Monodrama

Carlito Azevedo

  • Assunto: Poesia
  • Formato: 13x20
  • Número de Páginas: 156
  • ISBN: 978-85-7577-625-4
  • Ano: 2009

"Monodrama" vem quebrar o jejum de 13 anos de Carlito Azevedo, um dos mais importantes poetas brasileiros da atualidade. Este é o livro mais político, no sentido amplo, do autor, mas também o mais irreverente e emocionado. Poemas extensos e uma multiplicidade de personagens surgem destas páginas nas quais predomina a figura do imigrante, do clandestino, do outro a quem o mundo hostil fecha portas. Se o desencanto político dá o tom dos poemas iniciais, a pauta mais autobiográfica da série "H." é uma novidade no estilo do autor. Neste texto dedicado à experiência da doença e morte da mãe, o autor convoca a ironia e a emoção para afrontar a grande contradição humana: a certeza e a inconformidade com a perda.

Entrevista com Carlito Azevedo / Jornal do Brasil/ Caderno Ideias/(20.11.2009)

Juliana Krapp, Jornal do Brasil

RIO - Não fossem as espinhas, o poeta Carlito Azevedo já teria pendurado as chuteiras. A empreitada dos versos seria substituída pelo expediente atrás do balcão, numa papelaria do Largo do Machado, seu atual sonho de consumo. Nunca mais passantes, cimitarras suicidas e noites gris. No lugar dos blocos da marca União que carrega no bolso, preenchidos com letra labiríntica durante suas caminhadas pelo Centro do Rio (o roteiro invariavelmente envolve uma parada na Leiteria Mineira, onde é freguês do milkshake de R$ 11), exibiria à clientela cadernos de brancura imaculada, tinindo de novos.

Mas, para o bem da poesia brasileira, há a metáfora clariceana das espinhas, erupções que atestam, tal e qual bandeiras de pura impertinência, o caráter fisiológico do fazer literário. É dela que se vale Carlito para justificar seu retorno às livrarias com Monodrama (7Letras, 156 páginas, R$ 37), depois de 13 anos sem publicar um livro de inéditos. (E, a esta altura, lembremos que, num de seus chistes mais famosos, o poeta já recorrera à galáxia de hormônios e camadas epidérmicas, quando, em plena Flip-2006, revelou que começou a fazer versos “para conquistar namoradas”; e que, se continuou, foi para mantê-las).

 Mais de uma década depois de Sob a noite física (Sublunar, de 2001, é uma antologia que reúne seus livros anteriores), a obra inédita que agora vem a lume representa o contato do poeta com seu próprio desencanto. E, em vez de selar o término, expõe a longa crise que tomou de assalto sua produção poética nos últimos anos – e que culminou com o desaparecimento, depois de 10 anos de circulação, da revista Inimigo Rumor, criada e editada por Carlito.

Que o leitor, porém, não espere lamúrias deste Monodrama, livro de estilhaços luminosos, povoado por terroristas, cheiro de hotéis baratos e desconcertantes meninas estrangeiras. Livro que, para roubar a expressão de um de seus poemas, é um “sopapo da claridade”: arrebatador, equipado com todos os truques desencantados que fazem da poesia o melhor – possivelmente o mais insuspeitado – jogo de espionagem de nossos dias. Talvez por isso, a imagem que ilustra a divisão entre os capítulos seja tão apropriada: num protesto na França, o velho lema “grêve générale” (greve geral) perde o “g”, e vira “revê générale” (sonho geral).

 Numa entrevista ao jornal português Público, você disse que andou “um pouco desconfiado” do gênero poesia. No que consiste essa desconfiança?

Uma crise pessoal me levou, e não só em relação à poesia, a viver aquilo que alguns psicanalistas chamam de o momento do “des”. Que é quando o que era confiança vira desconfiança, o que era equilíbrio vira desequilíbrio, o que era ordem vira desordem. Nunca fui o tipo de escritor que se sente confortável com a literatura, mas meus primeiros livros tinham sido tão bem recebidos, que eu me acreditava capaz de manter com o mundo uma troca mágica e ilusória: ele me forneceria os elementos, as paisagens, as passantes, e eu os depuraria em poemas, e assim seguiria em frente uma vida tranquila e idiota, sem inquietações nem auto-questionamento. Mas o mundo, a vida, tudo me mostrou a falsidade desse pacto me atingindo direto no coração, mostrando sua face brutal e me desafiando: “Escreve agora”. Foi o que quis mostrar quando pus a epígrafe de Georg Trakl – “Esgotou-se a fonte de ouro dos dias”, no Sob a noite física, de 1996. Já percebia que algo tinha se quebrado, só não tinha a dimensão do estrago. Muito tempo passou sem publicar um livro inédito. Para mim, abrir uma papelaria seria melhor do que publicar um livro de poemas.

 Vender cadernos é melhor do que fazer versos?

Talvez porque eles não tenham nada escrito.

 Treze anos sem publicar livro é muito tempo, não?

Com tal desconfiança, o insólito é que alguém ainda chegue a publicar um livro novo. Mas acontece que qualquer um pode deixar de escrever, mas ninguém pode deixar de sentir, de ter sentimentos. Além disso, eu, secretamente, tentei de várias maneiras criar uma margem para o exercício literário. Fundei a Inimigo Rumor , li os clássicos como se deles dependesse a minha salvação, passei a ministrar oficinas de poesia onde lia com os alunos os poetas que mais mexiam comigo. Abandonar a literatura, como fazem alguns, me parecia uma falsa saída. O mundo me oferece tão poucas coisas que eu ame de verdade, como ia fugir daquilo que sempre me pareceu a mais linda invenção humana? Se depois de tudo ainda consegui preparar um livro novo é porque fui buscar no veneno o antídoto, e porque escrever é mesmo como arrancar espinhas. Um dia você acorda e elas estão ali, como dizia a Clarice, então é preciso arrancar. A gente espreme e, ploft, sai a espinha, ou o poema. Não é mais tão glamouroso quanto o antigo pacto poético com o mundo que se abriria como uma flor ao toque do poeta, é até obscena essa nova perspectiva da criação. Quem pode se orgulhar de passar o tempo todo espremendo espinhas publicamente?

Hoje sua poética é outra?

Como insinuei anteriormente, já fui um bobo que acreditava no poema como essência. Hoje o arrasto o máximo possível para junto da prosa, onde pelo menos não vejo a linguagem andar com aquele narizinho empinado de quem trava relações privilegiadas com o oculto e o mistério. Como é ridículo agir assim no chiqueiro cotidiano, espremidos entre o favelizado comércio criminal e o fascismo assassino dos choques de ordem. E olha que eu vim de uma ideologia estética que considerava a linguagem poética em oposição à linguagem cotidiana, que seria “automatizada” e “não-criativa”, mera moeda de troca. Hoje até os formalistas russos entenderiam que a linguagem poética é que está automatizada na sua caixinha de sonoridades, enquanto a linguagem cotidiana exerce a criatividade possível e impossível de quem enfrenta o contato furioso da existência. Não escrevo prosa, o que no Brasil é, hoje, com honrosas exceções, sinônimo de falta de imaginação, mas minha poesia segue menos uma poética que uma prosaística.

É curioso porque você diz que um dos atrativos do poema é a sua mancha gráfica, o desenho dos versos na página.

Mas leve em conta que escrevi este livro contra mim, contra meus hábitos, contra meus vícios. As cassandras interiores vivem me repetindo que desse modo perderei meus antigos admiradores, sem com isso conquistar nenhum outro em troca. Mas também isso já pouco importa. Aliás, apesar de meus livros anteriores chegarem a ter quatro reimpressões, fiz questão de pedir ao Jorge Viveiros de Castro, editor da 7Letras, que esgotada a primeira tiragem deste livro, ele não fosse mais reimpresso. Esse escrever contra mim é ainda a tentativa de uma margem para o exercício literário de que falei, da busca de uma possibilidade de ainda escrever quando tudo o que era encantamento virou desencanto, e o desencanto um contorno espiritual.

Mas será que a impossibilidade da reprodução não vai fazer com que o Monodrama, longe de se esgotar, acabe virando um livro-fetiche?

Estou bem longe disso, e a tiragem dele é enorme para poesia. Mas o que importa no destino de um livro não tem relação com o fato de ele virar um livro-fetiche ou um livro-encalhe, nem com o fato de ele ser muito ou pouco reeditado, muito ou pouco falado. O que importa no destino de um livro é ele encontrar os leitores que o reinventarão.

Seus poemas também estão mais longos.

Os poemas estão mais narrativos e extensos, na contramão da linguagem twitterizada, com sua regra dos 140 toques. O que ocorre é que as coisas aparentemente mais disparatadas começaram a apresentar, para mim, nexos inesperados. Assim, a tensão erótica dos hotéis baratos, a repressão policial, as turbulências econômicas, o tráfico de imigrantes e o terrorismo, por exemplo, pareciam se espelhar, pareciam fazer parte do mesmo poema contemporâneo. Daí os poemas longos, mas também entrecortados, cheios de planos quase antagônicos, mudanças bruscas de cena, o que quebra um pouco a linearidade do extenso.

Falando na tensão erótica dos hotéis baratos, e lembrando as espinhas obscenas aí de cima, este é o seu livro mais desbocado?

Uma das cenas que prefiro no livro é a ereção do segurança do banco ao ver pela câmera, em meio a uma manifestação, a menina de seios grandes, olhos de guepardo, leitora de Rilke. Aquilo é quase um cine-pornô.

Imigrantes e estrangeiros aparecem no Monodrama, um mergulho no cruzamento de nacionalidades e referências. Você cria um universo peculiar, que abarca manifs, menina coreana, traduções do russo, Berkeley, Barthes e Habib's. Que atmosfera é essa? Tem a ver com o rêve générale?

Mais que um sonho geral, parece um pesadelo geral. A imagem quase cotidiana daqueles novos navios negreiros chegando com milhares de refugiados da África a uma Europa toda fascista que arma barreiras contra sua entrada é forte demais. Como se diz, todo paraíso termina numa cerca de arame farpado. Sem falar na sorte clandestina de tantas mulheres que emigram do Leste Europeu para uma vida absurda em Portugal, Itália e Espanha. Um dos detonadores deste livro foi uma menina coreana que vi se picando no Aterro numa noite de apagão não tão desastroso quanto este último (por isso o poema dedicado a ela começa com o verso “Foi quando a luz voltou” e termina falando em novos dias sem luz alguma além dos faróis da avenida). Era o mesmo drama, com outras tonalidades, ali na minha frente. Nada que eu tenha visto me pareceu jamais tão sem futuro quanto aquilo. A partir daquilo resolvi sair escrevendo as ruínas desse pesadelo, que culminou, para mim, na destruição física e mental de minha mãe, Hilda, narrada no poema “H.”, ponto em que encerro o livro e, se eu tiver ainda alguma dignidade, meu dramalhão particular com a poesia.

Quando você diz “dramalhão particular com a poesia” está se referindo ao pesadelo que acaba de citar, ou está simplesmente afirmando que pensa em parar de escrever?

A possibilidade de parar de escrever é algo que sempre temos que ter à mão. Dizem que a própria possibilidade do suicídio já salvou a vida de muita gente, que sabe que dispõe desse ato extremo. Mas o que quero dizer é que desejo escrever um livro de poemas-piada. O chileno Nicanor Parra, que está com 93 anos e muito vivo, é hoje um dos meus deuses poéticos.

“Nenhum poema/ é mais difícil/ do que sua época”, diz um trecho do “Tubo”, um dos textos do livro. Como nossa época – difícil? – marca o Monodrama?

Há tempos sabemos que em certos autores de ficção-científica vamos encontrar a melhor e mais devastadora reflexão sobre nossa época. Na sua última entrevista, Stanislaw Lem, autor do romance Solaris, se dizia decepcionado com o rumo tomado pelo avanço tecnológico. Ele exemplificou dizendo que se digitarmos em um buscador a palavra “felicidade”, teremos, em um zeptossegundo, cinco milhões de textos sobre a felicidade. “Mas em quê isso nos aproxima um milímetro que seja da felicidade?”, pergunta ele. Talvez só nos deixe 5 milhões de textos mais distante dela. O grande engodo da época é afirmar que encontrou inúmeras soluções simples e possíveis para os nossos problemas tão complexos. É claro que se você é uma dessas pessoas cujo grande tormento espiritual era o fato de um telefone não bater fotos nem tocar música, a vida moderna de fato foi feita para a sua felicidade. O meu pessimismo, refletido no Monodrama, vem da constatação de que as muitas possibilidades abertas pela tecnologia só existem para tornar mais difícil o encontro com aquela única que seria de fato importante para sua realização pessoal. Travamos uma guerra contra as quantidades absurdas, com aqueles números cheios de zeros que transformam tudo numa abstração.

A poesia está hoje menos identificável?

Como as leis do mercado rezam que para melhor gravar seu nome na memória dos consumidores de livros, o escritor deve se destacar em alguma outra área, seja a magia branca, a prática do boxe ou a criação de galinhas, talvez eu devesse também acrescentar ao meu alguma dessas ilusões tão reconfortantes. Só que não estou atrás de ilusões, nem de conforto, nem de consumidores de livros, leitores já me bastam. Os jovens têm muitas razões para tentar escapar dessa piada, ou ao menos dissipá-la entre outras mil. Não os condeno. Quem quer ser o esquisitão?

É verdade que a Inimigo Rumor encerrou os trabalhos?

Os blogues acabaram com as revistas literárias. Restam duas ou três, de que falamos como se fossem botos cor-de-rosa, ararinhas azuis, animais em extinção. Você lança o número um e na semana seguinte já é uma raridade. Pior para a vida. Ainda bem que em dezembro teremos mais um número da Modo de usar & co. As pessoas que estão ao redor dessa revista, editando ou participando, têm uma alegria e uma potência que são das poucas coisas que me animam atualmente.

Você não respondeu.

Acho que não digo nenhuma novidade se afirmar que vivemos um momento de desencanto político, não é? As pessoas não se sentem mais animadas, por descrença, a uma ação política. Pois bem, assim é meu desencanto poético. Mas tal como as pessoas, por uma necessidade natural, acabam criando, fora dos moldes tradicionais, formas mais contemporâneas de ação política, como as passeatas GLBT, estou sempre tentando criar uma margem para a ação poética. No fundo, é preciso reinventar a Inimigo Rumor.

 

Entrevista com Carlito Azevedo / Jornal Público (PT)/ (03.04.2009)

Para entender o mundo, vou ler os poetas novos
03.04.2009
Por: Alexandra Lucas Coelho

O poeta brasileiro Carlito Azevedo co-editou uma revista com Portugal, mas houve um choque de ritmos: os portugueses produziam demasiado. Agora, gostava de voltar a essa parceria. Esteve em Lisboa há dias, para o Dia Mundial da Poesia. Só de a ler, Adília Lopes continua a ser a mulher da vida dele

Nascido em 1961, o poeta e editor Carlito Azevedo abriu a revista "Inimigo Rumor" a poetas nascidos entre os anos 70 e 80, e foram eles que o fizeram voltar a escrever, dez anos depois do seu livro "Sobre a Noite Física" (publicado em Portugal na Cotovia).

Os novos poemas podem ser lidos não em livro mas online (destaque para o longo inédito "O tubo", na revista "Modo de Usar": http://revistamododeusar.blogspot.com/2008/10/carlito-azevedo_06.html). A Internet é um bom meio para a poesia anti-monumento em que este carioca acredita.

Veio a Lisboa participar no Dia Mundial da Poesia celebrado no CCB.

Apesar de continuar uma amizade dos dois lados, perdeu-se a parceria Portugal-Brasil que existiu na "Inimigo Rumor". Porquê?

É bom que se diga que a amizade continua, pode parecer que foi uma briga. O que acontece é que sempre pensei a revista em metamorfose. Nenhum número se parece com outro porque a vida muda. Quando foi sugerida a parceria, muita gente no Brasil foi contra: "Porquê? A revista é aqui." E eu falei: "Não, a grande metamorfose vai ser agora, ela virar binacional." Só que essa metamorfose continuaria, incluindo ela deixar de ser binacional.

Por um lado havia as dificuldades técnicas: tudo era impresso no Brasil e tinha que ser mandado para cá. Depois, eu tinha um espírito mais anárquico, e havia uma diferença: aqui ela era editada por críticos e no Brasil por poetas. Não vou ocultar um choque de sensibilidades. Não que algum lado estivesse certo ou errado, mas houve um choque. Houve uma predominância de textos críticos quando começou a parceria, talvez por isso, por aqui ser editada por críticos. No número sobre Ruy Belo havia bem essa divisão, sempre um ensaio a cada ciclo de poemas.

Disse que uma das coisas de que se arrependia era de ter baixado a guarda em relação a esse número.

[Rindo] Essa expressão é minha, mas onde eu disse isso?

Numa entrevista.

Na verdade, com o tempo passando, não imagina como Ruy Belo foi importante para a poesia brasileira. Hoje existem várias dissertações sobre ele e as pessoas colocam lá um agradecimento à "Inimigo Rumor". É um número muito bonito, eu amo o Ruy Belo, acho um poeta fundamental, e ter trazido aquilo para o Brasil foi bom. Mas talvez seja uma coisa que se descubra depois. Talvez eu ter baixado a guarda tenha sido um erro e um acerto. Eu não achava que o número tinha de ser tão grande - porque foi enorme! Mas, menos que uma revista perfeita, me interessa que ela tenha uma eficácia nos poetas contemporâneos. Então se houve essa transformação, se poetas como Manuel Ricardo de Lima e Tarso de Melo anunciaram esse golpe do Ruy Belo, têm com ele a reacção que tive com Adília Lopes, para mim já está completamente cumprido. Isso é que é interessante, que aquilo tenha provocado turbulência na poética nacional, que era menor sem o Ruy Belo. Disso não me arrependo nada.

Talvez eu me estivesse referindo a outra coisa. Havia sempre uma questão lá no Brasil: "Puxa, os portugueses estão ocupando muito espaço na nossa revista, eles editam quase tudo!" E aqui eu tenho que louvar a competência e o poder de trabalho dos editores portugueses, principalmente o Pedro Serra e o Osvaldo Silvestre, na produção de ensaio, enquanto o ritmo brasileiro era mais preguiçoso. Quando chegava a altura de organizar a revista, a gente ainda não tinha feito quase nada e eles já tinham tudo pronto! Aí saia a revista e era toda de Portugal [ri-se até as lágrimas]. "Pô! O que é que a gente andou fazendo?"

Quando encontro algum amigo que não vejo há muito e ele pergunta o que ando fazendo, sempre acho que devia estar fazendo alguma coisa melhor, mais digna daquela pessoa, e era assim que eu me sentia em relação a eles. Me perguntavam: "O que é que vocês fizeram?" E eu não tinha nada para apresentar! Ficava muito envergonhado. Os caras tinham um número completo e eu com dois poemas.

Com a facilidade técnica que existe hoje, havendo gente interessada de um lado e do outro, o que é que se pode fazer para que quem está a escrever poesia em português se possa ler?

Não o acordo ortográfico, com certeza, que não vai mudar nada.

Mas assim como eu quis que a "Inimigo Rumor" fosse uma revista em metamorfose, e virou portuguesa, e não virou mais, nada impede que volte a ser. Inclusive por essa amizade, e por ter vindo a Portugal e conhecido outras pessoas, pode ser que ela volte. Eu adoraria que voltasse. A tecnologia está facilitando tudo.Voltar a ser brasileira e portuguesa só depende de uma coincidência de interesses.

Um lado lindo que tem a poesia é que oficialmente ela está fora do mercado. As leis do mercado se impuseram no romance. Como há possibilidade de ser vendido, fazer dinheiro, virar filme, hoje vejo que os romancistas escrevem com um olho no mercado. A poesia não tem jeito, não vai vender grande coisa, a não ser um grande nome, Drummond, Herberto Helder. A poesia nova não vai vender 10 mil. Isso nos dá liberdade de fazer do jeito que a gente quer. Então o que impediria de fazer um número francês-brasileiro, ou argentino-brasileiro? Nada. A "Veja" ou a "Focus" não podem se dar a esse luxo porque têm de vender toda a semana. Não vai ter um número do jornal feito em parceria com Espanha, o jornal tem uma estrutura. Mas a revista de poesia pode ser o que ela quiser.

A "Inimigo Rumor" é movida a simpatias. Eu queria que um dos próximos números nem fosse em papel, mas um DVD, com extras. Por exemplo, em vez de botar um poema da Marília Garcia, ela monta um clip do seu poema, ou lê-o, em vez de as entrevistas serem transcritas podem ser em vídeo. E depois as pessoas roubam, botam no YouTube, e aquilo vai perdendo o controle, vai-se desfazendo em moléculas. Tudo é possível para essa revista. O que não quero é que seja uma coisa fixa, zelando pelo seu formato.

É também a ideia de que a poesia é mais ampla que a literatura?

Sim. Literatura tem a ver com escrita mesmo, poesia pode ter a ver com escrita, é um dos "flirts" dela, mas nem é o principal. A poesia não nasceu escrita. É tão generosa que às vezes se dá ao luxo de aparecer num livro de poemas. Para mim, a única coisa que a poesia quer ser é imprevisível. A grande condenação que se lhe pode fazer é a previsibilidade. O que vai fazer de um poema um bom poema? O rigor técnico, se a pessoa sabe metrificar? Não. O poder da metáfora? Tem gente que escreve contra a metáfora. Então, para julgar poesia foram-se perdendo critérios, mas um permanece: quanto mais imprevisível mais me agrada.

Existe um poeta no Brasil que fez um livro muito interessante, com nomes de bares que visitou. Era sensacional, imprevisível que no Brasil surgisse aquilo. Quando ele faz o segundo livro falando a mesma coisa, e depois o terceiro, é legal, mas existe uma relação entre previsibilidade e interesse. Uma das coisas que mais me chamou a atenção na Adília é que, de entre os clichés que se faz de uma poesia de um país, lá no Brasil existia a ideia de que a poesia portuguesa ou seria aquela coisa da geração de 61, mais intelectualizada, ou o lirismo derramado. Mas eu não esperava tanta ironia - e tanto amor. Era imprevisível demais. O que tem tudo a ver com não ter o controle. Abrir para o imprevisível é um dos raros prazeres dessa terra.

Diz que não pode gostar tanto de um poeta de outro século como de um poeta do seu século. E está ligado a um grupo de poetas mais novos 10, 15...

... 20 anos.

Abriu-lhes a "Inimigo Rumor", editou-lhes livros, colabora em projectos deles.

Fiquei quase 10 anos sem escrever poesia e até um pouco desconfiado do género depois do "Sob a Noite Física" [disponível na Cotovia].

E a chegada dessa geração em 2000 - da Marília Garcia, do Walter Gam, do Ricardo Domeneck, da Angélica Freitas, da Juliana Krapp, poetas muito novos - foi vital e vitalizadora. Não que tenham resolvido a minha crise, mas a gente fica limitado se chega a um ponto em que escreve um poema e pergunta: "E daí? Para que é que serve?" Entra numa crise muito ruim, porque a poesia em si não tem utilidade maior do que uma caneta ou um curativo. Mas quando você vê gente nova escrevendo coisas que ampliam a sua sensibilidade, onde você via o homogéneo passa a ver diferenças.

Aquele momento de crise que era 2001 - ataque às Torres Gémeas, chegada maciça da informática e da Internet, informação genética, pesquisas com a ciência, fundamentalismos, esse momento muito confuso, que está muito confuso até hoje, entendi-o melhor com os poetas contemporâneos.

Tenho um pouco essa atitude, de cada vez que estou confuso vou ler os poetas novos. Quando houve a invasão do Iraque, não lia muito os jornais, mas procurei os poetas.

E nisso, ter uma revista de poesia é interessante: o que os poetas de Bagdad estão escrevendo hoje, o que os poetas na China estão escrevendo hoje? É um tipo de informação diferente dos jornais, dos blogues.

Para mim é mais fácil entender o século XIX lendo Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, do que toda a historiografia. Quando eu os leio me sinto coincidindo com aquele tempo.

Então a esses poetas eu devo a compreensão de que talvez o meu silêncio viesse da exaustão de uma forma de viver a experiência poética, que já não combinava com a minha forma de viver a vida, que é o que interessa. Se a gente fala de poesia está falando de vida, essa porosidade neles é muito interessante. Não entre a verdade e o escrever, mas entre viver e escrever, o que é uma fimbriazinha subtil.

Lendo esses poetas novos percebi que a minha relação entre viver e escrever estava desequilibrada, porque a minha vida tinha-se modificado, mas não a minha poesia.

Do que se está a publicar em Portugal, o que é que conhece e lhe interessa?

Bom, inescapável, inescapável...

Adília Lopes.

É o amor da minha vida. É a mulher da minha vida - que nunca vi!

Quando a Inimigo Rumor fez 10 anos, a entrevista era com a Adília Lopes.

E quando fez cinco anos também.

O valter hugo mãe foi ao Brasil e me apresentou poetas que achei interessantes, mas não acendiam a chama. Depois falou: "Acho que você vai gostar mesmo é de Adília Lopes, mas não tenho nenhum livro dela aqui. Quando chegar no Brasil eu lhe mando." Aí um dia chegam pelo correio dois poemas, "Os desastres de Sofia" e "A Elisabeth foi-se embora". Depois escrevi para o André [Jorge, editor da Cotovia] perguntando se na livraria dele havia algum livro dela e ele me deu de presente uma caixa com todas as primeiras edições. Mas por mais que eu a amasse depois, tudo já estava naqueles poemas: ali foi o encontro. De madrugada telefonar para todos os amigos lendo aquilo. Alguns adoravam, outros me chingavam. Convidei uma crítica, a Flora Süssekind, para um café só para mostrar os poemas e ela ficou tão deslumbrada quanto eu. Falou: "Precisamos de organizar uma antologia." É o inexplicável. Você encontra uma pessoa e sabe que vai amá-la para o resto da vida.

Ainda que agora ela lance um livro que não me agrade tanto, já escreveu tantas coisas tão lindas, tão maravilhosas, que a quero e cultuo como a minha poeta de eleição.

Em língua portuguesa?

Em qualquer língua. Fico arrepiado quando lembro [passa a mão no braço]. Fiz questão de não procurá-la. Não precisa, já tem a Adília da mente.

Fora ela, conheci o Manuel de Freitas, até me correspondi com ele, me mandou alguns livros, gosto muito dele, acho um poeta interessante. O António Franco Alexandre tem um livro, "Quatro Caprichos", que é meu sonho editar no Brasil. A Adília já consegui, agora o meu plano é António Franco Alexandre. Acho-o bárbaro, um poeta fenomenal.

A poesia que mais gosto é a poesia em metamorfose. Eu tinha, talvez pela influência da pintura, a obrigação que um poema durasse uma página. Me sentia com aquele incómodo de alguém que aplaude uma ópera que não acabou, e você é o único a aplaudir.

Hoje, a grande aventura está em não saber quando aplaudir - e por que não aplaudir naquele momento? Um poema que você não sabe se continua na próxima página ou não, como se cada virar de página fosse um momento perigoso, na corda bamba, em que você pode cair. Mas de onde? Do seu pedestal de bom leitor. Tem que ter humildade, o poema é maior que você, e ser enganado por ele não tem nenhum problema. O poema tenta fugir, e às vezes é o leitor que vence.

É essa relação de perseguição e fuga que hoje me faz fazer poemas longos, até contra a ideia de ter o controle total sobre o poema. Da forma como hoje o vejo, nenhum poema acaba. Não existe mais o clique que faz o poema fechar. Ele pára por alguma impossibilidade, e no próximo continua, porque mais que uma criação de pequenos objectos a poesia é um devir, uma metamorfose do seu pensamento se fazendo.

O oposto da ideia de pontos luminosos.

Os pontos luminosos são uma imagem muito boa, mas talvez os pontos de escuridão sejam agora mais misteriosos. Ou pelo menos a escuridão é tão boa quanto a luz.

Num ensaio para a revista "Modo de Usar" online (http://revistamododeusar.blogspot.com/2008/10/carlito-azevedo_06.html), Ricardo Domeneck descreve o surgimento de Carlito Azevedo no momento de um baixar de braços entre os pós-concretistas e os marginais cariocas.  Você apareceu, em 1991, não recusando nada, reclamando-se da poesia concreta, da marginal, do surrealismo, do João Cabral, aproveitando o que lhe interessava de cada. A sua geração é a primeira que pode aparecer assim, a que pode cruzar tudo, com liberdade para sair das contendas entre movimentos?

O que acontece também é que o final dos anos 70 e começo dos 80 foi um momento de muita tradução no Brasil. O Ezra Pound até diz que um bom momento poético é sempre precedido por um momento de muitas traduções. O espaço ficava limitado entre marginais e concretos, porque só se lia o que eles traduziam. Por exemplo, os concretos faziam o seu elenco com os "Caligramas" do Apollinaire, o "Lance de Dados" do Mallarmé. Era trazer o outro, mas um outro que era o mesmo, era sempre traduzir na poesia de Ezra Pound o que confirma o que eu penso, traduzir na poesia de Cummings o que confirma o que eu penso, não o que contesto.

Mas Haroldo de Campos traduziu muitíssimo.

Mas raras vezes traduzia uma obra inteira. Eles traduziam fragmentos que eram o que chamavam pontos luminosos. Podiam traduzir até a Bíblia, mas o que remetia para uma concretude da linguagem. E os marginais traduziam os "beatnicks". Então ficava parecendo que só existiam esses dois pólos.

Mas nesse fim dos 70, começo dos 80, saiu uma boa tradução do Wallace Stevens, sairam traduções de poesia hispano-americana, que, apesar da proximidade, não eram muito traduzida. Então começámos a conhecer poetas peruanos, a poesia argentina e a chilena entraram com mais força, a tradição do leste europeu...

Czeslaw Milosz?

Foi fundamental. A Wyslawa Szymborska. O Joseph Brodski, que não tem mais nada a ver com o Maiakovski, com o futurismo russo, que era o que os concretos traduziam. Isso mostrou que não existia só o espontâneo e o supertrabalhado, existiam outras gamas. Então, quando a minha geração entra em cena, o que ela já tem é o fim de uma limitação. Uma curiosidade de procurar no estrangeiro não mais o mesmo, o que eu sou, mas o outro, o que eu não sou.

O que me interessa é o que eu não sou. Foi um pouco como um laboratório. Traduzir para causar turbulências nas poéticas, ficar mais robusto, fazer exercícios de musculação, usar coisas que podiam diluir o sangue, o que já geraria movimento para sair daquela estagnação, que graças a Deus eu não vivi.

Descreveu-se uma vez como um poeta muito tradicional.

Era um pouco provocação.

Que relação estabelecia com as formas fixas, a que o Ricardo Domeneck chamou as "vacas magras"?

Sempre quis que a minha poética fosse uma metamorfose, que se fosse transformando, nunca gostei de me conformar com o que fosse conseguindo. No que escrevi tem muito pouco de forma fixa, não é uma coisa que me interesse. Cada vez mais gosto de uma poesia porosa à vida, o que Drummond chamava de contacto furioso da existência. A gente namora, até pode ter um plano fixo para o seu namoro, mas a realidade muda a cada hora. No trabalho é a mesma coisa. E esse contacto furioso da existência destrói qualquer possibilidade de forma fixa, porque a vida não é em forma fixa. Será útil para quem queira fazer do seu poema um monumento perene. Mas para o tipo de relação que quero estabelecer prefiro que o poema tenha a dinâmica de uma relação amorosa. Me interessa muito menos criar estátuas.

O seu poema inédito em livro, "O Tubo", publicado na "Modo de Usar" em Outubro, tem essa porosidade. Seguimos o passeio de um par e a própria forma do poema vai pedindo aquela forma, vai desfiando aquele longuíssima fita no ecrã, que não é uma forma muito comum. É como se o surgimento do poema pedisse aquela forma, uma fita num percurso.

Não consigo confundir o verso com linha interrompida. Sempre imaginei as várias formas que uma linha pode tomar.

A visão desse poema era a de uma certa realidade típica do Rio de Janeiro nos últimos anos, o sofrimento imposto aos imigrantes e a riqueza de uma minoria que anda com 4x4 blindados. Agora, a classe mais alta só anda com carro à prova de tiros. Tudo é blindado. É uma forma que existe lá nos condomínios, como se a vida pudesse ser blindada contra todo o risco.

O poema abre com a imagem de uma rapariga...

... uma imigrante coreana, que será o mais pobre do Brasil hoje, e fecha com esses carros, tudo convivendo no mesmo espaço, na mesma cidade.

E eu não queria que isso viesse em longos versos, aquele versículo bíblico, que tende a ser um pouco sentencioso. O problema do verso longo é que tem quase uma vocação para uma coisa que se afirma. O verso curto nega isso. Eu não queria falar nenhuma verdade sobre aquelas coisas, era muito mais o meu espanto, o sobressalto, a respiração entrecortada, do que alguém que pensou, analisou aquilo, e agora vem dizer as suas verdades sobre a situação do imigrante do Rio de Janeiro. O versículo incomoda-me por essa tendência aforística: eu te direi as grandes verdades. Vejo "O tubo" como uma respiração entrecortada, um poema escrito sob susto. Aquele momento em que aconteceu algo de grave com você, e chega a polícia, chegam os amigos, perguntam o que aconteceu, e você não consegue nem falar. Era essa dinâmica do depoimento urgente feito sob o stress pós-traumático. O verso curto tinha essa coisa de parar a toda a hora.

O poema tem três partes, inferno, céu e paraíso, o que não é muito dantesco, é mais você flagrar num dia, no mesmo contacto furioso da existência, estes três níveis. Não há um céu onde existam acontecimentos bons, nem um inferno onde existem acontecimentos maus. É o mesmo acontecimento.

Disse uma vez que a sua profundidade é a da pele. Que o que lhe interessa é a imagem, e não ir além. Ainda se revê nesta formulação? A sua poesia é muito imagética, mas aqui também é auditiva.

É. Uma das coisas que me incomodava na minha poética inicial era o excesso de privilégio ao olhar. Era a grande influência do auto-modernismo. Tem um poema do Manuel Bandeira sobre uma maçã. Ele olha a maçã e parece que está fazendo um quadro, ela está ali congelada. Mas a poética será mais: que gosto tinha a maçã? Estava podre? Dura? Perfeitamente madura? Aí é preciso convocar outros sentidos. O táctil, o auditivo.

O poema como experiência completa.

Outro dia ouvi um escritor uruguaio a justificar o acto de fumar. Dizia que dos quatro elementos, o nosso corpo é 70 ou 80 por cento de água, a gente pisa na terra, e o ar está por todo o corpo. O fogo é o único elemento que nos repele, é nosso inimigo, e fumar seria o único modo de termos o quarto elemento dentro. Ao fumar você tem o seu próprio fogo e solta fumaça, mantendo a relação. Não recomendo a ninguém que comece a fumar por isso, mas achei muito bom. Não são mais os sacrifícios incas, aztecas de queimar as pessoas com fogo, mas esse fogo quotidiano, comum do cigarro. Porque de certa forma hoje vivemos de relações empobrecidas. Não que antes tenham sido melhores, talvez tenham sido apenas mais assassinas e exageradas, e agora sejam mais medíocres.

É fumador?

Não, nunca fumei.

A relação forte com a imagem também vem de ter querido ser pintor, e isso está na sua poesia desde "As Banhistas" à Vieira da Silva, ao Goya.

Eles são inspiradores, o que eu chamo os "Aliados Substanciais", que é o nome de um livro do René Char só sobre pintores. Quando vejo cadernos com desenhos acho que fica muito mais bonito.

Tem uma poeta francesa que foi ao Brasil e esqueceu a máquina fotográfica e desenhou tudo o que via. Desenhava muito bem. É um dom que sempre invejei. Eu escrevia redacções, poemas, mas tem sempre aquele garoto na escola que sabe desenhar cavalos de forma realista, coisas lindas. Sempre achei que era para aquilo que tinha nascido, mas sem nenhuma habilidade manual.

Você vê um quadro abstracto de Max Ernst, mas aí ele dá um título, "O que as mulheres gritam ao atravessar um rio", e isso é instigador, sempre parece que a partir daí qualquer um pode criar um poema.

Às vezes como professor e director de oficinas literárias eu levo esse título e digo para cada um escrever um poema, e vêm as experiências mais diversas, mais líricas. Parece que a pintura e a música são propiciatórias. Nunca estive no Chile, e tem uma música em que, de cada vez que eu boto, vejo uma rua que tenho a certeza que é no Chile. E o artista plástico, é como se tivesse escolhido o melhor momento que sugira o que aconteceu antes e o que vai acontecer depois. Havia toda uma série de momentos para pintar, mas ele escolheu aquele. Aí, a literatura, que é uma arte temporal, pode-nos dar conta do que veio e virá. Se a Vieira da Silva faz um quadro como "Jogadores de cartas", começamos a imaginar o que pode acontecer depois, o que estão pensando, de onde vieram.

Sempre pensei que eram momentos mágicos, escutar música ou olhar pintura. Mas nunca tive vontade de ser compositor, me parece muito trabalhoso. Para a pintura não tive talento, para a música não tenho paciência.

Que relação tem com outras possibilidades de passar a poesia, como a performance, a videoarte?

Não nasci com essas novas tecnologias.

É um desconforto?

Não, eu adoro. Por exemplo, ainda comprei disco de vinil, depois passei para o CD, mas vejo que agora as pessoas nem compram disco, já baixam as músicas pelo computador, que é uma relação que eu não tenho, a minha é mais artesanal. Mas admiro muitíssimo.

Também já acontece com parte do que faz. O poema "O tubo" só existe online, e eu posso lê-lo como pode alguém em Timor.

Isso é revolucionário e adoro que as novas gerações já dominem isso. Não sei se foi o Caetano que falou que a Internet é uma grande sessão de cartas. No jornal sempre existe aquela secção onde as pessoas vão colocar suas dúvidas, e a Internet é uma sessão mundial de cartas. O que é interessante. Também existe muito ressentimento. No Brasil existe uma série de blogues "Eu odeio". Você pega e coloca tudo o que você odeia: eu odeio a Rede Globo, eu odeio o Roberto Carlos.

Mas há um elemento que eu adoro: digito "poesia peruana contemporânea" e em três segundos tenho uma centena de poetas. Se descobrir um, já é uma descoberta. Mas também não perco muito tempo com o computador, me policio.

Adoro ficção científica e um dos autores que leio é o Stanislaw Lem, o autor de "Solaris". Ele deu uma entrevista a um repórter muito animado com as novas tecnologias que lhe perguntou se estava contente com o facto do mundo estar cumprindo quase tudo o que ele dizia. E ele respondeu que não gostava, não achava o mundo contemporâneo muito interessante. O rapaz falou no computador, na Internet. E o Lem disse: "Eu posso ir a um buscador e escrevo a palavra felicidade, e ele dá-me dois milhões de textos sobre a felicidade. Mas em que é que isso me aproximou da felicidade?" E talvez me tenha afastado, porque vou perder o tempo todo lendo aquilo. Então, eu gosto daquilo, mas é bom também relativizar.

Mantém a mesma relação com os criadores da sua idade? Como é que eles olham para a nova geração? Também dialogam?

Em alguns casos felizmente sim, como o Arnaldo Antunes.

Que é um herói para os novos.

A recepção dele foi exemplar, recebeu-os muito bem, e é visto como um ídolo por eles. Mas boa parte da minha geração, que talvez achasse que a poesia devia terminar neles, recusa-se a ler, ou quando lê acusa. Teve uma reacção muito negativa à chegada dos novos poetas. Toda a revista que aparece entra sempre num sistema de abraços, tapinhas nas costas, parabéns, nenhuma é muito questionada. A "Modo de Usar" teve uma defesa grande de alguns poetas, mas também um ataque dos poetas da minha geração, que é absolutamente incompreensível e eu só posso ler como reacção a algo muito forte. Também fui acusado de abrir muito as portas da "Inimigo Rumor", que já tem 10 anos, a essa poética, convidei-os a editarem a revista, e isso foi tomado como quase uma traição. Foi incrivelmente mal recebido. Vejo isso como sintomático da força dos novos poetas, porque no sistema literário brasileiro quem chega sem incomodar é porque vai repetir o já feito, e todo o mundo fica satisfeito com aquele mínimo logro que já conseguiram: não me incomode que eu não te incomodo, me elogia que eu te elogio, vamos fazer o mesmo. E ninguém sai muito daquela pequena festa nossa. Quando aparece algo que sai fora disso, as reacções são estarnhas. Para mim nada foi melhor que a chegada desses poetas.

Que nomes daria para quem quiser ler o que se está a escrever?

Para usar nomes novos, na área experimental gosto de um poeta como Ricardo Aleixo. Na área mais do verso, do papel, um poeta de Minas - terra do Drummond -, Walter Gam. Se essa expressão poética da indeterminação, criada pela crítica americana Marjorie Perloff faz algums sentido na poesia brasileira, para mim é na poesia do Walter Gam, do informe, como dizia o Bataille. Gosto de Daniela Storto, essa não tem nem livro, é um raro caso de poeta que em vez de estar ansiosa pela estreia preserva o seu ineditismo. Acho que ela só vai querer estrear aos 40 anos, mas faz poemas fabulosos.

A Juliana Krapp [poemas disponíveis online na "Modo de Usar"] também não publicou um livro ainda.

Ainda não. Também é algo que vejo como uma diferença. A minha geração estava ansiosa para estrear e queria publicar. Os poetas concretos publicaram os primeiros livros aos 19 anos. Era quase obrigatório que os poetas marginais não tivessem mais de 30. Havia até uma canção: Não confiem em ninguém com mais de 30 anos. Talvez fizesse sentido porque quando passaram dos 30 ficaram desinteressantes, como se todo o poder estivesse na juventude eles.

Mas esses poetas novos de agora têm uma força que me impressiona, o objecto-livro para eles não é um fetiche. Se existe um poema na revista, se o blogue "Modo de Usar" coloca alguma coisa, se alguém leu um poema deles em algum programa de televisão, tudo bem. Talvez tenha a ver com esse gosto pelo informe, e por você não dominar completamente para onde vão as suas coisas.

O livro é uma forma de organizar, de guardar a memória, de eternizar, e a preocupação deles com isso é mínima. Isso também existe muito na poesia argentina, ou então a produção de tiragens ultramínimas, 18 exemplares. Houve uma mudança. Talvez tenha a ver com a tecnologia, ou outra relação com a vida, com os amores. A não preocupação com a monumentalização e a perenização, um quase júbilo por ver que nossas atitudes, nossos poemas, nossas relações estão escapando a qualquer forma de controle, talvez esse seja o melhor aprendizado que tive com eles.

E talvez isso seja o que incomode tanto quem nasceu sob a égide do controle e do projecto. Tem uma frase do escritor servo-croata Danilo Kis: "Quem acerta o alvo erra o resto todo." Eu me sinto como se viesse de uma geração que queria acertar o alvo e agora se dá conta que isso é perder o resto, enquanto que esses poetas parece que eles atiram ao acaso sem se importarem onde vão acertar - porque sabem que onde quer que caia é o lugar certo para cair.

É um grupo em que aparece o alemão, o espanhol, o inglês, os americanos, há um cosmopolitismo evidente, incluindo uma relação forte com a língua francesa, por exemplo na Marília Garcia. E o Carlito, que traduziu vários autores franceses, chegou a dizer que o verso lhe vem em francês.

Existe um poeta como Nelson Ascher que é filho de pais húngaros, e o diálogo dele é com o leste europeu, lançou uma antologia de poesia húngara fabulosa, e traduz muitas coisas. Ou Josely Vianna Baptista, que é muito ligada ao neo-barroco hispano-americano e traduziu Lezama Lima, Severo Sarduy. Existe a turma mais germanófila. E tudo isso saiu daquilo de que falei, uma época de muitas traduções - e hoje é um ritmo imparável. É o único aspecto de globalização interessante. Estamos preparando um número de "Inimigo Rumor" com poetas japoneses dos anos 70 para cá.

O francês, no meu caso, é um pouco biográfico. Matriculei-me cedo na Aliança Francesa porque era perto da minha casa. Depois um professor te apresenta Flaubert e você fica maravilhado, e depois ler o Rimbaud sem precisar de esperar por tradução era uma coisa fantástica.

O que acontecia é que no século XX a poesia francesa não me entusiasmava muito. Ou porque era a quinta geração surrealista - a primeira eu ainda gosto -, ou por um excesso de metáforas. Até que surgiu uma geração nova: Nathalie Quintane [1964], Christophe Tarkos [1963-2004], Philipe Beck [1963]. Essa geração cria uma coisa espantosa que tem muito que ver com Gilles Deleuze. Deleuze falava em literatura menor e em língua menor. Para escrever em literatura menor não é preciso viver num país de língua menor. Uma literatura menor é escrever em francês como se o francês não tivesse passado pela mão de Flaubert, Stendhal, Rimbaud, Verlaine. O que eles fazem é uma poesia que já foi definida como a audácia da banalidade. Algumas pessoas devem-se perguntar se é poesia mas para mim é muito interessante. Eles têm uma coisa que aprenderam com o Deleuze, que é a reptição, ou com a Getrude Stein, que é o "ritornello", aquela volta obsessiva ao mesmo núcleo: "Eles se beijam, ele a beija, eles se beijam, ela põe a língua em sua língua..." E em geral resulta em poemas longos e em muitos livros. Têm 10, 20 livros, sem estarem muito à espera do grande momento poético.

Comecei a traduzir esse poetas porque me pareceram uma alternativa crítica boa ao modelo americano que foi dominante na poesia brasileira, poetas como Robert Creeley, que são excelentes - mas parecia que todos os brasileiros queriam ser como eles, os americanos de vanguarda, com aquele poema curto, objectivista. Mas a gente já tinha passado pela poesia concreta, pela poesia mínima de notação dos marginais. O que existia agora era uma vontade de falar, de escrever muito e de falar.

Você pode falar muito sobre os poetas novos menos que são minimais. O último livro do Ricardo Domeneck, "A cadela sem logos", é um longo poema, desdobra-se em várias partes. Nesta geração, os poemas tendem a unir-se uns aos outros, não ter uma independência muito fechada.

Nesse sentido, traduzir a poesia francesa ou hispano-americana gera mais dizer e menos contenção.

O Brasil era tão barroco que a poética virou minimalista. Há uma história: um mestre do Haikai foi visitado por um poeta novo que lhe mostrou um haikai: "Duas montanhas, o sol brilha sobre as duas." E o mestre disse: "Tem montanha demais." Essa era a lição que a gente tinha na cabeça, sob os concretos e a poesia marginal, como se no mínimo fragmento estivesse o máximo. Como disse o Jean Cocteau, a arte está sempre mudando de lado, como o sujeito de noite está sempre procurando o lado mais fresco do travesseiro. Parece-me que o frescor hoje se encontra em falar muito, escrever muito e não mais a gente se obrigar a essa greve de fome, a esse minimalismo.

Só que para isso é necessário trazer exemplos eficazes, se não vira uma verborragia. E foi contra a tendência verborrágica que surgiram as poéticas cabralina e marginal, como reacções ao discursivismo, ao beldizer. Para mim, traduzir a poesia francesa era mostrar formas eficazes do discurso, mostrar que também se podia fazer poemas longos que não fossem um exagero de montanhas.

 

Resenha "Monodrama" / Brasil Econômico/ (12.12.2009)

IDEIAS FORTES

Por Bernardo Carvalho


A partir do banal, o mais terrível e o mais belo 

Que seria de Portugal sem Pessoa e sem Camões? Ou da Rússia sem Tolstói, Dostoiévski e Tchékhov? Ou da Irlanda sem Joyce e Beckett? A literatura melhora os países, mesmo quando é para contar suas derrotas e seus horrores – e sobretudo quando conta suas derrotas e seus horrores. Só por burrice um Estado não defende sua literatura. É uma questão de marketing, para não falar de coisas mais elevadas.
As cidades também só têm a ganhar com a prosa dos seus escritores e a lírica dos seus poetas. Ninguém duvida que Buenos Aires seja melhor com Borges, Dublin seja melhor com Joyce e o Rio com Drummond seja melhor do que sem ele. Se eu dissesse o mesmo de um poeta como o Carlito Azevedo, talvez você torcesse o nariz. Mas seria por simples desconhecimento. O que é natural, já que ele ficou treze anos sem publicar nada. Enfim, o problema pode ser resolvido, porque ele acaba de lançar um livro extraordinário: Monodrama (7Letras). Este pode não ser o espaço ideal para uma resenha. Mas Monodrama tampouco é um livro comum. E não é todo dia que você vai bater os olhos num livro assim.
Num dos poemas, uma amiga diz ao poeta, ao passar por uma moça que se pica junto a uma mureta do Aterro do Flamengo: “Nenhum poema/ é mais difícil/ do que sua época”. Carlito Azevedo nasceu em 1961. É um poeta carioca, com dicção carioca, que passou a vida no Rio, e o simples fato de ele ser um poeta carioca hoje, num tempo tão pouco literário, já enriquece essa cidade que, a despeito de toda beleza, de todo marketing e de toda autosugestão, não é propriamente o lugar mais aprazível do mundo. Mas é melhor com esses poemas do que sem eles. Em tempos difíceis, é um alívio viver no mesmo país e falar a mesma língua de um poeta como esse.
Monodrama não diz horrores do Rio. Ao contrário, celebra a melhor tradição da poesia brasileira feita no Rio de Janeiro, aquela que combina o aparentemente simples com a ironia, sem precisar recorrer ao insólito para se fazer poética e original. É uma poesia ao mesmo tempo discreta e incisiva, cuja precisão do corte é perturbadora, fazendo surgir do banal o mais terrível e o mais belo. Um sentido extraordinário por trás das coisas mais coloquiais, como no fragmento reproduzido na contracapa: “Eu pergunto se/ você quer ir para/ casa “Sim”/ se está pensando/ em grandes espaços vazios/ “Sim” se tudo/ vai passar/ tudo vai/ ficar bem/ “Sim sim”/ se realmente/ se apaixonou/ se pensou em/ morrer “Sim”/ se eles cortaram/ os seus lindos/ cabelos.”. Ou no poema que fala de uma menina com xilofone e flores, escrevendo poemas numa rua de Berkeley, na Califórnia: “(...) não havia mesmo nada ali/ quando ela escrevia os poemas (...) e lá se vão dez/ ou treze anos/ e eu simplesmente nunca/ os/ a/ consegui esquecer”.
Não sei o quanto pode haver de traição em revelar que Monodrama converge para um poema incrível, H., sobre a morte da mãe. É o poema final. A certa altura, o filho se inquieta, ao se dar conta de que não sabe se a mãe teve “uma morte boa ou uma morte má”. Não sei o quanto pode haver de traição em expor aqui a resposta da mãe morta (Hilda, a mulher do H do título) ao filho, mas cito assim mesmo, porque ela revela afinal o poeta que ele é:
“– Comparada com a larga eternidade de nada sentir, nada provar, nada tocar, ver e ouvir que nos espera, a morte no sono, como dizem que coube a Chaplin, vale o que valem as dez costelas partidas, as orelhas arrancadas, os dedos decepados, a laceração horrível entre o pescoço e a nuca, a equimose larga e profunda nos testículos, o fígado lacerado, o coração lacerado, o rosto inchado irreconhecível, os hematomas, última forma física assumida por Pasolini nesse louco planeta que agora, para você, gira também sem mim.”
Se alguém ainda quiser saber para que serve a literatura, a resposta está dada: para que de vez em quando alguém escreva um poema como esse H., do Carlito Azevedo.

 

Bernardo Carvalho é escritor e jornalista,
autor, entre outros, de Mongólia, Nove Noites
e O Filho da Mãe (Companhia das Letras).



Resenha de "Monodrama" / Jornal Estado de Minas/ Caderno Pensar/ (26.12.2009)

Aquele que diz Luz

Depois de 13 anos, o poeta carioca Carlito Azevedo mostra
maturidade, excelência e vigor poético no ótimo Monodrama

ANDRÉ DI BERNARDI BATISTA MENDES

Quanto tempo leva para nascer um poema? Quanto tempo leva para um livro ficar pronto? Uma das respostas mais interessantes foi dada pela poeta Alice Ruiz. Um poema dura uma vida inteira. Depois de longos 13 anos de silêncio – um silêncio relativo, ressalta-se –, depois de Sob a noite física, de 1996, e da antologia Sublunar, que reúne trabalhos dos seus livros anteriores e alguns inéditos que haviam circulado em edições restritas, o poeta Carlito Azevedo está de volta com Monodrama, obra publicada pela Editora 7 Letras.
Desconexões, espaços vazios, tudo que pode ser nítido, um quase flutuar de imagens (às vezes, também, o poema se transforma em pedra, que não se atira), vibrações, rubros, coisas incandescentes,a poesia de Carlito é feita de uma luminosidade extrema. Os poemas de Monodrama nascem deste pulsar poderoso. E pode durar anos este processo. Foi o tempo justo da maturação, quando as palavras no forno ganham consistência e sabor.
Iniciei a leitura do livro pelo final. Despreparado, sorridente, dei de cara com o trecho H. Um tipo de susto tomou conta. Belíssima, pungente, aflitiva, a série é dedicada à experiência da convivência com a doença e a morte da mãe do autor. Carlito nos faz enxergar, sempre com delicadeza, que certas perdas são inexplicáveis, incompreensíveis. “A ideia apavorante da morte de minha mãe, pelo que vejo, ultrapassou a superfície gelada, deixando- a intacta e está fazendo sutis estragos em regiões que desconheço, não alcanço.”O mundo, assim, torna- se um lugar inviável. “Venho escrever por medo de perder a razão.” Pela primeira vez, até onde sei, o poeta apresenta um texto autobiográfico. Carlito afronta, ou enfrenta, esta inconformidade maior, este nosso maior desacerto, de olhos corajosamente quase abertos. Daí para o começo. O longo poema Emblemas é de uma beleza exuberante. Ali o poeta chega à essência de sua poesia através do silêncio, do espaço em branco que é dádiva, que mais parece um rio tortuoso que corta, mas que corre fácil protegido por margens poderosas (e belas) feitas de palavras. A pergunta feita no final do poema não deixa dúvidas
do alcance poético, não deixa dúvidas do quanto pode ser extensa a verdade de um verso: “(Seu coração está aí, atrás/dos ossos?)”.

ATIVIDADE ESPIRITUAL
Carlito Azevedo aposta também na subversão. Dono de poemas extensos, alguns chegam a passar de uma dezena de páginas,o poeta insiste e não obedecem a nada. Carlito parece não querer participar, ou se engajar. Existe a literatura, e ponto final. O poeta, só assim, sabe e descortina um mundo hostil, pouco ou nada amistoso, sempre beligerante, muito poucas vezes belo. A poesia realça, modula, apenas isso. Carlito sabe de um lugar, de um país, de uma terra que não aceita a diferença. Para ele, para nós,o mundo, novamente, torna-se um lugar inviável, mesmo através da poética do plano político. O interessante é que tudo isso pode também chegar a ser uma, digamos, “atividade espiritual”, como supõe Carlito em determinado momento de Monodrama. Aquele que escreve poesia diz luz.
Em Monodrama, Carlito mescla prosa e poesia, como um artesão consciente (e experiente) que ama e domina o seu ofício. O poeta encontra (mesmo sem buscar?) uma dicção própria, única, sempre valorizada por um sentido poético amplo e vigoroso. Sua poesia encontra sua base no real cotidiano, em seringas sujas, no rochedo, nas pétalas amarelas, roxas, “desmanteladas”, em moedas contadas, nas pequenas humilhações diárias, nos cafés pretos tirados de garrafas térmicas verdes, no fim do amor, no cerne de tantas intempéries; mas também no que pode haver de revolucionário e doloroso nos dias ensolarados e nas bibliotecas, estes tais “esforços infinitos”, estes “fluxos imparáveis". Para Carlito, a palavra é o seu norte, sua bússula que desalinha,é o seu canto que desnorteia.
Carlito Azevedo nasceu no Rio de Janeiro. Seu primeiro livro de poemas, Collapsus linguae, recebeu o Prêmio Jabuti. Publicou ainda As banhistas, Sob a noite física e a antologia Sublunar, que recebeu o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional. Elogiado por escritores de porte como Silviano Santiago, Flora Süssekind, Luiz Costa Lima, Haroldo de Campos e Ferreira Gullar,o poeta é editor da revista de poesia Inimigo Rumor.

 

 

Entrevista Carlito Azevedo/ O Globo/ Prosa & Verso / (02.01.2010)

Notas da Crise

Carlito Azevedo rompe oito anos de silêncio com poemas de amor, perda e desencanto

Por Guilherme Freitas

"Sabe que nada mais agora/ poderá mover sua poesia", lê-se num dos poemas de "Monodrama" (Editora 7Letras, 156 páginas, R$ 37), no qual Carlito Azevedo imagina um escritor perplexo com o "mundo caduco" onde subsiste, apesar de ameaçada, a "ilha mínima do eu". O poeta descrito nos versos é Drummond (citado já no título do poema), mas poderia bem ser o próprio Carlito. "Monodrama", seu primeiro livro desde 2001, é fruto de um longo período em que ele também acreditou que sua poesia não tinha mais para onde ir.

Em entrevista por e-mail, Carlito atribui a uma "crise particular" o silêncio de oito anos após a antologia "Sublunar", que reunia poemas de "Collapsus linguae" (1991), "As banhistas" (1993), "Sob a noite física" (1996) e "Versos de circunstância" (2001). Alguns traços desse impasse aparecem na conversa — a morte da mãe, Hilda (que provoca o texto mais perturbador do livro, "H."), as inquietações políticas e sociais, o fim (definitivo?) da revista "Inimigo rumor", catalisadora de uma geração de poetas — e indicam que a crise particular se desdobrou em crise de linguagem.

Desse momento crítico surgiram poemas que Carlito chama de "notas da ruína" — mas que pouco têm de sombrios, graças aos "pontos luminosos" que o amor abre por todo o livro: "Em 'Monodrama' sugiro que o que amamos de verdade é o que gostaríamos de, absurdamente, salvar da aniquilação que nos espera".

O GLOBO: Você continuou a escrever entre 2001 e 2009 ou foi um tempo de afastamento da poesia? É possível "se afastar" da poesia?

CARLITO AZEVEDO: Não. A poesia é uma droga sem tratamento. E como todo dependente, quando vem a crise, você se dilacera entre a necessidade de conseguir mais droga e a de parar com aquilo. A minha crise particular ocorreu quando me dei conta de como era obsceno trocar a própria dor por poesia. Trocar os seus pesares, como dizia Drummond, por contentamento de escrever. Passei a achar imoral escrever versos sobre milhões de mortos nos campos de concentração, e inútil falar sobre a cerejeira em flor. Mas ao mesmo tempo ia buscá-los, uns e outros, nas mais remotas antologias, e os aprendia de cor. Achei que só ia voltar a escrever quando passasse essa crise, cujos motivos pessoais não cabe tratar aqui, mas percebi que não adiantava esperar uma situação confortável para escrever, que ela nunca viria, que a crise era definitiva, como um contorno espiritual. Que eu estaria sempre desconfortável com a poesia e que só me restava, para ser honesto comigo mesmo, escrever as notícias dessa crise, num formato que talvez nem fosse mais necessário chamar de poemas, e sim de outra coisa qualquer, como notas da ruína. "Monodrama" é, em certo sentido, mais composto de notas da ruína do que de poemas.

O GLOBO: Como esse período mudou sua relação com a poesia?

CARLITO: Acho que o que mudou foi a minha relação com o mundo. Não passei incólume pelas muitas perdas que me atingiram nesse período, no campo pessoal, e, no campo geral, pelos anos Bush, anos que só podiam se sustentar em guerra e culminar numa coisa tão idiota como o atual culto ao telefone, situação digna de Ionesco. Eu estou cansado de passar pela Avenida Rio Branco e ver um sujeito de terno ao celular dizendo coisas como "agora eu não posso porque estou numa reunião na Barra da Tijuca". Eu sempre me sinto como num episódio daquela série "Além da imaginação", me sinto como um personagem que de repente descobre que todas as pessoas na rua, em todas as ruas de todo o planeta, estão contando mentiras umas às outras, só que é a vida real, elas falam a mesma língua, mas suas vozes estão desconectadas de qualquer coisa que exista na realidade. Para mim essa é a imagem do pior pesadelo, um pesadelo que não acaba. Essas coisas, tanta descrença e tanto desencanto, foram minando aqueles mitos culturais de classe média que me formaram, segundo os quais eu escreveria os poemas que precisava e desejava escrever assim que visse aquele quadro, lesse aquele livro, ouvisse aquela ópera etc. Sei que veio daí o engodo que me jogou nessa situação de ver a poesia como uma espécie de idiotia diante do mundo. É claro que a culpa não é do quadro, nem do livro, nem da ópera, mas dessa maldita enganação que cria consumidores vorazes e estéreis de arte. Na minha utopia, o poeta se tornará, primorosamente, indesejável à sociedade quando suas palavras passarem a ser um artefato que desmonte o sorriso na cara daquele sujeito de terno, esgrimindo mentiras no celular.

O GLOBO: A figura do imigrante aparece muito em "Monodrama", e aqui e ali surgem desterrados ilustres (Gombrowicz, Beckett). O que atrai na figura do imigrante?

CARLITO: Aproveitando-me da poeta Ingeborg Bachmann, que, em circunstâncias históricas bem diversas das atuais, escreveu que "Todo poeta é judeu", e de Kafka, que certa vez anotou em seu diário que "todo escritor escreve numa língua estrangeira", posso dizer que todo poeta é imigrante, onde quer que esteja. Para um poeta seria impossível ter criado a metáfora cínica "abaixo da linha de pobreza", com que se refestelam os nossos líderes e economistas, metáfora com que insinuam a ilusão de que o que separa os miseráveis de um estado um pouco mais digno de existência é apenas uma linha, tênue, facilmente rompida por qualquer mero esforço, pela borracha de uma nuvem ocasional perdida numa mudança de ventos. Um poeta deveria criar, hiperbolicamente, a expressão "abaixo das placas de chumbo da pobreza", ou "por trás das grossas cercas de arame farpado da pobreza". Nem se iludam, miseráveis de todo o mundo, debandando como aves migratórias de lugares tornados irrespiráveis, de que poderão rompê-las sem uma força quase sobrenatural. Quando assistimos a essas gigantescas levas de imigrantes ultramiseráveis que invadem a Europa e os Estados Unidos, para fúria e desespero da ultradireita mundial florescente, e sem mover um centímetro que seja a esquerda de sua indolência de mendigo farto, algo lindamente ironizado em "Abril", de Nani Moretti, você sente que é ali com eles que você deve estar, se está interessado em algum tipo de transformação, e não na administração do desastre.

O GLOBO: Em "Monodrama" seus poemas estão mais narrativos, com uma linguagem... prosaica? Cotidiana? Como você definiria a linguagem de "Monodrama"?

CARLITO: Penso que estão mais próximos do som da minha voz. Do ritmo da minha fala. Das pausas da minha respiração. Muita gente que lia meus poemas antigos dizia, ao me conhecer pessoalmente, que eu passava uma impressão de ser um sujeito mais formal, mais sério, secretamente creio mesmo que se decepcionavam bastante comigo. O melhor elogio que recebi para o "Monodrama" veio de uma amiga, editora e não poeta, Anna Paula Martins, que me escreveu dizendo que leu o livro inteiro ao som da minha voz. Sendo já um poeta de 48 anos, isso me preocupa mais do que estabelecer dicotomias entre poético e prosaico, e eleger o certo e o errado entre eles.

O GLOBO: O texto que encerra o livro ("H.") é muito forte e termina com uma reflexão muito serena sobre a morte. O que esse texto significa para você?

CARLITO: Esse texto significa tudo pra mim. Eu consegui escrever sobre a morte de minha mãe sem que disso restasse o maldito contentamento de escrever. Ali eu senti que tinha vencido o pacto com o demônio da poesia que transformaria meu sofrimento em prazer. Minha dor continua, imparável, eu choro sempre que releio esse poema. Eu me revolto com ele, fico desconfortável com ele. Fico muito feliz quando leitores me dizem que choraram muito ao lê-lo, que tentaram imaginar como seria o rosto, a voz, a meiguice de minha mãe a partir daquela sua fala final, mesmo inventada. Significa também reencontrar minha infância, recordar que o que me fez me apaixonar pela literatura foi sua capacidade de criar intensidade e emoção, foi descobrir que uma palavra pode cortar a minha respiração. Intensidade e emoção são fundamentais para a poesia e "H." é o mais intenso e emotivo que há nas minhas "notas da ruína". O que não quer dizer que não seja um texto construído. Sua estrutura em quatro partes, que por sua vez são subdivididas em outras quatro partes, é, ironicamente, cabralina.

O GLOBO: Um poema fala em "este mundo com cara de Goya". "Monodrama" tem uma visão desencantada de certos aspectos do mundo moderno, a violência, o isolamento. Como você vê esse "mundo com cara de Goya"?

CARLITO: Ao escrever esse poema, eu pensei estar citando Lawrence Ferlinghetti, grande poeta beat, um de meus ídolos, que na verdade escreveu "esse mundo com cara de Bosch". Não sei se graças à minha fascinação por Goya, ou porque acho o mundo realmente mais parecido com Goya do que com Bosch, mas acabei cometendo o ato falho. O caso é que mesmo depois de alertado para o lapso, preferi manter Goya por ali. Suas séries de gravuras "Os desastres da guerra" e "Caprichos" passeiam pelas ruas e pelos telejornais diariamente, não é? Tenho uma fé tão pequena na capacidade dos políticos ou da sociedade de resolver de modo humano a questão das populações miseráveis que passeiam pelas ruas do mundo, que acho até bom vê-los pelas ruas. Pois enquanto eles estão ali, testemunham alguma coisa. A própria vida. Para os dois ou três que se importam com isso, estão dizendo: estamos vivos. Enquanto estão ali é porque não foram exterminados por nenhum alucinado choque de ordem mundial, por nenhuma nova "solução final" que nos jogue na cara mais uma vez que "o sonho da razão produz monstros".

O GLOBO: Conversamos sobre perdas e desencanto, mas "Monodrama" também fala muito de amor: o amor "querendo nascer/por vias tortas", que "não pode morrer", que "está seriamente ameaçado". Que amor é esse?

CARLITO: O amor é a única coisa que importa no fim das contas. É a face mais luminosa da aventura do espírito humano sobre a Terra. O amor gerou Clarice Lispector. O amor gerou Chagall. O amor gerou Spinoza e Oscar Niemeyer. Quer se trate do amor à verdade, do amor pelo saber, ou do amor que se dá entre duas pessoas, quem não se deixou tocar por esse sentimento se tornou um inútil, uma versão diminuída e cretinizada do humano. Que você tenha notado que o amor perpassa todo o livro, abrindo nele pontos luminosos, tornando-o poroso a esse êxtase permanente do viver, me parece melhor do que qualquer elogio. Em "Monodrama" sugiro que o que amamos de verdade é o que gostaríamos de, absurdamente, salvar da aniquilação que nos espera a todos, aquilo que contrabandearíamos para depois da morte, para depois da lavagem cerebral do paraíso, caso a remotíssima hipótese de que algo de nós sobreviva ao caniço pensante de Pascal pudesse ser verdadeira.

O GLOBO: Depois de 10 anos de existência, como você avalia a atividade da "Inimigo Rumor"? A revista acabou mesmo?

CARLITO: Muitas coisas fizeram com que não fosse mais tão divertido editar a "Inimigo Rumor", entre elas a morte de um de seus mais jovens editores, o poeta Leonardo Martinelli, que era sempre o primeiro a me telefonar cobrando um novo número. É dele a imagem da "Inimigo Rumor" como uma torre no centro do Rio de Janeiro, transmitindo para corações conectados a ideia de uma "outra" poesia. Cada vez que esgotávamos uma edição, ele dizia: "Está vendo? É a resposta das regiões ocultas à nossa onda sonora, eles estão dizendo: — Amamos poesia, estamos ouvindo, sigam as transmissões". Achei isso tão bonito que adotei como lema da revista. Eu mesmo não sei se a revista acabou, não quero é ter nem a obrigação nem o impedimento de fazer mais um número. É uma questão de manter minha liberdade.

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