Página inicial | Detalhe do livro
Todos os cachorros são azuis
Rodrigo de Souza Leão
- Assunto: Romance
- Formato: 14x21
- Número de Páginas: 80
- ISBN: 978-85-7577-519-6
- Ano: 2008
Uma narrativa fragmentada e vertiginosa, apresentada com toques de sarcasmo, crítica e humor. O romance, dividido em quatro partes, conta a história do protagonista desde a internação em um hospício até a sua saída e a fundação de uma nova religião. Um livro original e instigante, que vai fazer a cabeça de quem gosta de boa literatura.
Sobre o autor
Rodrigo de Sousa Leão nasceu em 1965 e se formou em Jornalismo. É co-editor da Zunái (www.revistazunai.com.br) e colabora com a Germina (www.germinaliteratura.com.br). Possui um blog onde publica poemas e textos: http://lowcura.blogspot.com. Em 2001, publicou o livro de poemas Há flores da pele (Editora Trema).
Resenha de Todos os cachorros são azuis / Blog amálgama (21.10.2008)
CACHORROS AZUIS
Daniel Lopes
Porque o narrador de Todos os cachorros são azuis (7 Letras, 2008) é um louco literalmente de hospício, todo o romance de Rodrigo de Souza Leão tem uma composição, bem…, maluca. Os capítulos não existem para deter a atenção sobre esse ou aquele outro aspecto da estória, sob esse ou aquele ponto de vista. Até mesmo os parágrafos são um cesto de pensamentos diversos e vozes variadas, a em primeira e várias em terceira pessoa.
Trata-se de um livro bem curto, 69 páginas de texto propriamente, divididas em quatro capítulos. Escrito com cuidado, não há dúvida. Seu tema principal, o da loucura, está longe de ser esgotado (estou pensando apenas na literatura brasileira). Seu narrador nos leva à reflexão e também nos diverte. E nos deixa deliciosamente confusos. Em nenhum momento o texto faz pouco da inteligência de quem está lendo, e nem tenta enfiar palurdices eruditas goela abaixo. Para um romance de estréia, isso já é mais do que se deve exigir.
É assim que Rodrigo, carioca nascido em 1965, começa a trilhar o campo da prosa – em 2001 já havia publicado Há flores da pele (Editora Trema), de poemas. Jornalista por formação, o autor é ator ativo nessa tal de internet – tem blog, é um dos editores da Zunái e colaborador da Germina Literatura.
O narrador, a quem daqui em diante nos referiremos como o Louco, é anônimo. Aos 36 anos, se encontra num hospício, onde foi parar levado pelos próprios pais, que no entanto lhe querem bem e estão sempre fazendo visitas. O Louco também não lhes dirige nenhuma mágoa. Como explica, a atitude do pai e da mãe não poderia ter sido diferente, após, gota d’água, resolver quebrar todos os vidros da casa, para livrá-la “dos maus espíritos”. Culpa do chip:
Tive que matá-la com a mão. Não havia outro instrumento ao meu alcance. Os cubículos são feitos pra pessoa que está dentro não ferir ninguém, mas também não se ferir. Pra não me ferir não havia nada no cubículo. No começo da internação às vezes ficamos amarrados. Cada um tem um tratamento que varia de acordo com a sua periculosidade.
Claro, nós entendemos.
Por ser um sujeito que leu muita literatura (cuidado, vocês aí!), no hospício – com tanta gente a ponto de parecer “o Maracanã em dia de jogo do Flamengo -, nosso Louco nunca está só: convive com Rimbaud e Baudelaire - “vejo Rimbaud desde os 23 anos. Baudelaire apareceu mais tarde.” E, caso você não saiba, Batman, Demolidor e Clark Kent também estão internados.
Incrustados próximos a uma favela, não são raras as noites em que os internos são obrigados a dormir, ou não dormir, ao som de funk. Coisa de maluco, você dirá – você, não eu! Há flores no local, por todo lado, e assim o Louco compara a beleza do hospício com aquela de um cemitério. A analogia, o lúgubre que evoca, não é gratuita. Não raras vezes os habitantes do local são confinados: “Entrou uma barata no cubículo”, relata o Louco, e continua:
Tive que matá-la com a mão. Não havia outro instrumento ao meu alcance. Os cubículos são feitos pra pessoa que está dentro não ferir ninguém, mas também não se ferir. Pra não me ferir não havia nada no cubículo. No começo da internação às vezes ficamos amarrados. Cada um tem um tratamento que varia de acordo com a sua periculosidade.
Cético quanto aos efeitos dos inúmeros remédios que é obrigado a engolir – não que ele engula todos, pois aprendeu um método eficaz de burlar as enfermeiras, deixando o comprimido bem escondido sob a língua para depois cuspir –, raciocina que talvez a doença saia mais em conta que a cura. Até porque, chegada esta, ele deixaria de “ver” Baudelaire e Rimbaud, e “o que é a vida sem amigos?”
Conto embaçado de várias noites de inferno, sabemos, pelo andar de Todos os cachorros…, que houve um crime no sanatório. Sem maiores detalhes. E sabemos que o Louco é um dos acusados de ser o autor. Sempre sem detalhes. Afinal, os “agentes B” concluem que ele é inocente (apesar de Rimbaud pensar o contrário) e lhe deixam em paz. Mais que isso: o Louco parece estar reabilitado, ou pelo menos não mais tão debilitado mentalmente, e é posto em liberdade. De volta à casa dos pais, funda, com outros loucos, uma igreja cujas preces se dão numa língua estranha, mas que angariam muitas doações. Vão todos presos, acusados de causar a desordem pública. Nem é preciso dizer que esse percurso é todo narrado de forma atabalhoada e em um punhadinho de páginas.
Por fim, eu não poderia deixar passar sem um gostinho daquele que é um dos pontos fortes do romance. Há ao longo de todo ele algumas frases luminosas, que saltam à vista pelo inusitado e pelo inesperado e pela astúcia e pelo desconcertante e pelo humor lacônico e melancólico e desesperançado e chega de adjetivos. Um breve apanhado:
“Não sei qual dos dois pesadelos é o pior: acordado ou dormindo”; “Acho que louco não tem tempo de pensar em sexo. Alguns são vistos parados e se bolinando. Mas isso ocorre mais nas ruas”; “Se havia um lugar como o hospício, era sinal de que Deus não existia” (referência nada indireta a Hospício é Deus, de Maura Lopes Cançado); “A última vez que fora amado, ela disse que não me amava. Tinha se apaixonado pela loucura que há em mim”; “O que é a solidão? É viver sem obsessões”; “No mundo de fora, procuro no obituário todo dia meu nome. Já decidi: não quero ir ao meu enterro”; “Não agüento fazer papel de vítima. Meu papel é o higiênico”; “Nunca comi merda. Não sou dado a rituais macabros de existência. Sou um louco light, versão diet”.
Que venha logo o segundo romance de Rodrigo de Souza Leão.
http://www.amalgama.blog.br/?p=120
Resenha de Todos os cachorros são azuis / Almanaque Virtual (27/10/2008)
Todos os cachorros são azuis
Por Cláudia Fonseca
"De escritor e louco, todo mundo tem um pouco". A adaptação pode parecer clichê, mas a expressão se encaixa a Rodrigo de Souza Leão, autor de Todos os cachorros são azuis. Seu livro de narrativa autobiográfica revela a rotina de um esquizofrênico no manicômio. A tênue linha entre a realidade e os surtos delirantes da personagem se confundem a todo o momento, e o leitor é levado a identificar que o escritor realmente é louco.
O enredo envolve reflexões e relatos de supostos fatos reais. O estilo varia de acordo com o quadro clínico do narrador. A obra permite a compreensão da loucura de quem sofre de distúrbio mental ao explicar o que se passa na cabeça de um louco, revelar seu ponto de vista, sua forma de enxergar o mundo, sua realidade particular. Esse é o ponto forte do livro.
Somente quem já passou por situações semelhantes pode confirmar se a afirmação é justa, mas, para um cidadão comum, não é difícil se deixar levar pelo enredo desordenado e instigante criado por Rodrigo Leão. Afinal, quem não tem uma parcela de loucura no seu íntimo? O autor, nesse caso, soube trabalhar a sua de forma convincente.
Qual é o parâmetro entre realidade e ficção do louco? Qual é o padrão de realidade e ficção de uma "pessoa normal"? Questionamentos que surgem durante a leitura de uma obra que apresenta trechos como "A vida escoa por um esgoto que leva pro mar. Ainda bem que o mar é verde: a cor dos olhos do meu irmão Bruno. São olhos limpos de sofrimento. Quem não sofre, não vive. Quem vive, come batata frita. O bom é que sempre tem batata frita pra aliviar o fardo".
http://almanaquevirtual.uol.com.br/ler.php?id=16307&tipo=9&cot=1
Entrevista com Rodrigo de Souza Leão / Portal Literal (04.11.2008)
FRAGMENTOS HUMANOS
Por Ramon Mello
Com um texto atraente e incômodo, Rodrigo de Souza Leão afirma sua condição: poeta. Sua prosa está contaminada de poesia.
No livro Todos os cachorros são azuis, o autor narra, através de uma experiência autobiográfica, a trajetória de um homem internado no hospício. E destaca três momentos da vida do personagem – infância, adolescência e fase adulta – para costurar uma narrativa marcada pela fragmentação do ser humano, característica que dialoga com a produção de alguns autores contemporâneos.
Não leia o livro à espera de linearidade, pois é justamente a ausência dela que prende o leitor. A escrita de Rodrigo torna-se mais valorosa quando lembramos que trata-se de uma autor esquizofrênico – como ele gosta de deixar claro. O escritor tem a generosidade de mergulhar no seu rico inconsciente e nos apresentar personagens que não conseguimos enxergar em nosso cotidiano.
Personagens delirantes apresentam momentos de lucidez. Rodrigo durante a entrevista concedida em sua casa, na Lagoa, apresentou o avesso de sua criação: lúcido com emocionantes instantes de delírio.
Ler esta entrevista e os livros do autor é abrir uma janela a inúmeros estados de consciência, mergulhar no desconhecido, enxergar através de uma lente azul – como propõe o narrador. Desejo que Rodrigo Souza Leão tenha sempre facilidade para publicar seus escritos; os leitores agradecem.
Por que o título do seu livro é Todos os cachorros são azuis?
Rodrigo Souza Leão – Na minha primeira infância eu tive um cachorro de pelúcia azul. Depois esse cachorro sumiu e nunca mais eu vi. É forte lembrança desse tempo. Como o livro fala de três fases da minha vida, resolvi fazer o link com minha infância. Mas nenhum cachorro é azul, é bom deixar claro. Só os cachorros de pelúcia são azuis.
Você tem alguma cor predileta?
Rodrigo – Eu gosto de azul e preto.
Você escreve prosa e poesia. Como surgiu seu interesse pela Literatura?
Rodrigo – É uma história longa. Você tem tempo?
Sim, pode falar.
Rodrigo – Eu comecei escrevendo poesia. A Suzana Vargas foi minha professora na Estação das Letras. No meu primeiro dia de aula, ela pediu que os alunos escrevessem um texto para ser comentado. Mas meu texto não foi escolhido para ser lido. Fiquei muito triste. O texto era assim:
a bomba é a solução / pra essa situação / pra crise geral / pro imposto territorial
Fala dos problemas políticos do país. Depois virou um hino punk através do grupo Eutanásia, onde meu irmão tocava bateria. Meu irmão me roubou essa parte da letra e colocou na música dele. Eu nunca quis ser escritor, meu plano era ser vocalista. Na década de 80, tive uma banda chamada Pátria Armada. Fizemos show no Circo Voador, na Metrópolis, no Made in Brazil – casas de shows da época. Minha meta de vida era ser músico.
Você toca algum instrumento?
Rodrigo – Eu toco um pouco de violão, mas só para compor. Minha voz fica boa impostada, perdi muito poder vocal por causa dos remédios que eu tomo.
Porque você toma os remédios?
Rodrigo – Para controlar o meu distúrbio delirante, minha esquizofrenia. Aos 23 anos tive um sério problema, identificaram a esquizofrenia. Hoje em dia usam muitos eufemismos para essa doença.
A Dra. Nise da Silveira batizou a esquizofrenia de ‘inúmeros estados do ser’...
Rodrigo – Nise da Silveira é maravilhosa, uma mãe. Mas voltando aos 23 anos: Tive um problema sério quando trabalhava na assessoria de imprensa da seguradora da Caixa Econômica. Foi uma crise de estresse muito elevado. Eu já era esquizofrênico, mas nunca havia manifestado a doença. Aos 15 anos, eu achei que tinha engolido um grilo – esse episódio está no meu livro. Aos 23 anos, no dia 03 de setembro de 1989, eu fui internado pela primeira vez, se não me falha a memória. Fui internado numa clínica, que não vou dizer o nome para não ser processado. Me colocaram camisa de força, me jogaram num cubículo e me deram um ‘sossega leão’. Mas o hospício em si não é a pior coisa do mundo. Porque, geralmente, não se sabe lidar com a loucura. Para família é muito complicado, ela se ver impelida a internar. O louco quebra a casa toda, faz um monte de merda, como aconteceu comigo na segunda internação. E pra onde você vai mandar esse cara? Eu sou a favor da luta antimanicomial. Acho que manicômio não resolve o problema de ninguém, só piora. Aqui está meu irmão, que é bipolar de humor, para comprovar. Na minha casa há histórico familiar de problemas mentais. Ele teve duas internações, na segunda vez ele ficou totalmente fora de si.
Se pudesse caracterizar o estado mental em que se encontra, o que diria?
Rodrigo – Eu falaria que eu sou esquizofrênico. Isso quer dizer que sou uma pessoa que necessita de certos cuidados: preciso tomar remédios específicos, viver uma vida diferente das outras pessoas e conseguir viver dentro das minhas ‘nóias’. Tenho que saber que a minha paranóia é paranóia e aprender a conviver com ela. A palavra-chave é convivência. É a convivência com a diferença. O meu ser é diferente dos outros. O esquizofrênico tem que ter uma sensibilidade para entender que é diferente. E sobre os eufemismos, isso é besteira. Falam “clínica” ao invés de “hospício”.
Não é difícil falar e escrever sobre doença?
Rodrigo – Hoje em dia é tranqüilo. Mas teve um tempo em que eu nem tocava no assunto. Até começar a minha relação com a internet eu não falava da doença. Escrevo mais poesia do que prosa. O meu primeiro livro chama-se Há Flores na Pele, só há um poema que fala de loucura. Eu falo da doença porque nunca gostei de psicólogos. Psicologia não resolve nada. Você fica batendo papo, conversando e nada. Fiz análise dos 12 aos 18 anos e não resolveu nada. Eu já tomei eletrochoque, mas com sedação. E esse eletrochoque é muito bom porque melhora muito o doente. Sério! Não é aquele eletrochoque tenebroso que era aplicado no tempo da Dra. Nise. Aquilo era um absurdo. Quem tirou o meu irmão da fase ‘abobalhado’, durante a crise psicótica, foi esse eletrochoque.
A arte tem um papel importante na sua vida. Certo?
Rodrigo – Justamente. Eu comecei a pintar há pouco. Mas escrever é uma coisa que vem. Eu só comecei a falar após a minha segunda internação. Fui internado duas vezes em 1989 e 2001, acho. Sou péssimo com datas e números, não sei nem meu telefone decorado. Essa segunda internação foi difícil, traumática, mas foi muito boa pra mim. Eu conheci lá dentro um cara chamado Gilberto Sabá, que foi guitarrista do Serguei, e gente tocava o terror. Ele que fez aquela música: ‘Toca um, toca dois, toca três. Toca, toca, toca rock and roll...’ A gente arrumava um violão e tocava para maluco dançar. (RISOS) Eu e ele éramos as pessoas mais lúcidas. Essa clínica onde fiquei era muito bonita, cheia de flores e árvores. Costumo dizer que hospícios são lugares tão bonitos que lembram cemitério. Eu ficava muito tempo fora do quarto vendo a paisagem, vendo a copa das árvores e escrevendo algumas coisas.
Sua prosa me lembra a poesia da Stella do Patrocínio. Conhece?
Rodrigo – Sim. Uma louca, lançaram um livro pela editora Azougue. Isso acontece porque a loucura é igual para todos. O bipolar de humor tem momentos de euforia e depressão, com momentos tristes e maravilhosos. Se o bipolar tomar remedinhos, como Lithium e Haldol, ele consegue se curar em longo prazo. A cura não é imediata porque precisa da conscientização da doença. A pessoa que tem distúrbio delirante acha que está sendo perseguida por agentes e policiais. Você acha mesmo que está sendo perseguido! Eu nunca tive visões. Ou melhor, tive visões quando fiquei uns cinco meses sem comer em casa porque achava que estava sendo envenenado pela minha família. Eu só comprava comida fora, fiquei muito tempo sem dormir.
(BRUNO, IRMÃO DE RODRIGO, SE APROXIMA E COMEÇA A PARTICIPAR DA ENTREVISTA)
Você tem uma lucidez muito forte em relação a isso.
Rodrigo – Não sei se é lucidez ou excesso de sofrimento. Eu sofri muito com minha doença, só eu sei o quanto eu sofri. Meu irmão também sabe.
Bruno – Sou assessor dele.
Rodrigo – Ele é meu assessor para assuntos estratégicos. (PAUSA) O sofrimento fez com que eu tivesse um insight. Mas minha vida tem muitas limitações, por exemplo, não saio de casa, sou recluso. Tenho medo de ser perseguido por agentes. É uma coisa absurda. Você está vendo um cara lúcido dizer que tem medo de ser perseguido por agentes. Mas essa é a minha doença. O que eu posso fazer?
Bruno – Quando arranja uma namorada ele sai. Pra ir ao motel...
Rodrigo – Só saio um pouco quando arranjo uma namorada.
Você namora muito?
Rodrigo – Namorei muito até os 23 anos. Eu era muito bonito, mas não sou mais por causa dos remédios. E não vejo no relacionamento a solução para os meus problemas. Se eu quiser ficar com uma garota, ela vai ter de se adequar muito a mim. Porque o problemático da relação sou eu. É difícil conciliar uma relação com alguém que não pode sair. Gosto de ficar na minha casa vendo filme e jogos de futebol. Sou 'flamenguista doente'. Hoje em dia as pessoas só querem ir para festas e barzinhos. Eu não posso beber porque tomo remédio tarja-preta, tomo Haldol.
Bruno – Mas faz sexo...
Rodrigo – Mas isso não tem contra-indicação. Eu já tomei muitos remédios. Mas me dei bem com esse remédio, embora dê tremor, mão fria e salivação.
Você é formado em Jornalismo.
Rodrigo – Sim. Me formei em Jornalismo pela Faculdade da Cidade (atual UniverCidade). Eu não consegui me formar por uma faculdade federal, mas tive bons professores: Fernando Muniz, Lúcia Padilha, Ítalo Moriconi... Tive uma formação muito interessante. Meu lance nunca foi jornalismo, eu queria ser locutor de rádio. Ouvi muito a Rádio Cidade e a Rádio Fluminense com Maurício Valladares. Mas o que restou na minha vida foi escrever. O que sobrou? Escrever. Eu já fazia letra de música, depois passei a escrever poemas. Acredito que algumas letras de música são poemas.
Há letristas que são poetas.
Rodrigo – Sim. Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Gilberto Gil e Chico Buarque são maravilhosos.
Você sempre gostou de ler?
Rodrigo – Não. A leitura foi um hábito que adquiri após minha primeira internação. Eu fiquei muito tempo em casa e devorei Proust e James Joyce. Li muito o Rubem Fonseca, gosto muito dele.
Você tem um livro de poesia chamado Carbono Pautado – memórias de uma auxiliar de escritório.
Rodrigo – Sim. Mas esse livro só foi importante para que eu pudesse ver como foi a minha vida.
Sua escrita é muito fragmentada, uma característica muito presente no texto dos autores contemporâneos...
Rodrigo – Nós vivemos em tempos esquizofrênicos. Muita gente tem depressão ou síndrome do pânico. É uma sociedade que está doente porque dá valor ao que não se deve: o dinheiro. O ser humano viveria muito mais se parasse com essa babaquice de querer dominar o outro.
No seu livro, Rimbaud e Baudelaire são influências?
Rodrigo – Mais Rimbaud do que o Baudelaire. Li a obra completa do Rimbaud, que é bem curta. Gosto muito da "Canção da Torre Mais Alta":
Juventude preza / A tudo oprimida / Por delicadeza /Perdi minha vida.
Acho essa poesia sensacional! O Rimbaud é muito presente na minha vida. Eu tive muitos livros. Mas teve uma época em que eu achei que ia morrer, então fiz uma grande liquidação de livros. Peguei todos os meus livros, separei, dei os que eu queria dar e vendi todo o resto. Dei um disco incrível do Roberto Carlos, Nas Curvas da Estrada de Santos, para um cara que estava num sebo.
Bruno – Meus discos do Iron Maiden foram juntos...
Rodrigo – É, os discos do meu irmão, que gosta de heavy metal. Eu só fiz essa grande liquidação porque eu achava que fosse morrer. Mas eu sobrevivi. A minha condição de vida é a seguinte: vivo o presente. Como estou vivo, faço um melhor dia pra mim. Eu não faço projeto a longo prazo. No edital da Petrobras eu deixei claro que o meu livro estava quase todo pronto e eles aceitaram assim mesmo. Mas o meu livro foi rejeitado pela Casa do Psicólogo. Eu pensei: Nem os psicólogos estão do meu lado? Logo na Casa do Psicólogo? Num lugar em que eu deveria ser tratado a pão de ló.
Mas você conseguiu aprovação na Petrobras.
Rodrigo – Esse projeto foi muito importante. Eu não tinha dinheiro para bancar meu livro. Apesar de viver nesse apartamento na Lagoa e parecer rico, não tenho muita grana. O dinheiro vai para serviços, remédios e outras despesas. Fui aposentado por invalidez aos 23 anos, não recebo muito. Eu consegui publicar graças à Petrobras e à 7 Letras. Mas no início a Petrobras não acreditou muito, mandaram duas psicólogas para me avaliarem. Elas diziam: ‘Ele tem problemas cognitivos, problemas X, problemas Y’. Foi ótimo porque depois dessa avaliação “não preciso” ter mais problemas.
Você é otimista em relação a sua carreira de escritor?
Rodrigo – Não. Mas acho que fiz um livro bom, intenso e mágico. Estou escrevendo outro livro: Tripolar, um livro de mais confronto com a linguagem. São três novelas que não se comunicam. Tenho uma postura positiva, mas não sou ufanista em relação a vida. Não acho que vou viver de literatura. Mas acredito no que eu faço. Vou ganhar prêmio? Isso é imponderável.
Bruno – Vai ganhar o Jabuti.
Rodrigo – Não vou ganhar.
O que é mais importante na sua vida?
Rodrigo – O mais importante, no momento, é eu não saber o que é a coisa mais importante na minha vida. É saber colocar importâncias variadas. É importante que eu continue estável e consiga viver o máximo de tempo possível.
Você quer viver muito?
Rodrigo – Não. Eu espero viver pouco. Se eu conseguir viver até 50 anos ficarei contente. Porque viver muito é para quem não tem problemas. Quando a pessoa tem muito problema é até melhor morrer cedo porque se livra um pouco dos traumas e angústias. Sou uma pessoa muito traumatizada. Mas feliz! Eu sou feliz. Posso dizer que sou muito feliz, mais feliz que a grande maioria das pessoas. Eu sou feliz. Eu não estou realizado porque ainda estou no meu primeiro livro. Estou na batalha para publicar um livro há muito tempo, desde os 27 anos.
Você acredita em Deus?
Rodrigo – Por muito tempo eu li Nietzsche: Assim falou Zaratustra. Li todos os livros de Nietzsche quando eu tinha vinte e poucos anos, eu adorava filosofia. Então a minha relação com a religião é mais calma. Eu rezo três orações antes de dormir, minha avó que ensinou: Oração a São Miguel de Arcanjo, Pai Nosso e Oração a Nossa Senhora da Cabeça.
Salve Imaculada, Rainha da Glória, Virgem Santíssima da Cabeça, em cujo admirável título fundam-se nossas esperanças, por sedes...
Agora está me faltando, não estou conseguindo lembrar.
Sem problemas.
Bruno – E ele vê a Igreja Universal do Reino de Deus, todos os dias comigo no quarto.
Rodrigo – Só vejo porque ele vê. Isso não tem nada a ver. Não vejo Igreja Universal.
O que é a morte?
Rodrigo – Eu torço para que exista algo além. Gostaria de ver o que as pessoas acham de mim quando eu estivesse morto. Sabe? A reação das pessoas. Para saber se meu melhor amigo iria chorar, se alguma namorada ia lembrar de mim, se meu livro ia vender depois de morto... Por que depois que morre todo escritor vende.
O que é loucura?
Rodrigo – Isso é engraçado. Porque quando se é um louco folclórico, cheio de indumentária e adereços – tipo Bispo do Rosário, Plínio Marcos, Gentileza –, aí ele é bem-vindo. Eu quero acabar com esse folclore porque eu me visto como uma pessoa normal. Não tem como definir loucura. Loucura é uma coisa perigosa de ser definida, por isso as pessoas falam tão pouco. As pessoas têm uma idéia mitificada da loucura, o Michel Foucault falava disso. Definir loucura é não saber como se está no mundo. Não posso crer que só existam loucos como eu, que têm noção do que é a doença. Têm loucos como o Bruno, que são menos capacitados a isso. E também têm os agressivos. Acho que os hospícios não deveriam misturar os loucos. Assim as clínicas se tornam um depósito de gente. Os oligofrênicos deveriam estar separados dos outros loucos. Eu não vou ser mais internado, eu acho. Vou ser internado só no cemitério do Caju. (RISOS).
O que é a vida?
Rodrigo – A vida é excepcional. É o lugar onde tentamos construir sonhos. Vida é algo que foi dado e só você pode tirar, se você se suicidar. Ou Deus, que também pode tirar. Mas nem sei se Deus existe. Eu sou meio revoltado com Deus. Por que eu fui nascer esquizofrênico? Por que eu não nasci mais alto como o fotógrafo (Tomás Rangel). Eu nasci com 1,70. Eu queria 1.85. (RISOS) Ramon também faz parte da família dos ‘gnomídios’. Você deve se achar um anão. (RISOS).
Por que escrever?
Rodrigo – Escrever foi o que me sobrou. De tudo que tive, foi o que me restou a fazer.
A escrita trouxe vida?
Rodrigo – A leitura me trouxe vida. Eu lia o Proust, anotava umas palavras num papelzinho e no final do dia fazia um poema. Saía uma coisa sem pé nem cabeça. Na prosa eu trabalho o psicológico dos personagens.
Sabe alguma poesia de cor?
Rodrigo – Sim. Vou falar:
“Mulheres”
Canetas compro e somem / Não são mulheres num só homem.
E tem outra que eu gosto: “Surto”
Pânico no circo
aladodas têmporas
Endorfinas macaqueando
a goiabada pineal
Volts em volta
Eletrodos todos
De branco culpados
culpas pecados
Haldol no leite
Ralo do tempo
Clitóris de plástico
na sopa de adrenalina
Nódoas nuas cristalizadas na nuca
Nunca injete tudo
Camisa sem mão sem mangas
Nos olhos apenas antolhos
Na janela áurea de peristilos
punção de morte fode
Peixes fisgando anzóis comicham no corpo
Baleias de chupeta
Na veia sossegada o leão caminha
inválido de juba cortada, cuspindo
vida curta
Em curto circuito fechado
faixas vendas ferem as paredes
Sem degraus as pilastras
Sem grade degrade
Degradado de sol
de lua
Chuva desbotada
Eletrochoque natural
Enguias guiam os volts
na cabeça dos cegos de si
Que escritores você admira?
Rodrigo – Gosto do João Gilberto Noll.
Há quem pense que ele é esquizofrênico.
Rodrigo – Sério? Então ele não se assume? (RISOS). Sai do armário, Noll! Gosto do Wilson Bueno e do Ademir Assunção – adoro o livro Adoráveis Criaturas Frankstein.
O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?
Rodrigo – Primeiro: Viva ao máximo! O que importa são os momentos. Se o livro for rejeitado, não desista! Se você gosta de escrever, então escreva para você mesmo. Eu só fui publicado quando escrevi para mim mesmo.
http://www.portalliteral.com.br/artigos/fragmentos-humanos-entrevista-com-rodrigo-de-souza-leao
Resenha de Todos os cachorros são azuis / Cronópios (25.10.2008)
O CÉU ESTÁ MORTO
Por Victor da Rosa
O olho que narra é azul e vê tudo a seu modo – na falta de nome, quase nada, água: todas as coisas azuis. Desaparece a distância que antes separava o olho e as coisas: azul. A voz assim desaparece nas coisas. O céu está morto.
Certa distorção cromática nomeia de início a primeira novela do escritor Rodrigo de Souza Leão: Todos os cachorros são azuis (7Letras, RJ, 78 páginas)– e talvez reflita de início a imagem que atravessa toda a narrativa: um cachorro azul, de pelúcia, objeto afetivo de infância, que retorna em vários momentos do livro, quase sempre como uma falta, mas se derrama também para a imaginação de um cenário deformado e delirante. “Eu não tinha culpa de ver a luz das coisas”, diz o narrador. Em linhas gerais: trata-se de um sujeito que narra sua experiência em um hospício – e, segundo as palavras de Sérgio Medeiros, que assina a orelha do livro, estamos diante de uma experiência autobiográfica.
Parece haver durante todo o livro uma variação narrativa entre o delírio mesmo e instantes de lucidez, se aceitamos esta dicotomia – e o comovente (ainda devemos pensar esta palavra em sua literalidade: como aquilo que move junto, arranca o leitor de seu lugar) é que isto não nos é representado, mimetizado por uma voz que acompanha todo o acontecimento em sua distância, e sim narrado pelo corpo mesmo no interior da experiência. Há um sujeito implicado em tudo. Desta maneira, a escrita abandona sua função de entendimento e passa a se constituir enquanto marca na página: cisão. Em outras palavras: a prosa de Rodrigo talvez não aconteça na continuidade, ou no retorno – características fundamentais da prosa - mas principalmente no corte.
Ao mesmo tempo – e isto deve se constituir também enquanto corte na escrita – penso que esta narrativa de Rodrigo se lança com extrema precisão. Se, por um lado, há o excesso de tudo atravessando experiência e escrita, por outro lado há um delicado esforço (mas não evidente) de contenção – ou seja: de ter dentro – daquilo que se oferece enquanto queda absoluta, como nesta imagem: “O sol era um sorvete de manga”. Penso então na imagem da fluência - que traz um primeiro sentido de algo fluido e ao mesmo tempo a idéia de certa clareza. O esforço talvez seja o de esculpir a água.
A retina que narra é corte: azul, nada. O olho que narra é lâmina. A literatura de Rodrigo é então um vidro sobreposto de imagens: “Minha vida no mundo das cores era um inferno”.
O azul é uma cor fundamental para a literatura de Mallarmé: o céu está morto. Ainda nas palavras de Sérgio Medeiros, em um ensaio que escreve sobre o poeta francês, o azul é o alto – é o intocável, portanto. “L’azur! l’Azur! l’Azur! l’Azur!”, repete Mallarmé sem que o céu se abra, enfrentando a impossibilidade em um ato de loucura. É curioso que nesta narrativa de Rodrigo, por outro lado, o azul apareça em um objeto habitual, afetivo: um pequeno cão de pelúcia. Ao mesmo tempo, trata-se de um objeto que permanece perdido durante todo o tempo, ausente, já que o hospício é essencialmente o espaço da falta: falta da razão, de memória, falta de nome: azul. “Meu cachorro azul não tinha nome. Nada que eu gosto tem nome. Tudo que é perigoso tem nome”, diz o narrador. E ainda: “Tudo que eu tenho é o meu cachorro azul”.
Viver durante anos em um hospício é, de fato, viver com fantasmas. A memória – recorrente em curtos cortes cinematográficos – talvez seja a única possibilidade de permanência. Se o céu está morto, a imagem passa a ser a do cemitério: ou o inferno de Rimbaud. Como ainda sugere Sérgio Medeiros em seu texto de apresentação: “o hospício é a modernidade ‘louca’(...)”. Em muitas de suas alucinações, o narrador dialoga mesmo com Rimbaud e, algumas vezes, também com Baudelaire. No meio destes diálogos, no entorno do cenário, a cultura de massa invade estas alucinações: “Dança da motinha. Dança da motinha. Eu engoli um grilo quando tinha meus 15 anos de idade. Foi a primeira vez que consegui conviver comigo mais intensamente”. Seus personagens não são retratados, mas traçados – são fantasmas.
Todas as culturas convivem na mesma interioridade, em uma sobreposição enunciativa interminável. E ainda: vozes de diferentes lugares e tempos são confrontadas no mesmo nível de discurso. Na primeira página do livro, por exemplo, o primeiro contato: “Engoli um chip ontem. Danei-me a falar sobre o sistema que me cerca. Havia um eletrodo em minha testa, não sei se engoli o eletrodo também junto com o chip. Os cavalos estavam galopando. Menos o cavalo-marinho que nadava no aquário”, diz o narrador, no primeiro parágrafo do livro – para depois, logo em seguida, afirmar em terceira pessoa: “Ele continua achando que engoliu um chip”, como se então a voz fosse a mesma, em uma anulação absoluta da fronteira entre quem diz e ouve.
Este corpo narrativo está assim atravessado por diferentes vozes, espaços, tempos: ainda, cortes. Em outras palavras: permanece em constante contato com o entorno – embora seja visível, por outro lado, certa solidão. Não há diferença: todos os cachorros são azuis. Há um modo de apreender que não está ligado ao chão.
“Por delicadeza, perdi minha vida”, ainda diz o narrador. A literatura é uma saúde. E a escrita então é talvez a única possibilidade de um testemunho que resta depois da catástrofe – depois de tudo. Deste modo, entramos também em contato – e é como se pudéssemos pôr as mãos, mesmo que de modo opaco – com todo o contexto do hospício, a dificuldade: “Eu começava a desconfiar de minha sombra”. E o que mais toca, assim, é perceber que todos, de algum modo, estamos implicados nesta surpreendente narrativa de Rodrigo – como nos repete o título, aliás, sempre que fechamos o livro: todos os cachorros – sem exceção - são azuis.
http://www.cronopios.com.br/site/resenhas.asp?id=3604
Resenha de Todos os cachorros são azuis – O Globo, Prosa e Verso, 08/11/2008
LEVEZA E LIRISMO PARA ABORDAR O TEMA DA LOUCURA
Estréia de poeta na prosa teve apoio de programa da Petrobras
Elaine Pauvolid
O livro de estréia de Rodrigo de Souza Leão na prosa, a novela Todos os cachorros são azuis, tem como mote a vida de um interno num hospício. Foi escrito com patrocínio da primeira edição do Programa Petrobras de Cultura (2006/2007) na área de literatura e baseia-se em experiências do autor, carioca de 1965, conhecido no meio literário pelos poemas do seu blog e do livro Há flores na pele (Trema), assim como pela co-edição da Revista Zunái http://www.revistazunai.com/). A história se divide em quatro capítulos e tem como cenários principais a casa em que o narrador-protagonista mora com os pais e um hospital psiquiátrico. Um assassinato no hospital, a fundação de uma religião e uma nova linguagem são as bases da narrativa. Há diálogos sem travessão e mudanças sem aviso prévio da primeira para a terceira pessoa: o contexto define quem está falando. O protagonista é descrito como “doente mental, esquizofrênico. Tem distúrbio delirante, tem delírios persecutórios” e conversa com Rimbaud e Baudelaire. Há ainda referências ao mundo pop, como propagandas de TV, músicas, personagens de desenhos animados e filmes.
Mergulhos delirantes e frases da mais pura poesia O tom coloquial e a ingenuidade do protagonista lembram a prosa de Salinger em O apanhador no campo de centeio. Rodrigo fala de redenção; Holden, o protagonista de Salinger, segue trajetória oposta, ao sofrer um esgotamento mental e ser confinado numa casa de repouso. Todos os cachorros tem mergulhos delirantes e frases da mais pura poesia. Como quando explica por que quebrou a casa onde morava com os pais, motivo de sua internação: “(...) porque sou feito de cacos e quando os cacos me convidam, desordeno tudo”.Ou quando critica a instituição asilar: “O hospício era um lugar cheio de flores lindas, mas podre por dentro. O modelo hospício tinha que ser mudado. Mas como a minha família me agüentaria quebrando tudo?” E há questionamentos existenciais: “No dia da crise não se pode fazer nada. E o que fazer para não entrar em crise?”. E apesar de tratar de tema tão doloroso quanto o da loucura, o livro é leve e cheio de humor. Interessante notar o surpreendente final. Lembra um fato real envolvendo um dos muitos leitores de O apanhador no campo de centeio e um ícone da música pop.
Resenha de Todos os cachorros são azuis / Folha de Londrina (08.02.2009)
Os jardins do cemitério
"Todos os Cachorros São Azuis”, novela de Rodrigo de Souza Leão, aproxima a literatura da esquizofrenia
Marcos Losnak
Todo mundo possui a possibilidade e um dia espanar os parafusos. Alguns, parafusos pequenos. Outros, parafusos bem maiores. O narrador da novela “Todos os Cachorros São Azuis”, obra do carioca Rodrigo de Souza Leão, espanou um dos grandes. Passou um tempo na rede hoteleira do inferno, experimentando quartos e serviços, conversando com outros hóspedes e tentando encontrar alguma luz através das janelas. E retornou para contar sua melancólica aventura.
O narrador de “Todos os Cachorros São Azuis”, lançado pela editora 7 Letras, está internado num hospício após ter quebrado toda a casa na ausência dos familiares. Além do confinamento, seu tratamento consiste em dúzias de comprimidos das mais variadas cores, todos embalados em faixas e mais faixas pretas.
Considera que suas alterações começaram quando engoliu um grilo na juventude. Ou quando teve um chip implantado em sua cabeça num momento de distração. Sua única lembrança afetiva está na figura de um cachorrinho de pelúcia azul que teve na infância e que, misteriosamente, foi perdido. Além de conviver com os loucos do local, em suas visões regulares conversa com os poetas franceses Arthur Rimbaud (1854 – 1891) e Charles Baudelaire (1821 – 1867) que também passam uma temporada no inferno. Após conseguir sair do hospício, o narrador cria uma nova religião (a “Todog”) que arrebanha multidões de fiéis.
Todo o enredo de “Todos os Cachorros São Azuis” se resume basicamente a isso. Um sujeito lutando contra a própria loucura dentro de uma clínica psiquiátrica. A grande surpresa da obra está na linguagem que Souza Leão desenvolve como instrumento narrativo. O autor aproxima a escrita da esquizofrenia. Coloca as duas tão próximas que os limites são quase eliminados e nesse processo cria um tom particular de escritura.
Se uma das características básicas da esquizofrenia está na fragmentação, no estabelecimento de cisões da estrutura mental, a narrativa presente na novela reproduz justamente essa fragmentação, essas cisões. A alucinação é colocada como um componente do real dentro do discurso do narrador. E onde poderia se encontrar apenas lágrimas e tormento, pode-se encontrar boas doses de humor e ironia que invariavelmente olham além das janelas.
Rodrigo de Souza Leão tem conhecimento de causa. Assumidamente esquizofrênico, passou duas temporadas em hospitais e clínicas psiquiátricas. A primeira em 1989, quando tinha 23 anos, e a segunda em 2001. Comeu o pão que psiquiatras e enfermeiros amassaram até encontrar na literatura um porto seguro. Com vários e-books disponibilizados na internet, “Todos os Cachorros São Azuis” é seu segundo livro publicado em formato convencional. O primeiro, “Há Flores na Pele”, que reúne poemas, foi publicado em 2001 pela editora Trema. Atualmente atua como editor (ao lado de Claudio Daniel) da revista virtual de literatura “Zunái” e colaborador site literário “Germina”, além de manter o blog pessoal “Lowcura” (lowcura.blogspot.com).
Enquanto novela, “Todos os Cachorros São Azuis” realiza uma coisa pouco usual. Ao mesmo tempo em que coloca a literatura dentro do hospício, coloca o hospício dentro da literatura. Faz um caminho de mão dupla onde a poesia possui as chaves mais absurdas para escancarar as portas e arrebentar as janelas.
Existe, no interior das páginas do livro de Souza Leão, uma imagem exemplar. O narrador descreve os hospitais psiquiátricos como um lugar de simbolismo exemplar: “Os hospícios são lugares tão bonitos que lembram os cemitérios”.
Resenha de "Todos os cachorros são azuis"/Estado de Minas/(25.07.2009)
LOWCURA CRIATIVA
O poeta Rodrigo de Souza Leão, que morreu dia 2 deste mês, aos 43 anos, deixa livro Todos os cachorros são azuis, um mergulho íntimo no sofrimento mental
José Aloise Bahia
Partiu o ficcionista e o poeta. Permanece a sua obra. Uma lowcura criativa em versos, prosas, colunas, mensagens, visualidades, entrevistas e coparticipações diversas em sites, blogs e a excepcional novela fragmentada e vertiginosa Todos os cachorros são azuis, um dos 50 finalistas do Prêmio Portugal Telecom. Rodrigo de Souza Leão, 43 anos, falecido dia 2, de ataque cardíaco, na sua cidade natal, Rio de Janeiro, deixa-nos um verdadeiro tratado pessoal sobre a esquizofrenia. Realiza saltos inimagináveis na linguagem. Tal qual um saci, restaura na página em branco o deslimite do silêncio no grito onírico e realista, os opostos, pulando fronteiras da imaginação. Legitimou seu rastro. Muito além, como bem observa de maneira inteligente Sérgio Medeiros: “Decerto é um diário e um libelo contra a doença mental, aparentado com o consagrado romance Hospício é Deus, de Maura Lopes Cançado, porém é também um relato policial desconcertante, como o Molloy, de Samuel Beckett”.
Para o autor não existiam barreiras. Na novela, observamos a quebra de várias, por meio do humor fino, aforismos desatinados e delírios cromáticos. A poesia e a prosa movem-se nas entrelinhas e cortes do tempo. São flashbacks e trailers cinematográficos em edição constante. Na degradação dos intervalos, rumina hibridismos, tensão do pensamento; no gesto intruso, entre remédios, a língua multicolorida. Uma película fantasmagórica. E na sua consequência, em meio à inconsequência, o autorretrato radical lembra Paul Celan: “Fala a verdade quem fala sombras”. A sombra é o hospício. A verdade, a literatura. Novamente, Sérgio Medeiros vai ao ponto, reluz o lugar e o percurso de toda uma época: “Ali, entre numerosas citações literárias, cenas de filmes e telenovelas, clichês, grosserias e delicadezas, deparamos, num dos pontos altos do livro, com uma alegoria carnavalesca carioca: o hospício é a modernidade ‘louca’. A América Latina de hoje. Baudelaire, um dos personagens mais sombrios deste texto, assiste, mas ‘não deixa seu olhar fundar a modernidade’ – já estamos na pós-modernidade terceiro-mundista”.
Macunaíma de passagem... Aliás, Macunaíma cibernético, fruto de duas gerações de escritores em diálogo contínuo com outras, em detrimento daqueles que acham que a prosa poética dos Cachorros não progride na forma e conteúdo. É justamente nesses quesitos que ocorrem a reencarnação gramatical e sintática, sublimação e transcendência possíveis, de autor e obra. Fusão das personas confessionais. Pedaços daquilo que foi e é. A estrutura narrativa, com apurado senso estilístico, é a própria condição mental do autor. Caldeirão louvável de fábulas, ficções científicas, depoimentos sustentados na representação degenerativa da realidade. Nas palavras do escritor em entrevista a Juliana Krapp, meses antes do seu falecimento: “O meu processo foi o de tentar aproximar a prosa da esquizofrenia. Para isso, resolvi achegar a prosa à poesia. A linguagem natural de um louco é, digamos, um pouco poética. Quando um poeta diz, por exemplo, ‘guardei o Sol em sete partes’, usa uma linguagem específica. O Sol não tem partes nem pode ser guardado. Só num poema isso é possível. Por isso, o livro pode ser poético. Foi isso que busquei. Fiquei possuído por esse espírito e acho que não errei de todo. Queria também ser ágil e um pouco diferente, sem ser chato. Já existem muitos escritores herméticos e chatos, não queria ser mais um em que o hermetismo fosse o principal da narrativa. Mas nunca facilitei o texto. Usei também muito a repetição. Repetia que tinha engolido um chip, que engolira um grilo e outras coisas mais. Só não havia engolido espadas. Aliás, nem gosto muito de ver mágica e magia”.
Real e ficção
Num mundo em que as fronteiras do real e ficção tornam-se cada vez mais tênues, pela revolução tecnológica, alarga-se o pensamento e o conhecimento de novas linguagens, rompendo limites, a tentativa, firmamento e a aceitação das alteridades — principalmente, as virtuais. De maneira semelhante, tentar por aproximação restabelecer uma relação construtiva com os diferentes, no caso do livro, a prosa e a poesia como o habitat atonal da loucura (mesmo com a repetição de frases ao longo da narração), sua simbologia intrínseca e o cubículo, a imagem iluminada do verbo, explode em neologismos. “Todog são várias forças numa só. (...) Todog é a linguagem que todos os animais falam.” Reveladoras de uma liberdade do eu, sempre esbarrando em alguém para ser livre, transitando do conhecido para o desconhecido. Cumplicidade ao extremo com a falta, a busca desenfreada de correlações, num espaço cada vez menos delicado. Como no trecho: “Tudo ficou dourado. O céu dourado. O Cristo dourado. A ambulância dourada. As enfermeiras douradas tocando-me com suas mãos douradas. Tudo ficou azul: o bem-te-vi azul, a rosa azul, a caneta bic azul, os trogloditas dos enfermeiros. Tudo ficou amarelo. Foi quando vi Rimbaud tentando se enforcar com a gravata de Maiakovski e não deixei. Pra que isso, Rimbaud? Deixa que detestem a gente. Deixa que joguem a gente num pulgueiro. Deixa que a vida entre agora pelos poros. Não se mate, irmão. Se você morrer, não sei o que será de mim. Penso em você pensando em mim. Rimbaud, tudo vai ficar da cor que quiser. Aqui não dá pra ver o mar. Mas você vai sair daqui. Tudo ficou verde da cor dos olhos do meu irmão e da cor-do-mar. Do mar. Rimbaud ficou feliz e resolveu não se matar. Tudo ficou Van Gogh. A luz das coisas foi modificada. Enfim, me deram uns óculos. Mas com os óculos eu só via as pessoas por dentro”.
Desde a publicação dos seus primeiros versos, no começo da década de 1990, Rodrigo de Souza Leão sempre manteve uma grande ligação com o universo literário do Brasil. A partir do seu convívio virtual com autores dos mais distintos segmentos, de norte a sul, desenvolveu como poucos um intenso trabalho de aglutinar pessoas e ideias em suas pesquisas. Aceitou o desafio de expor a sua condição humana, de se lançar no mundo da literatura. De construir uma passagem memorável. Sua produção compulsiva e visceral merece ser reunida, catalogada e publicada na forma de uma antologia. Um reflexo cristalino no espelho da contemporaneidade.
Arte entre extremos/ O Globo-Prosa e Verso/ (1.08.2009)
ARTE ENTRE OS EXTREMOS
Convencido de que em Itaguaí a loucura era a regra, o psiquiatra Simão Bacarte tomou a decisão lógica e despachou os loucos para a rua. Trancou-se no hospício em companhia de sua aberrante sanidade, e de lá só saiu morto. Obra-prima de Machado de Assis, “O alienista” vira de cabeça para baixo os chavões positivistas sobre demência e razão. A loucura, por sua vez, também demole nossas ideias a respeito da literatura. Para o carioca Rodrigo de Souza Leão, cuja morte completa um mês amanhã, a vocação da escrita se manifestou junto com a esquizofrenia, aos 23 anos de idade. Em 2008, aos 42, ele lançou “Todos os cachorros são azuis” (7Letras), elogiado romance de estreia que agora concorre ao Prêmio Portugal Telecom. Era um escritor lírico, irônico e melancólico”, escreve o poeta Ramon Mello, que adaptou o livro para o teatro. Ao morrer, deixou no computador um segundo romance de 300 páginas, do qual trechos inéditos são publicados nesta edição.
Leão era apaixonado por Rimbaud e admirava Nise da Silveira, criadora do Museu de Imagens do Inconsciente. Luiz Carlos Mello, diretor da instituição, explica seu recém-concluído livro sobre a vida e o trabalho da psiquiatra, uma pioneira que mostrou como a criação artística ordena as emoções dos pacientes e dissipa preconceitos da sociedade. A morte de Nise completa dez anos em 30 de outubro, data que também motiva a discussão sobre a fronteira porosa entre delírio e realidade.
LEMBRANÇAS DO MUNDO AZUL
O delírio e a lucidez do escritor carioca Rodrigo de Souza leão, que morreu em julho
Por Ramon Mello
O mundo ficou mais triste com a morte do escritor Rodrigo de Souza Leão. Soube da notícia durante a última edição da Festa literária de Paraty, através da homenagem realizada por Carlito Azevedo no painel “Evocação de um poeta”. Fiquei chocado. Rodrigo foi uma das maiores surpresas que tive na vida, seu delírio e lucidez me fascinaram – poesia pura, a mesma matéria-prima dos textos de Stela do Patrocínio, Maura Lopes Cançado, Lima Barreto, Samuel Beckett e Antonin Artaud.
Em novembro de 2008 recebi um exemplar do romance “Todos os cachorros são azuis” (7Letras) para realizar uma entrevista com o autor para o site Portal Literal. Peguei o pequeno livro, fui para um café e mergulhei no universo lírico, irônico e melancólico de Rodrigo de Souza Leão: a trajetória (autobiográfica) de um homem internado num hospício.
No mesmo dia liguei para Rodrigo e combinei um encontro. Ele só fez uma ressalva: “A entrevista tem que ser aqui em casa”. Topei. Em seguida, justificou: “Sou esquizofrênico e faz alguns anos que não saio de casa”. Fiquei receoso, talvez por medo de que o encontro com um esquizofrênico me revelasse que, afinal, não éramos assim tão diferentes. Mas não desisti, fui até Rodrigo. A entrevista aconteceu numa quinta-feira.
Paixão por Rimbaud e horror ao hospício
Quando cheguei ao apartamento, a porta da sala estava aberta, e o autor me esperava sentado, num sofá florido, acariciando um cachorro. Foi ele quem fez a primeira pergunta: “Gostou do livro?” Depois levantou, apertou a minha mão e disse: “Não repara, minhas mãos estão tremendo por causa dos remédios. É uma merda: engorda, enfraquece os dentes e deixa a mão amarelada. Só não deixa brocha. Mas eu fico calminho”, disse com um riso irônico.
Começamos a falar sobre o título do seu livro: “Na minha primeira infância eu tive um cachorro de pelúcia azul. Depois esse cachorro sumiu e nunca mais eu vi. É forte lembrança desse tempo. (...) mas nenhum cachorro é azul, é bom deixar claro. Só os cachorros de pelúcia são azuis”.
Por duas horas, Rodrigo falou sobre a paixão pela poesia de Rimbaud, o sofrimento em lidar com a esquizofrenia, a admiração por Nise da Silveira e o horror ao tratamento concedido aos loucos no hospício: “São lugares tão bonitos que lembram cemitérios”. Seu irmão, Bruno, acompanhou o encontro e tornou a conversa mais engraçada ao revelar curiosidades sobre o poeta, como o hábito de assistir ao programa da Igreja Universal do Reino de Deus, embora gostasse de ler Nietzsche e não tivesse muita crença: “Nem sei se Deus existe. Eu sou meio revoltado com deus. Por que eu fui nascer esquizofrênico?”
Próximo do final da entrevista, perguntei o que era mais importante em sua vida, e Rodrigo respondeu: “O mais importante, no momento, é eu não saber o que é a coisa mais importante na minha vida. É saber colocar importâncias variadas. É importante que eu continue estável e consiga viver o máximo de tempo possível.”
E, por fim: “Você quer viver muito?”
“Não. Eu espero viver pouco. Se eu conseguir viver até os 50 anos ficarei contente. Porque viver muito é para quem não tem problemas. Quando a pessoa tem muito problema é até melhor morrer cedo porque se livra um pouco dos traumas e angústias. Sou uma pessoa muito traumatizada. Mas feliz! Eu sou feliz. Posso dizer que sou muito feliz, mais feliz do que a grande maioria das pessoas. Eu não estou realizado porque ainda estou no meu primeiro livro. Estou na batalha para publicar um livro há muito tempo, desde os 27 anos.”
Depois desse encontro, Rodrigo passou a me ligar todas as quintas-feiras por volta das 15h. Com o decorrer da amizade, criei coragem e pedi autorização para adaptar “Todos os cachorros são azuis” para o teatro. Para minha surpresa, Rodrigo me enviou a autorização por escrito, com um cd da sua banda Krâneo e Seus Neurônios – uma produção experimental em parceria com Gizza Negri. Depois de inúmeras consultas por telefone e troca de e-mails, finalizei a adaptação. Mas, infelizmente, não tive tempo de lhe mostrar o trabalho. Resta, agora, homenageá-lo no palco.
Sua obra merece ser republicada e reavaliada
Rodrigo de Souza Leão não precisa de sentimentos de piedade, o que está muito claro na carta de despedida deixada por ele antes de ir para o hospital, onde morreria de ataque cardíaco: “Nunca tenham pena de mim. Nunca deixem que tenham pena de mim. Lutei. Luto sempre”. Não tenham pena de Rodrigo, apenas cuidem de sua obra. “Os loucos têm seu céu particular”, ele afirmou.
Mas, afinal, o que pensava o poeta sobre a morte?
“Eu torço para que exista algo além. Gostaria de ver o que as pessoas acham de mim quando eu estivesse morto. Sabe? Para saber se meu melhor amigo iria chorar, se alguma namorada ia lembrar de mim, se meu livro ia vender depois de morto...Porque depois que morre todo escritor vende”, profetizou Rodrigo.
Não tenho dúvidas de que o mundo azul de Rodrigo de Souza Leão nos oferece um caminho infinito. Os poemas do blog Lowcura devem ser reunidos. “Carbono pautado”, “Há flores na pele” e “Todos os cachorros são azuis” merecem edições novas, acompanhadas de textos críticos. E “Tripolar” tem de sair da gaveta logo.
Sua produção literária merece ser republicada, relida e reavaliada.
Ficamos com a lembrança do seu mundo azul. Paz, meu amigo.