira
habitava um quarto de hotel
e fazia mágica por correspondência
Resenha de Belvedere [1971-2007] / Folha de São Paulo (23/07/07)
CHACAL ABANDONA O MIMEÓGRAFO E É "REDESCOBERTO"
Rafael Cariello
O livro, ponto de chegada de uma produção de três décadas e meia, se chama "Belvedere" (Cosacnaify, 384 págs.) -"um lugar a que você vai para ver a vista"-, mas podia bem ter por título "Muito Prazer, Ricardo", número dois.
O "número um" foi o livro de estréia, em edição mimeografada, do poeta Chacal, em que se apresentava em 1971 com seu nome "civil" no título e um programa de ação disfarçado de saudação e cumprimento.
Seus poemas curtos, de inspiração na leitura que o garoto de Copacabana fazia de Oswald de Andrade, e seu "modo de produção" independente das grandes editoras influenciaria uma geração de escritores, que já produziam ou que descobriam então a poesia, nos anos que se seguiram.
Em tempos de rígida ditadura, a poesia "marginal" -às margens do sistema de produção editorial, explica a crítica Heloisa Buarque de Hollanda para esclarecer o termo- dava uma resposta, em livrinhos de produção artesanal, que de cara podia ser rotulada como "alienada", mas que era ao menos uma tentativa de resgate da leveza perdida, de afirmação da vida num momento de obscurantismo.
Dela participaram de "eruditos", estudantes, professores universitários -como Ana Cristina César, Cacaso, Francisco Alvim e Roberto Schwarz- aos "porra-loucas" do Nuvem Cigana, como Charles Peixoto e Bernardo Vilhena, que tornaram a leitura de poemas um evento teatral e deram lugar central à oralidade, ao verso em voz alta.
A mesma defesa do prazer e do presente aparece agora em "Belvedere", volume em que a Cosacnaify reuniu todos os livros de Chacal e alguns poemas inéditos, só compilados agora.
A obra mostra a continuidade dos valores caros a Chacal e sua evolução como poeta. O autor do livro de estréia dizia: "chegou a hora de amar desesperadamente/ apaixonadamente/ descontroladamente/ chegou a hora de mudar o estilo/ de mudar o vestido/ chegou atrasada como um trem atrasado/ mas que chega".
Num poema da última leva, estão lá os versos: "hoje viemos dizer pra família/ que não vamos mais terminar os estudos/ e que nossa carne curtida, nosso olho vermelho,/ nosso sorriso encarnado e, principalmente, nosso silêncio/ dizem tudo".
"O horizonte utópico da poesia marginal era "vamos mudar o presente'", diz Augusto Massi, editor da Cosacnaify.
Ele afirma que Chacal foi influência importante mesmo para poetas que já haviam produzido algo antes de "Muito Prazer". De fato, Cacaso, por exemplo, em seu livro "A Palavra Cerzida", de 1967, tem em muitos poemas uma dicção que lembra a de João Cabral de Melo Neto. No seguinte, já há versos como: "Um telegrama urgente/ anuncia a bem-amada/ para o século vindouro./ Arfando diante do espelho/ principio/ a pentear os cabelos".
Chacal vem sendo "descoberto", se é que vale o termo, fora do Rio de Janeiro, onde nunca saiu de cena, atravessando décadas com as apresentações coletivas de poesia falada, teatro e performances. Apresentou-se na última Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), lendo poemas. Tem o "Belvedere", livro que pára em pé, ele brinca, em oposição a seus livrinhos de antigamente.
E a Azougue Editorial lançou "Nuvem Cigana - Poesia & Delírio no Rio dos Anos 70" (R$ 36, 224 págs.), que trata do grupo formado na segunda metade dos 70 por Chacal e amigos, que cruzaria experiências com o grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone e de onde sairia boa parte do pessoal que faria a cultura pop do Brasil nos anos 80, com produtos como Blitz e "Armação Ilimitada".
Para seu editor Augusto Massi, a obra mostra que Chacal mudou ao longo do tempo, passando de versos mais "crus", que partiam de uma experiência de pouca erudição e leitura, para um poeta que conhece e domina a tradição da poesia moderna brasileira.
"Do ponto de vista literário, o Chacal com o tempo foi conhecendo a tradição. Ele depois bebeu dela. Agora ele é um poeta inserido num contexto, não é mais um franco-atirador."