Rita no Pomar

Rinaldo de Fernandes

  • Assunto: Romance
  • Formato: 14x21
  • Número de Páginas: 104
  • ISBN: 978-85-7577-513-4
  • Ano: 2008

Como diz Silviano Santiago no posfácio do livro, “Rita no Pomar é um esdrúxulo mónologo-a-dois”, entre a personagem-título e seu cachorro Pet. A vida solitária de Rita serve como matéria-prima tanto para esses desabafos quanto para seu diário e para alguns contos, que se intercalam ao longo do romance. Rinaldo de Fernandes conta a história de Rita aos pedaços; sua narrativa é entremeada por reticências e lacunas, criando novos sentidos a cada leitura.

Rita no Pomar está entre os 10 finalistas ao prêmio São Paulo de Literatura 2009, na categoria Melhor Autor Estreante e é um dos 48 títulos concorrentes ao 6º edição do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura.

 

Sobre o autor

Rinaldo de Fernandes é contista, romancista, antologista e professor universitário. É autor de O perfume de Roberta, (contos, Garamond, 2005) e organizador, entre outras, das coletâneas Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea (Geração Editorial, 2006), Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (Garamond, 2006) e Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte (Geração Editorial, 2008). Rita no Pomar é seu romance de estréia.

 

 

Resenha de Rita no Pomar / Almanaque virtual (17/09/2008)

Por Cláudia Fonseca

Solitária, amargurada, misteriosa. O romance Rita no Pomar, à primeira vista, é apenas o desabafo do que poderia ser uma simples mulher, como tantas outras, com seu cachorro Pet, único a quem ela tem coragem de contar seus segredos mais obscuros. Quem tem a oportunidade de ler esse breve romance pode achar, no início, que só se trata de um texto coloquial divido em capítulos simples, observados a partir das embaralhadas anotações de Rita em seu diário, ou das revelações feitas ao seu companheiro e confidente.

Frases longas dão ao leitor a sensação de confusão, o que, acredito, tenha sido o intuito do autor Rinaldo de Fernandes, ao criar uma personagem que foge da grande São Paulo para viver em algum lugar perdido no litoral paraibano. Durante os momentos em que Rita interage com Pet, o que percebemos é um texto que reflete de forma simples e precisa uma conversa do dia-a-dia. Para criar um ambiente mais próximo e verdadeiro do que acontece no exato momento da leitura, as narrações de suas vivências são intercaladas com observações feitas ao seu cachorro. Tudo, na mesma frase.

Ao embarcar nessa viagem, temos a oportunidade de entrar no universo de uma mulher que, a cada página, revela não só o seu passado, mas a sua ambígua personalidade. Os acontecimentos, contados a Pet fora da ordem cronológica, dão a sensação de ir e vir da estória. Os recortes de sua realidade são desvendados aos poucos, deixando lacunas em alguns acontecimentos. Mas, ainda assim, acabam se encaixando, como se cada trecho de seu relato estivesse esperando sua continuidade mais à frente.

A variação é entre o morno e envolvente, mas a grande sacada está nas últimas linhas do livro. Rita abre seu coração e vai se mostrando ao longo desse enredo. Porém, apenas no final é possível descobrir (quem sabe?) quem realmente é essa surpreendente jornalista, que larga a vida em uma metrópole para viver em um abandonado terreno com pomar, na beira de uma distante praia, trabalhando como atendente de um simples restaurante de estrada.

http://almanaquevirtual.uol.com.br/ler.php?id=15512&tipo=9&cot=1

 

 

 

Resenha de Rita no Pomar / Jornal da Paraíba (22.10.2008)

PARAÍSO "SEVERINO"
Astier Basílio

Rinaldo de Fernandes, em Rita no Pomar (7Letras, 103 págs.), é um desconstrutor. É a resposta da Paraíba, no terreno da ficção, ao que de mais atual vem sendo feito de uma certa vertente da literatura brasileira cujo esteio advém do "boom" do conto nos anos 1970, trazendo à baila temas da urbanidade e da violência, escudados na figura nuclear do escritor Rubem Fonseca.

Ao signo do migrante nordestino que vai ao Sudeste tentar uma vida melhor, Rinaldo inverte, e traz Rita, fazendo o caminho oposto: uma paulistana, jornalista que topa fazer limpeza geral num restaurante em uma praia fictícia da Paraíba - a do Pomar. Não caiam na armadilha que o autor encena. O cenário é contraponto. É na faixa litorânea do Nordeste, evocada como cartão-postal de campanha turística que Rinaldo Fernandes engendra, com riqueza fabular e inventividade, temas como violência e solidão. Para o escritor, todos somos iguais perante o que nos devora, independente de onde moremos.

Rita tem como interlocutor um cão. É com ele que faz o seu teatro, escava a sua solidão. A sua condição de mulher só, quase uma típica "loser", adquire maior crueldade quando o escritor subdivide os níveis de isolamento ao embaralhar a linearidade e cruzar lembranças de São Paulo, com o uso de uma agenda. Aqui abre-se uma brecha para a utilização metalingüística, pois Rita também escreve contos. Rivaliza com a mãe, cega e também escritora.

Porém, com a surpresa que o autor guarda para o final, o livro faz com que liguemos um sinal de alerta. A estrutura está mais próxima de uma novela do que de um romance, mesmo que sejam evocadas aqui desconstruções teóricas pós-modernistas cuja melhor epígrafe seja a expressão de Mário de Andrade ao dizer que conto era tudo o que o autor dissesse que fosse conto. Não, Rita no Pomar não é um romance. Todavia, esse detalhe besta importa pouco e não retira a grandeza da obra.

Jornal da Paraíba, 22/10/2008, coluna "Crítica"

 

 

 

Resenha de Rita no Pomar / A União (28/10/2008)

RITA NO POMAR SEM DIAMANTES
por Amador Ribeiro Neto

O romance Rita no pomar, de Rinaldo de Fernandes (Rio, Ed. 7 Letras) desnorteia o leitor com sua narrativa alternada. O livro é a somatória de textos que se embolam e se embaralham num jogo que até a última linha toma o fôlego do leitor.

Uma paulista faz o percurso inverso dos nordestinos: troca S. Paulo por uma praia paraibana. Não há nada de riponga, natureba ou ‘on the road’ nesta atitude. Apenas uma mulher, que prefere a companhia dos cães a dos homens. E tem razões de sobra pra isto. A angústia acompanha-a independente da geografia.

Assim como o mundo de Rita vive de pernas pro ar, e não se fixa em nada, também a narrativa pós-moderna de Rinaldo é escrita como se à revelia. O conflito de direções da narrativa projeta o leitor num universo pluriforme. Rinaldo transgride o relato da ação uniforme. Leva o leitor à busca do(s) sentido(s). Que é (são) adiado(s) sucessivamente. Todavia, é bom frisar que o texto de Rinaldo não é uma "collage". Se o fosse, mesmo assim já seria interessante. Mas ele vai além. Tira partido dos conflitos de texturas diversas.

Rinaldo ultrapassa a montagem de um ‘puzzle’: seu texto direto, claro, conciso, rigorosamente estruturado, abarca múltiplas possibilidades das convivências interpessoais: comercial, afetiva, marital, amigável, sexual, etc. Um diário e minicontos inserem-se na narrativa primordial revelando, num ludismo cubista, as interfaces das histórias da protagonista. Histórias que nada têm de excepcional. Do aparente supérfluo cotidiano o autor extrai sentido(s).
Claro que a indefinição do "modus vivendi" de Rita incomoda o leitor. E paradoxalmente prende-o na busca de algum significado. O que teria feito Rita trocar S. Paulo pela Paraíba? Que mistérios tem Rita? Ela não tem diamantes, nem céu.

Esta personagem desisntala o leitor porque o texto de sua vida é heterogêneo. E não sinaliza para nada. Ela vaga e divaga como um personagem à la Tom Waits. E o texto do romance comenta, reflete e refrata o da vida de Rita. Fica um jogo de espelhos postos frente a frente, com imagens "ad infinitum". Claro que o leitor se vê projetado neste carrossel imagético. E isto lhe é duplamente familiar: por sentir-se cúmplice do desconforto de Rita. E porque o texto de sua vida é também um emaranhado de SP com PB; de casamento e traição; de sexo e amizade; de sinceridade e latrocínio. Rita veio pra ficar. Seu lugar na cena contemporânea romanesca já está assegurado.

http://auniao.pb.gov.br/v2/index.php?option=com_content&task=view&id=19087&Itemid=55

 

 

  

Resenha de Rita no Pomar / A União (22.11.2008)

RITA NO POMAR
Daniel Sampaio de Azevedo

Lançado este ano pela Editora 7Letras, Rita no Pomar, romance de Rinaldo de Fernandes, transita entre diacronia e sincronia. Não atribuo a estes termos o mesmo sentido que a Semiótica e a Lingüística costumam usar, mas faço uso deles aqui para indicar categorias de unidade de tempo narrativo, a partir do que a estrutura da história confessional da personagem Rita é construída.

Pode parecer, à primeira vista, um estilhaço desordenado de episódios, sobretudo diante das frustrações reticentes e recônditas de Rita, que, solitária em uma praia fictícia do litoral paraibano – a praia do Pomar –, passa as horas vagas ao lado de Pet, seu cachorro de estimação, lembrando do passado, de sua vida em São Paulo e de seus amores perdidos, André e Pedro.

O leitor, então, vai identificando que a narrativa, embora episódica, tem uma marcação de tempo definida, principalmente linear. Além do “monólogo-a-dois” (como bem identificou Silviano Santiago no pósfacio ao livro) entre Rita e seu cachorro, é apresentado um diário, onde o tempo se torna cristalino, pois, cronologicamente, Rita vai pondo no papel tudo o que se passou durante o dia. E é aí que o trânsito entre diacronia e sincronia mais se explicita.

Neste diário, Rita não se restringe a contar os fatos do dia, mas as lembranças que lhe surgiram quando ela conversava com Pet. É como se ela estivesse revivendo o passado mediante seu relato naquele “monólogo-a-dois” e, pondo-os por escrito no diário, conferisse a eles a solidificação de uma experiência revivida, ainda que sob as reticências de seus pensamentos inconfessados.

Tem-se, então, uma sincronia e diacronia entre passado e presente. Ao tempo que a narrativa se desenvolve temporalmente até a confissão de Rita sobre os motivos que a levaram para a praia do Pomar (o primeiro registro do diário é 23 de janeiro, concluindo-se em 26 de abril), ela se desenvolve atemporalmente pela recomposição do passado, cuja lembrança faz Rita, finalmente, confessar os crimes que cometeu.

O trânsito entre diacronia e sincronia, portanto, enquanto elemento estrutural de Rita no Pomar encontra na confissão o seu ponto de convergência. E não poderia ser diferente, dado que a personagem de Rita, como August Brill do romance “Man in the Dark” de Paul Auster, é vítima de um passado que a assola no presente e que ela mesma, como ré confessa, foi a “única” responsável por ele existir.

 

 

Resenha Rita no Pomar / Século Diário (novembro 2008)

COLUNA DO HAROLDO LIMA

"Ah, mas seu te falasse do que se passou... parou de lamber a  pata? Você aí no tapete cerra os olhos para me ouvir melhor.  Ainda te conto, um dia, porque sei que você não fala, você é fiel. É?"

Rita está cansada de esperar e tentar. Um casamento, São Paulo, a mãe cega e um cão que teve que abandonar ou morreu. Pouco se sabe sobre Rita, ela não fala muito de si mesma, ela não faz questão de abrir o jogo quando se faz necessário. Rita é silenciosa, quando fala é miudinho, daquela fala que significa muito, quando não o bastante para envolver até a ponta do fio de cabelo mais ressecado pelas luzes do sol. Rita silencia quando quer gritar, quando se vê como um grãozinho de areia numa praia distante, quase deserta.

Deserta porque os companheiros de Rita nessa praia desprezam qualquer ação que rime com cumplicidade, o sentimento que Rita não tinha em Sampa, o sentimento que Rita só encontrava em Rex, o primeiro cão, tão preso à personagem quanto o primeiro marido, André, que a todo momento se confunde com Rex, que se confunde com Pedro, o segundo marido que na praia também divide atenção com Pet, o segundo cão, que se confunde com Rita nos olhares e nos choros.

Seria esse o perfil de Rita? A personagem que não sabemos se já se encontrou ou está perdida para sempre numa praia da Paraíba, praia que tem uma casa abandonada com um pomar fresco e cuidado. Talvez nem seja Rita a perdida, seja Rinaldo, seu pai, talvez Rinaldo seja Rita, ou Rita seja Rinaldo. Quem vai saber o que se passa na cabeça dos escritores ou dos homens mesmo quando eles nos entregam um livro com indagações assim?

Rinaldo de Fernandes é paraibano, contista, professor universitário, organizador de antologias e agora romancista. Rita é uma jornalista paulista e por incrível que pareça, olha só, gostava de escrever contos e rabiscar em seu diário... diário que seria de Rinaldo? Não sei, mas a sensação que se tem ao ler Rita no pomar, mais um belíssimo título do catálogo da editora 7Letras, é que se está lendo um grande texto literário e uma grande confissão ao mesmo tempo, como se um rascunho ou diário de bordo tivesse sido escrito, pensado para ser um grande romance, por mais curto e compacto que seja.

Compacto nas variáveis narrativas que migram do confessional texto de diário, uma conversa rememorativa com o cão de estimação ou um conto inserido dentro da história, do conjunto romance. O livro de Rinaldo é sólido em sua proposta: semeia leveza na construção sintática de cada passagem e deixa espaços semânticas vagos a cada página da leitura, espaços que vez por outra são preenchidos ao redor do título em conexões estruturadas para que se tenha a sensação de que o leitor percorre círculos, mas nunca se pode dizer que essas lacunas de leitura estão completas, que o círculo se feche num eterno continuísmo geométrico, temos sim várias secantes que nos levarão para outros contextos. O livro está aberto a infinitas possibilidades de continuidade, age como um labirinto, só que desprovido de armadilhas ruins, rodeado de portas que se são abertas conduzirão a um caminho próprio para cada leitor, não a uma porta restritiva, manipuladora de sentidos e construções imagéticas. O texto está no sentido literal dessa afirmação, vivo, vivíssimo, pode-se dizer.

Rita é daqueles livros de se descobrir muitas vezes. Está recheado de lascívia, brinca de seduzir a gente a cada leitura com novas perspectivas, como as que nos confundem a cada momento na alternância dos modus textuais dentro da obra, como na confusão que a personagem nos coloca em relação a seu distanciamento de São Paulo, ora amargurado por conta de um passado marcado por cicatrizes fundas, ora indiferente e bem determinista com o rumo que as coisas tomaram. O certo é que Rita não nasceu para ser traída/o, numa estante ou no litoral que for... É arma de fogo para quem se meter a escrever, se quer mesmo passar pelos novos talentos, e para todos os outros que cruzarem seu caminho, num pomar ou numa livraria por aí. Guarde a dica: não deixe de ler, okey?

 

 

 

 

 

Resenha de Rita no Pomar / Jornal O Norte (26.10.2008)

RITA NO POMAR: UM ROMANCE  PARA OS NOSSOS TEMPOS
Eduardo Sabino

O atual estágio da sociedade ainda carece de conceituação. Sabe-se que é um período em que as mudanças ocorrem muito rápido. A informação, que antes precisava atravessar mares, em pergaminhos, hoje circula em códigos binários, teletransportando-se em lapsos de segundo, de um pólo a outro do globo. O sistema de produção lança no mercado novos produtos, serviços e profissionais que logo precisam ser renovados. A novidade de hoje é o lixo de amanhã.
Diz o filósofo polonês Zygmunt Bauman: “O consumismo é a economia do logro, do excesso e do lixo; logro, excesso e lixo não sinalizam seu mau funcionamento, mas constituem uma garantia de saúde”.

Na era do consumo, chamada por alguns pensadores de modernidade líquida, ninguém quer ser visto com o lixo. Seja um celular, uma camisa ou um “bem cultural”. Existe sempre o produto do momento, fadado a se tornar o lixo de ontem. A velocidade das mudanças traz a insegurança, e ninguém quer ficar parado em areia movediça. Daí o motivo pelo qual a busca pela identidade é muito mais complexa na modernidade líquida. As instituições, seja o Estado, a Escola, a Igreja, não conseguem gerar a sensação de plenitude nas pessoas. A massa se tornou grupos de consumo, indivíduos com o suposto poder de decisão, que trocam constantemente os objetos de escolha.

A Arte, especialmente a arte verbal, parece atravessar um beco sem saída. Afinal, os bens culturais converteram-se em bens de consumo e como qualquer outro produto, são colocados na prateleira com a pretensão de satisfazer a necessidade do cliente.

Montanhas de Best-sellers, livros vendidos pela facilidade de serem vendidos, lideram o ranking. O assunto do momento é a melhor mercadoria: Cabul, eleições, reality shows, prostituição. Mas a sentença da modernidade líquida é “o sucesso temporário”. O êxito que amanhã ou depois cairá no esquecimento. Quem ficará nessa roda interminável de reciclagem?

Fica a verdadeira obra de arte, ainda que restrita. O texto que não consola, desafia. Não responde, sugere. Não tem o intuito de completar as identidades dos leitores, mas fragmentá-las ainda mais, embaralhando as peças para a montagem livre dos quebra-cabeças da vida.

É compreensível que navegando em barca tão insegura, os “leitores consumidores” encontrem na auto-ajuda e em outros textos prontos a ilusão de suporte. Mas eis o desafio do escritor contemporâneo: o convite à dúvida. O incentivo à coragem de trocar fórmulas prontas por problemas sem resposta, a entrelaçar os fios narrativos e partilhar as angústias dos personagens, transitar no espaço em branco, onde há liberdade para desconstruir e expandir. Ou seja, o retrato realista do que o mundo pede a cada indivíduo que se aglomera nas filas das lojas.

O recente romance de Rinaldo de Fernandes, Rita no Pomar, é um bom exemplo de arte líquido-moderna. Sustenta-se de pé, em meio ao fluxo interminável de produtos descartáveis.

Rita, a protagonista do romance, troca o caos urbano pela calmaria da fictícia praia do Pomar. Lá ela se estabelece como garçonete em um restaurante. Na maior parte do seu tempo, ela confidencia as lembranças marcantes de sua trajetória ao cachorro Pet, a sua única companhia.

No decorrer do texto, o leitor vai percebendo que a tranqüilidade da praia se contrasta com o espírito turbulento de Rita. As confidências, ora nostálgicas, ora repletas de erotismo, vão caminhando para revelações caóticas. Entremeados ao relato, há um diário e contos intensos escritos pela personagem, ferramentas que o leitor tem em mãos para descortinar os traços da personalidade de Rita e os mistérios de sua vida.

Tudo na obra pode ser visto como elemento de sugestão. As particularidades dos momentos de ira com o cachorro, as metáforas dos contos, os detalhes da praia, as lacunas entre as lembranças.

Os recortes de Rita no Pomar, organizados de forma não linear, são uma captação do mundo contemporâneo. A sensação de perda, a necessidade de refúgio, a conseqüência das escolhas e a necessidade de distinguir, entre tantas coisas voláteis, o que fica e o que evapora.

No caso de Rita, há uma necessidade de evaporar as reminiscências no desabafo com o cão. Ao mesmo tempo, ela sabe que o cachorro é um artifício para que ela fale para si mesma e analise os seus passos. Além disso, o sujeito da modernidade líquida é tão vinculado à comunicação social, que o cão também pode ser visto como um elemento que impede o surto da personagem. A mesma loucura que pode acometer qualquer homem que se isole de seus semelhantes, como o personagem de Tom Hanks, no filme “O náufrago”. Após um acidente aéreo, vendo-se isolado em uma ilha, ele despejava o seu fluxo de consciência em monólogos com uma bola de vôlei, a quem chamava de Wilson.

O romance representa a busca do indivíduo de nossos tempos. A personagem de Rinaldo de Fernandes está a todo momento em busca de sua identidade, ou o que restou dela. A tentativa de comunicação de Rita é também a busca de um rosto para uma alma fragmentada tal qual o mundo a sua volta. Novamente Bauman traz as palavras certas para ilustrar a luta de Rita. “Em nossa época líquido-moderna, o mundo a nossa volta está repartido em fragmentos mal coordenados, enquanto as nossas existências individuais são fatiadas numa sucessão de episódios fragilmente conectados (...) A identidade é, de fato, algo a ser inventado, e não descoberto; como alvo de um esforço, um objetivo, como uma coisa que ainda precisa se construir a partir do zero”. Rita viu na praia do Pomar o local ideal para reinventar o seu universo, desconstruir-se e se transformar.

Em sentido mais amplo, o romance é um retrato da condição humana. No exercício de dar uma cara para a personagem e seus atos, o leitor descobre mais de si mesmo e de sua jornada.

Esta é uma das funções da obra de arte hoje: abrir uma janela para o leitor recriar, ampliando o olhar para alternativas intangíveis, abertas, mas não tão acessíveis quanto as mercadorias das vitrines. Por isso, Rita no Pomar é um texto ao mesmo tempo incompleto e inacabável, obra de arte fiel a nossos tempos.
Fica o convite para a leitura. Qualquer palavra a mais sobre a riqueza da obra afetaria a beleza de seus mistérios. Enfim, deixo para os admiradores da literatura dos tempos líquido-modernos, as palavras de Rita para o seu cachorro: “Você ainda vai ouvir muitas e boas... não assopre!”

Resenha de Rita no Pomar / Suplemento Literário Correio das Artes (outubro 2008)

RITA E SUAS HISTÓRIAS
Sônia van Dijck Lima*

Depois de exercitar-se no conto, com sucesso de crítica e premiação nacional, Rinaldo de Fernandes faz sua estréia no romance, com Rita no Pomar (Rio de Janeiro: 7Letras, 2008).

Leitor de sua própria obra, Rinaldo dá continuidade a sua experiência de dar voz feminina à narrativa, de modo a trazer para o primeiro plano as angústias e as dificuldades da condição da mulher, que, em uma sociedade marcada pelo masculino, busca afirmação e realização não só profissional e financeiramente, mas sobretudo afetiva e emocionalmente. Sem travar polêmica explícita com a crítica feminista, que privilegia a voz autoral feminina, Rinaldo consegue traçar o labirinto percorrido pela mulher em demanda da felicidade, conferindo-lhe o comando da diegese. Aliás, considerando a atitude da crítica de militância feminista, Sônia Lúcia Ramalho de Farias já salientou que

os contos de Rinaldo desdobram-se em duas instâncias distintas. A instância autoral masculina, não dramatizada na diegese, e a instância enunciativa, conduzida por uma narradora-protagonista em primeira pessoa...1

A personagem feminina de Rinaldo, nessa ou naquela curva da vida, vê-se em disputa e não hesita em recorrer à violência, tão conhecida no mundo dos machos. A essa mulher resta o prêmio da solidão.

Mas o exercício de Rinaldo não se esgota nessas poucas considerações.

Leitor de sua própria obra, retoma e desenvolve, em Rita no pomar, a personagem do conto “Rita e o cachorro”2, conferindo-lhe novas vivências, que fazem do romance uma história de traições, de perdas, de solidão, sob o signo da morte, da violência, quer do choque da revelação, quer da solução escolhida, que ainda não chegou ao fim.

Segundo lição de Northrop Frye3,

O elemento essencial da trama, na estória romanesca, é a aventura, o que significa que a estória romanesca é naturalmente uma forma consecutiva e progressiva; por isso a conhecemos melhor na ficção do que no drama. Em seu ponto mais ingênuo é uma forma sem fim, na qual um protagonista que nunca se desenvolve ou envelhece passa de uma aventura a outra, até que o próprio autor desanima. (p. 185)

Rinaldo é um autor de histórias urbanas, que pinçam, na multidão, indivíduos anônimos, mas tão anônimos que nem sequer são procurados pela polícia. Não há nada de heróico ou de sublime ou de retumbante ou de exemplar na origem de suas personagens, até que seu olhar de autor as destaque e as exponha ao leitor; no caso de Rita (do conto e do romance), até que ele lhe passe a palavra narrativa. Sendo criador de personagens urbanas, Rinaldo ambienta seu Rita no pomar em uma praia nordestina fictícia, mas evita o pitoresco, o exótico, concentrando-se no drama existencial da personagem, a paisagem apenas servindo como moldura.

Faço um parêntese para salientar que o autor deixa sua marca na escolha da epígrafe, instaurando a presença do autor implícito4, responsável pelo agenciamento da narrativa.

Rita no Pomar tem, no pórtico, a lembrança do cão pulguento de “Sarapalha” (Guimarães Rosa). Testemunha inquieta, muda em relação aos fatos, caracterizado pela infestação de carrapatos, o cão acompanha o grotesco da história de Primo Argemiro e Primo Ribeiro, marcada pelo amor proibido, pela traição presumida, pela dor da perda, pela solidão absoluta e pela violência radical e ineficaz da solução. Quando Rinaldo abre seu romance citando

O cachorro está desatinado. Pára. Vai, volta, olha, desolha... Não entende. Mas sabe que está acontecendo alguma coisa. (Guimarães Rosa)

está, através do paratexto, mais do que anunciando o papel ou o destino do cachorro Pet – o de Rita também. A epígrafe assegura que há coisas acontecidas que ficarão em silêncio. Ou que apenas ao leitor é dado saber. A seu primeiro cão, Rex, Rita não contava nada. Mas a Pet, ela conta. Pet, às vezes inquieto, às vezes de olhos fechados, escuta – Rita julga que ele escuta.

Longo monólogo travestido de diálogo... O autor implícito aproxima a fala de Rita de dois outros “diálogos”. Aquele do onceiro que se transforma em sua caça e aquele do jagunço que quer saber se fez ou não pacto com o demônio; a ambos, Guimarães Rosa concedeu a voz narrativa, mantendo em silêncio seus “interlocutores”.

No romance de Rinaldo, Rita não caça; acolhe, abriga seu “interlocutor”; ela não pergunta acerca de qualquer pacto, pois já sabe o que viveu e o que fez. Não há desespero de arrependimento em Rita; há conhecimento de fatos, de seus atos; há determinação e muita solidão. E é a solidão que aproxima Rita de seus cães; ela não vai se transformar em cão/cadela, pois já tem os traços de seus companheiros: abandono, fragilidade, medo, fome de afeto, um passado de dificuldades, e a vastidão do amanhã incerto e vazio de esperança, tão bem sugerido pelo mar aberto que Rita descortina. Rita encontra-se em Rex e em Pet e, por isso, os acolhe: ela conhece bem a solidão, que pode ser sublinhada pelo silêncio; então, Rita escreve na agenda.

Impotente, tal qual Pet, o leitor lê/“escuta” a história de Rita e nada pode fazer. Rita vai continuar sua busca de afirmação e de felicidade, tudo faz crer, em outro sítio, em outras angústias, traições e violências.

Rinaldo construiu Rita no pomar como um tabuleiro em que se joga com o tempo, com idas e vindas. Assim, o passado e o presente da narrativa parecem confundir-se, na catarse da personagem. A história começa com um passado recente em relação ao presente da narrativa, que só será reconhecido e revelado no capítulo 34 (final do livro), quando o leitor fica sabendo que a traição foi resolvida com a morte.

Rita, jornalista, dada a escrever poemas e breves narrativas em uma agenda, teve sua primeira disputa com a mãe (que Rinaldo fez cega, para não ver o grotesco da situação e nem o perigo do risco e não conhecer culpa). Uma competente abordagem psicológica bem pode explicar o complexo de Electra de Rita, pois, quando a mãe admite o genro como macho, ela o conduz à condição de “pai” a ser disputado pela filha.

Rita, fugitiva de um crime do qual só ela sabia ser autora, encontra-se em uma praia paradisíaca na Paraíba. Nova disputa com uma mãe simbólica e Rita encontra seu homem com um amigo.

De uma demanda a outra, a solução de Rita, para não ser derrotada, é a morte da “mãe” e do “pai” – só através da morte, Rita pode continuar a viver.

Prazer e morte misturam-se na vida de Rita. É emblemático o episódio de sexo no cemitério, com o namorado de Londres: o papel sujo de esperma encontra pouso na cruz de um túmulo.

Prazer, traição que leva à morte. História típica de nossos dias? Ou a história de sempre, que se repete com novas personagens? Rita, ferida em seus sonhos de mulher amada, conversando com Pet, vai partir para outra praia, em busca do paraíso. O leitor, envolvido pela fala nervosa e entrecortada por reclamações dirigidas ao cão, desconfia que Rita ainda poderá amar um sujeito que não a engane. Ela não sabe. Talvez isso seja apenas o que as leitoras querem que aconteça.

E o destino de Pet? O silêncio. Pet sabe demais.

E o que pode fazer o leitor? Ficar em silêncio. O leitor não sai impune: paga o preço da cumplicidade ao saber de tudo.

REFERÊNCIAS

1. FARIAS, Sônia Lúcia Ramalho de. http://www.soniavandijck.com/sonia_ramalho.htm - visita em set. 2008.

2. In: FERNANDES, Rinaldo de. O perfume de Roberta. Rio de Janeiro: Garamond, 2005, pp.99-105.

3. FRYE, Northrop. Anatomia da crítica. Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Cultrix, 1973.

4. DUCROT, Oswald e TODOROV, Tzvetan. Dicionário das ciências da linguagem. Ed. portuguesa orientada por Eduardo Prado Coelho. Lisboa: Dom Quixote, 1974, p. 386.

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* Sônia van Dijck Lima é Doutora em Letras pela USP. Professora de Literatura Brasileira na UFPB. Crítica literária, pesquisadora de arquivos literários (história da literatura e crítica genética), tem trabalhos publicados no Brasil e no exterior.

 

 

Resenha de Rita no Pomar / Caderno de Cultura, A União (03.12.2008)

NA CONTA DA DOR DO MUNDO
A feroz paisagem interiorizada de Rita no Pomar

Luiz Antonio Mousinho*

Rita no pomar, de Rinaldo de Fernandes (2008), é uma narrativa de fuga. A fuga no romance além de literal (como saberemos ao final), é fuga interior, fortemente construída na sondagem do mundo íntimo e da memória da personagem, pelos monólogos interiores, pelo fluxo de consciência, pelo artifício esperto do monólogo em voz alta com o cachorro Pet. Acompanhamos os fatos narrados pela repercussão deles na percepção da personagem. A paulista Rita muda para um recanto do litoral da Paraíba, um lugar imaginário chamado Pomar, próximo à geografia física e humana de seu entorno referencial ficcionalmente reconstruído, o espaço das praias do município do Conde.

Atraída pelo nome perdido no mapa – Pomar – vindo pela tangente da rota nacional e internacional de turismo, Rita vem à Paraíba respirar. A cidade de São Paulo e a geografia paulistana invadem o espaço narrativo presentificados na memória que dispara em pausas narrativas onde o vento, as pessoas, os lugares, o mar tomam a frente da cena na relação de Rita com tais elementos, intercalando-se também com a ação narrativa propriamente dita, na relação com os personagens nesse novo espaço que ela instaura para sua vida.

De São Paulo emerge a lembrança recorrente da mãe cega e da empregada antiga que a acompanha, do ex-marido escroque e dos sogros cujos olhares sufocadores dão a medida do fracasso de Rita, na encarniçada luta pelas sub-ocupações profissionais, das derrotas diárias na vida material e na precariedade do casamento. A vida instável e sem garantias que os sogros medem e cobram, fatos sumarizados na sensação que resta em Rita.

Em Pomar, Rita é vista em intensa relação com a natureza e se comprazendo nas atividades humildes de servir de bom grado num restaurante, sem o sentido de fracasso. O litoral da Paraíba não é traçado como idílico, puro, nem representa a possibilidade de um fugere urbem redentor. A especulação imobiliária (internacional) se insinua, os pivetes vêm no rastro na praia vizinha, mas Rita parece equacionar isso intimamente. O resort português anunciado para o local é uma possibilidade de emprego serviçal ante à brisa da Paraíba e isso resolve o seu dia. O que não quer dizer que interrompa sua batalha íntima, posta na conversa com o cachorro Pet, dócil, no que escreve no seu diário, nos seus minicontos, no que ela pensa e vem narrativamente estruturado.

Se o trabalho em São Paulo é uma humilhação, na resolução íntima de Rita, na Paraíba não o é. Mas a capital paulista está também ali, instalada na prosódia paulistana que assoma e assinala o tempo todo o fato de ela estar em face de um outro – intuído, desejado talvez como possibilidade de libertação. Rita vem num estado de língua que aponta o seu exílio, revelado no céu-inferno interior de todo dia, numa inquietação íntima com um sotaque que lhe dá a feição e não soa nunca caricato, trazendo-a ainda mais para perto do leitor.

Em Rita, no centro de sua memória buscada, de sua memória aflorada, estão seus homens; seu marido André, de São Paulo, e o segundo, Pedro, conhecido no Pomar. Em São Paulo, vê-se a repisada cobrança por um bom emprego e a lembrança das patifarias de André; na praia da Paraíba, a descoberta vital de Pedro e também do vento primordial – “o vento chama, é, ali nos coqueiros”.

No lamber a pata, no levantar as orelhas, no recorrente assoprar, o cachorro Pet é terno e submisso e é feito na medida de Rita. A imagem dos ex-maridos vem à tona pela memória dela, submetidos pelo seu olhar, sem contraponto possível. Só há variação de ponto de vista nos minicontos incrustados no texto. Em quase toda a narrativa, Rita controla o narrado. Mas não controla a própria memória, que com freqüência vacila, entre velar e revelar, entre frustração e prazer, entre amor e ódio, separados ou indissociáveis.

À degradação de São Paulo (metrôs lotados, sujeira nas ruas, ar sufocante) Rita vai contrapor um mundo em intensa ligação com o entorno, onde a natureza em alguns momentos é antropomorfizada, o mar ruge; noutros momentos, parece ser ela mesma, no prazer táctil de Rita com os elementos naturais e na convivência com as pessoas. Vento, mar, água barrenta, Piracicaba, Paraíba, Pedro, sertão, arrecifes, mar.

Se Pedro principia no livro sendo “um peste”, esquecemos disso quando ele retorna integrado à vida no Pomar e o personagem se desenha como uma das senhas para essa nova vida. Tornando novamente a ser um peste, nessa narrativa de tempos e espaços entrecruzados, na caracterização da protagonista cindida, fragmentada. Barra-Funda, Conde, Carapibus, Cabo Branco.

Apartada da solidão desnaturada do mundo social desencantado, Rita parece buscar em sua errância uma outra inscrição. Mas o que não tem governo, censura, juízo – nunca terá e o desejo de Rita dispara na memória. Não há mundo possível a ser deixado, Pet assopra e a toda hora esses assopros trazem a ela os seus dois homens, São Paulo. Cada um fora feliz alguma vez e ficara com a marca do desejo. O íntimo desejo feroz de Rita, sua mãe, os homens de sua vida vivíssimos em sua memória, os raios que os partam de sua sogra e seu sogro perseguindo-a, tudo vem junto como alma penada e como forte atração. O cachorro presente, servindo como escape para tudo, em sua submissão ideal.

Rita no título está no Pomar, numa capa de livro que traz a beleza plástica e natural, um descanso à vista. No texto a presença da natureza nem idílica, nem virgem, nem exótica, nem ingênua, é o espaço de restauração, a possibilidade de reinício, a construída possibilidade de viver sem a potencialização da frustração, de nossa eventual mediocridade. O ato de transgressão à Lei não é o assunto do livro, em que é sondada a repercussão dos fatos na personagem, a presentificação da memória. Mas há um desconforto também na fatura ficcional, que só abranda com a paisagem interior acalentada pelo vento nos coqueiros – mas fica ainda assim uma solidão infinita.

Rita no Pomar nos dá a proximidade de uma alteridade retorcida, reveladora do feminino e também do mal-assombrado dia diário da convivência social (e conjugal), em suas cobranças e impasses. E nos põe diante do terrífico da transgressão. O livro desloca e desconforta o leitor, que vira o rosto ao final, o horror diante dos crimes que (ainda bem) não cometeu. E pela intimidade construída com essa misteriosa mulher, erguida na relação com o mundo e com as coisas – a lua, os morros, as matas, o mar o mar o mar. Recantos, lugares, na memória que mistura vertiginosamente todo tempo e todo espaço. Na partilha da dor do mundo, o leitor adere e depois se repugna diante do gesto imperdoável e da fala ameaçadora de Rita.

Ancorando-se no olhar lançado ao seu redor, a narrativa não legisla, não julga, nem tampouco se compraz com o ato violento; o observa desde dentro. Lance sintomático de certa distopia nacional, presente em narrativas literárias e fílmicas como Estômago, O matador, O homem do ano, O invasor, Cidade de Deus. A narrativa é distópica, disfórica; se Rita é um fragmento sem redenção, sem travessia a ser ressignificada, que a justifique, na dor do mundo, o sonho de Rita de fundar para sua vida um mundo novo, de se encantar por um nome de um lugar perdido no mapa, traz um vento assim: no Nordeste faz calor, mas lá tem brisa – vamos viver de brisa.

Da íntima cena tensa que domina várias porções da narrativa há a interação com a paisagem humana, na convivência quase terna de Rita com os colegas de restaurante. Da generosa carona desinteressada numa Kombi, ela vê e a narrativa nos mostra a generosidade de amigos para com amigos, generosidade esta que se desenha numa doce esculhambação tropical, talhada aos gritos: “O motorista, um moreno brincalhão (parava em portas de oficinas para acenar e, aos gritos, provocar amigos)[...]”. A narrativa extrai nesses momentos a graça da vida diária, vista também em sua leveza e calor.

Se o romance ao final não define a punição de Rita – para purgar os nossos crimes e porque ela merece – não tira do leitor a chance de criar para si um outro tempo e lugar. E de dar a chance de, no plano individual e coletivo, recomeçar, recomeçar, recomeçar; recriar um outro mundo, transformar o caos em cosmos, mesmo que para Rita não dê mais pé. Se a vida, fragmentada, fere como a sensação do brilho, algum dia de repente a gente brilhará. Como permite e sugere a narrativa vigorosa de Rita no Pomar.

* Luiz Antonio Mousinho, Doutor em Letras pela Unicamp, é ensaísta e professor da UFPB. O texto acima, em versão mais ampliada, foi apresentado no Seminário de Pesquisa: Imagens do Brasil na Literatura, ocorrido em 25/11/2008 na Universidade Federal de Pernambuco e organizado pela professora/doutora Sonia Lúcia Ramalho de Farias.

 

 

 

 

Resenha de Rita no Pomar / Rascunho (dezembro 2008)

DANÇA DA SOLIDÃO
por Andrea Ribeiro

Tristeza é uma coisa que pega. E demora a largar. Dependendo do tipo da tristeza e da personalidade de quem está com ela, o casamento é eterno. Daqueles em que um não larga do outro por dependência e costume. Há quem fique triste, simplesmente. E há quem se alimente de tristeza para viver. Quem seja feliz na tristeza. E uma coisa que combina com tristeza, além de uma propensão para atrair tragédias, é solidão. Daquelas ferozes.
Rita é triste e só. O casamento com a tristeza foi o único que deu certo. Os outros dois foram um fracasso. Não que ela tenha sentido ter culpa pelos fracassos. Mas pela tal propensão de atrair tragédias. A nuvem negra que paira sobre sua cabeça atinge a todos que a cercam, de uma forma ou de outra. Mesmo quando ela abandona o caos de São Paulo para morar na Paraíba, na praia. Está tudo ali, em Rita no pomar, de Rinaldo de Fernandes. Quem tem a tristeza como fonte de vida não se livra dela em lugar nenhum. Não adianta mudar de casa. A tristeza habita no único lugar em que não há reformas, demolições ou mudanças geográficas que dêem conta: na alma.

A alma de Rita é triste e solitária. O que há por trás da tristeza e da solidão da moça? Ora, não precisa ser psicólogo para saber que algo não está saudável. Parte da explicação para essa tristeza toda está lá no livro, e é claro que eu não vou ser daquelas que espalham spoilers por aí. Leia. Só não leia o posfácio antes, certo? Posfácio é para depois. Não diga que eu não avisei.

O livro é para ser lido de um fôlego só. É rápido, mas não é superficial. É simples, mas complexo. O leitor vai mergulhar na mente tristíssima e solitária de Rita. No Pomar, a praia que ela escolheu para fugir — de quê? —, ou em São Paulo. O pensamento da protagonista é embaralhado. Várias coisas passam pela cabeça dela ao mesmo tempo. E tudo fica ali, registrado. Fernandes usa duas formas de narrativa para que o leitor entenda Rita. Em uma, ele descreve os pensamentos da moça, da forma como eles vêem, embaralhados, confusos, divagantes, enquanto ela conversa com Pet, o cachorro confidente.

"Fiquei atenta, imaginando um posto para mim, atendente, arrumadeira, eu topava qualquer coisa. Eu já tinha tomado a decisão — viajei durante dois dias, o ônibus duro — de dar um tempo de São Paulo. Passar uns meses numa praia, dava, eu tinha um resto de dinheiro, o Rex tinha morrido, ai, que tranco, e eu sempre... Pronto, Pet, você agora encontrou a melhor maneira de me ouvir, de olhos fechados! Ora, onde já se viu isso? Eu falando e você de olhos fechados!"

Em outra, registra contos e diários de Rita.

"8 de fevereiro
A primeira vez que visitei a Casa do Pomar... A noite estava fresca, o céu estrelado. Eu com uma lanterna. Andei pela vereda, muito mato nas margens, me aproximei. Perto do portão, um móvel arruinado ao pé de uma árvore. Estava decidida a entrar ali, não tenho medo de fantasmas, avisei ao Rômulo. Passei pelo portão, a madeira escura, entrei devagar, eu queria saber como era aquilo."

As lacunas são constantes no texto. Em ambas as formas narrativas. Não há, portanto, nada “fechado” neste livro. Tudo pode ser. Ou nada. Não há conclusões. Não fosse pela tristeza, não haveria sentimentos definitivos — nem pelos maridos, nem pela mãe, nem pelos cachorros. Dá para sentir que Rita carrega um grande peso nos ombros. A nuvem negra não a abandona. Pelo contrário: vai acompanhá-la para sempre. Provavelmente vai aumentar, até virar um buraco negro que sugará toda a tristeza a sua volta. E a sugará também.

 

 

 

Resenha Rita no Pomar / Cronopios (29.01.09) e Jornal O Norte (07/01/2009)

“RITA NO POMAR”, UM BELO LIVRO
Raimundo Carrero*

Rita no Pomar (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008), de Rinaldo de Fernandes, é, com certeza, uma das grandes alegrias recentes da literatura brasileira. Livro sedutor, é conduzido com grande habilidade pela narradora – e, é claro, pelo autor –, num clima de história simples, possuído de uma leveza que nem sempre se encontra em obras deste porte. E, mesmo assim, sofisticado. Sofisticadíssimo. Realiza aquilo que chamo sempre de simplicidade com sofisticação: ou seja, o narrador conta como se estivesse num fim de tarde tranqüilo, entre amigos, enquanto o autor recorre a estratégias renovadoras e reveladores, a desafiar críticos e estudiosos.

A técnica do fluxo da consciência, por exemplo, exige uma atenção especial e um cuidado redobrado. Até porque é, quase sempre, confundido com o monólogo interior – coisas inteiramente diferentes. O fluxo foi a última grande criação de Joyce, e diferente, plenamente, do monólogo em Ulisses, por exemplo. Rinaldo de Fernandes sabe disso e criou o texto através da ambigüidade André e Pedro, que são a própria ambigüidade de Rita, tão complexa em seu labirinto interior, repleto de silêncios, lapsos, onomatopéias, aliterações, cortes e vazios. O monólogo interior é o primeiro momento em que o autor solta o personagem e o deixa livre para narrar, daí o espírito de liberdade, que promove o movimento fragmentário do texto.

O fluxo da consciência, sobretudo em Rita no Pomar, vai ainda mais adiante com o cruzamento entre diários, contos, reflexões. Isso é importante: não é apenas fragmentar a narrativa, o que vem sendo feito por muita gente, mas estabelecer um clima daquilo que se chama barulho interior, sobretudo com rimas, aliterações e onomatopéias. Não basta apenas fragmentar, isso é próprio do monólogo. É preciso ir adiante, muito adiante, estabelecer esse conflito narrativo que empresta uma musicalidade à narrativa, produzida pelo espírito inquieto da personagem.

Além disso, toda a história realiza-se em poucas páginas, algo para ser lido na paixão de uma manhã ensolarada, talvez um pouco de tarde. Esta é a alegria do grande narrador. Daqueles que compreendem a necessidade do denso e do forte, feito quem lê, por exemplo, Morte em Veneza, de Mann, ou Sylvia, de Gerard de Nerval. Densidade posta nos nervos e leitura com a respiração presa na garganta.
Belo livro. Sem dúvida: belo livro.

* Raimundo Carrero é escritor pernambucano. Já obteve o Prêmio Jabuti e é autor, entre outros, do romance O amor não tem bons sentimentos (São Paulo: Iluminuras, 2007).

 

 

Resenha Rita no Pomar / Folha de S. Paulo, Ilustrada (21.02.2009)

Peripécia em obra fragmentar não surpreende
Alcir Pécora

"Rita no Pomar" é apresentado como o romance de estreia de Rinaldo de Fernandes. Admita-se a vocação complacente do gênero, já que o texto, despido de sua notável expansão diagramática (alguns capítulos têm só uma ou duas frases não especialmente marcantes), poderia ser melhor descrito como novela. O ajuste não traria implicações negativas a sua qualidade, mas, por algum motivo, romance parece ser gênero com maiores credenciais no mercado editorial.
O livro tem estrutura híbrida e fragmentar. São intercalados ao relato principal 12 breves textos escritos pela narradora-protagonista Rita, alguns com título e dia de conclusão, outros encabeçados por datas, como anotações de agenda.

A medula da narração, no entanto, são 22 trechos curtos de discurso monologado, em que Rita encena uma insistente conversa com seu cão, Pet.
O monólogo está repleto de interjeições, perguntas, onomatopeias, anacolutos, reticências e outras figuras de hesitação e interpelação que deveriam produzir o verossímil de um papo com o cão ("Um cachorro querendo saber de política, putz!... Vai, late... Late os corruptos [sic], late!... Lambe a pata? Larga a pata... [...] E se os cachorros latissem mesmo toda vez que vissem um corrupto, hum? Au, au, auuuuuuu...").

Pelo andamento da conversa, ficamos sabendo que a moça é paulistana da Barra Funda, ex-estudante de jornalismo, revisora (nada confiável, pois já erra uma regência logo na primeira frase), leitora da Ilustrada e de outros suplementos culturais. Também aprendemos que deixou a cidade para viver numa fictícia praia de nome Pomar, na Paraíba.

A razão pela qual trocou São Paulo pelo Nordeste nada tem a ver com uma deliberada inversão do fio narrativo canônico da "diáspora nordestina", como afirma Silviano Santiago no inventivo posfácio. No enredo, a mudança não segue o fluxo de um capital globalizado interessado em investir no exótico nacional, mas simplesmente busca um paradeiro o mais longínquo possível para uma fuga: um plot bastante canônico, é verdade, mas sem nenhuma implicação econômica relevante.

Mais não se pode revelar dessa razão, pois fazê-lo seria liquidar o livro. Primeiro, porque Rita só vai confessá-la ao fim, após o olvidável tatibitate com o pobre Pet, obrigado a ouvir a dona imitar seus latidos e ralhar com seus "assopros". Depois, porque o livro todo é construído para obter exatamente um efeito de inversão ao final.

Trata-se, em suma, de empurrar a narrativa, em si mesma tergiversada e derivativa, para uma peripécia que faz de quem parecia vítima criminoso. Nenhuma novidade, a não ser a surpreendente ideia de que se possa obter peripécia sem a existência de uma narrativa consistente que crie no leitor expectativas de um desfecho.

Alcir Pécora é professor de teoria literária na Unicamp.

Resenha de Rita no Pomar / Jornal O Norte (10.03.2009)

DA PÉCORA VISÃO
por Vinícius Rodrigues (Prof. de Língua e Literatura)

No rastro do pensamento de Alcir Pécora, crítico que escreveu, no sábado (26/02), no jornal Folha de S. Paulo, sobre a obra recém-lançada de Rinaldo de Fernandes (Rita no Pomar, Ed. 7 letras), creio que é necessário discutir um pouco mais sobre algumas considerações do articulista.
A primeira delas, talvez a mais polêmica, versa sobre o entendimento da ficção de Rinaldo antes como Novela que Romance. E é bem verdade, como lança o crítico, que alguns aspectos tendem a nos fazer pensar na narrativa mais para o campo do primeiro que do segundo gênero da prosa de ficção. Seu número mínimo de personagens, seu desfecho surpreendente, o ritmo da sucessão dos fatos em busca do final, descartando o formato mais epilogal do romance, e mesmo a brevidade da narrativa nos tentam a defini-la como sendo de um e não de outro gênero. Por outro lado, esse exercício classificatório tão pragmático parece não caber à produção e à crítica do nosso tempo.

Um outro calo sentido por Alcir Pécora, e o qual ele combate, diz respeito à sugestão de “diáspora invertida” por Silviano Santiago, no posfácio do livro. Pécora possivelmente desconhece a forte especulação imobiliária no mesmo litoral paraibano de Rita que, longe da ficção, constitui-se de personagens reais, explorando o exotismo sugerido pelo articulista com seus edifícios, hotéis e pousadas, muitos deles dirigidos por retirantes-empresários do sul maravilha. Cada um com seu flagelo a expulsá-los do lugar de origem: do nordestino, a seca, e do sulista, a violência.

Nem mesmo um “erro de regência” irrelevante do ficcionista escapa ao crítico (“Só venha para o prato quando eu lhe chamar, Pet”) e que Pécora entende como incoerência de um narrador personagem, Rita, que se apresenta como revisora de textos jornalísticos. É pena o articulista não considerar os apelos necessários da linguagem coloquial próprios do contexto em que se insere o diálogo-monólgo de Rita com seu cachorro.

Rita no Pomar não é um exemplo de invenção literária de dar cabo a estilos que a antecedem. Mas, com certeza, demonstra a contundente inclusão de Rinaldo de Fernandes na lista dos competentes ficcionistas de nosso tempo, a lembrar Fernando Bonassi, Marçal Aquino, todos consagradores de uma narrativa que tem em Rubem Fonseca a fonte primeira. E nem vou aqui revelar o final da narrativa, embora ela não seja o que de mais importante se revela na obra. Aliás, o leitor pode até suspeitar de tal peripécia antes mesmo do desfecho. Mas, aí já terá garantido um prazeroso passeio pelo labirinto temporal e mental a que o narrador nos lança.

A obra de Rinaldo de Fernandes é um salto do autor de sua própria escritura. De O caçador, seu primeiro livro de contos, até esta sua nova empreitada, não importando se novela ou romance, percebe-se um autor que parece perseguir, sem distender-se, o que de mais moderno se tem produzido na ficção contemporânea.

 

 

 

Resenha de Rita no Pomar / O Estado de Minas (28.03.2009)

O EXÍLIO DE RITA
por Carlos Herculano Lopes

O escritor Rinaldo de Fernandes explora a narrativa não-linear. A história real da mulher que foi morar na praia com um cachorro, depois de se separar do marido, tem rendido bons frutos para o escritor Rinaldo de Fernandes, pelo menos no campo da ficção. Impressionado com o caso, ocorrido com amiga de sua esposa, primeiro Rinaldo escreveu o conto "Rita e o cachorro", publicado no livro O perfume de Roberta, lançado em 2005 pela Garamond. Mas não ficou por aí. Quando resolveu partir para o romance, ele voltou ao tema, acrescentou elementos novos e criou Rita no Pomar, que chega com as bênçãos de pesos pesados como José Castello e Silviano Santiago. "Tive a preocupação em fazer narrativa não-linear, fragmentada, numa palavra, menos convencional. Daí o apelo, em muitos momentos do livro, para a técnica do fluxo de consciência, mais apropriada para o monólogo a dois a que se refere Silviano Santiago no posfácio", diz o escritor. Doutor em letras pela Unicamp e professor universitário em João Pessoa, Rinaldo de Fernandes, em seu romance de estreia, oferece ao leitor narrativa que leva à reflexão, com o universo particular criado especialmente para a personagem central da história. Cansada de viver em São Paulo, ela decide ir para o Nordeste e vai morar na Praia do Pomar, lugar quase esquecido do litoral paraibano. Leva o cachorro Pet, que passa a ser, além de companhia, interlocutor precioso. Rita mantém um diário, no qual dá vazão à solidão, e escreve alguns contos que entremeiam a narrativa principal. Escrita sofisticada, mas de fácil assimilação, Rita no Pomar chega na contramão da literatura descartável, de consumo imediato e conteúdo duvidoso. Organizador das antologias Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea (Geração Editorial) e Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (Garamond) , Rinaldo está contente com a experiência de escrever Rita no Pomar. "O romance exige muita disciplina, muita atenção. Mas continuo fascinado pelo conto". Ao comentar a fase atual do romance no Brasil, ele diz que continua bem realista, buscando representar o país e suas questões. "Não há, evidentemente, um romancista do porte de Guimarães Rosa ou de Clarice Lispector, autores que inovaram. Diria que Rubem Fonseca, embora mais marcante no conto, também instaurou processos novos em nossa ficção", teoriza Fernandes. Sobre viver e escrever fora do eixo Rio/São Paulo, o romancista acha que esse é um problema a ser resolvido. "Há esforço, às vezes visível, às vezes dissimulado, de certa crítica de não integrar, de deixar à parte certas obras porque os autores são de outros estados. Mas quem faz isso é gente de espírito pequeno", diz Rinaldo. No caso do Nordeste, ele cita vários autores do primeiro time, alguns ainda pouco conhecidos no "sul maravilha", como Raimundo Carrero, Nilto Maciel, Tércia Montenegro, Pedro Salgueiro, Carlos Gildemar Pontes, Aldo Lopes, Carlos Ribeiro, Ronaldo Correia de Brito e Aleilton Fonseca.

Resenha de Rita no Pomar / site eltheatro.com, 27/04/2009

NARRATIVA EM VOZ BAIXA
WJ Solha*

Quando acabo de ler um artigo afirmando que o primeiro romance de Tolstoi foi Anna Kariênina, pois não se pode classificar Guerra e Paz nesse gênero, dou com Rita no Pomar, de Rinaldo de Fernandes, assim enquadrado. Bem, se é questão de volume e a obra russa peca por excesso, pois alcança mil e duzentas páginas, a de Rinaldo, uma publicação da 7 Letras, tem noventa. Mas meu livro A Canga é mais enxuto ainda que o dele, tem oitenta, e é romance. Talvez o nó esteja na complexidade narrativa, traduzida em número de personagens. Não tenho como contar o elenco principal de Guerra e Paz, mas na versão de King Vidor para o cinema, ele chega a duas dezenas, além - evidentemente -, de milhares de figurantes para os bailes de Moscou, os encontros da maçonaria, as cerimÿnias do Natal, mais os exércitos de Napoleão e Kutuzov, etc, etc. Meu livro fino coincide com o gigante moscovita nesse ponto: é um épico, nele ocorre um massacre entre as forças do governo e as tropas de um padre e um deputado na linha do Padrim Ciço e de seu capanga Floro Bartolomeu, e OK, concluo: Rita no Pomar não é romance. Mas também não é novela. Nem conto. E o que seria?

Érik Satie, ao criar uma série de peças para piano igualmente sem rótulo possível, cunhou o nome Gnossiennes. E foi a elas que associei essa estória de Rinaldo de Fernandes com capítulos que, em alguns pontos, têm um quê de notas que terminam em nada, no ar. Foi a elas que associei a calma imperturbável dessa narrativa que foge a qualquer crescendo e repudia o grand finale. Rita no Pomar, como as harmonias de Satie, é triste, não escapa da melancolia. Não é catártica. A traição sofrida no passado não provoca na personagem comportamento diferente ante a nova traição, aquilo que a psicanálise chama de Ab-Reação: descarga emocional, pela qual o afeto ligado a uma recordação traumática é liberado, quando esta, até então inconsciente, chega à consciência. Rita falha outra vez, sofre por isso, mata de novo. Sem drama, sem espetáculos de sangue. É nessa criação sem ênfases, contada em voz baixa como numa igreja ou nos ocÿmio, que está a originalidade do livro de Rinaldo, o seu interesse, o seu valor.

* WJ Solha é romancista, com títulos publicados pela Record, Bertrand Brasil, entre outras. Publica este ano, pela Girafa, O Relato de Prócula, seu novo romance.

 

 

 

Resenha de Rita no Pomar / À Luz das narrativas: escritos sobre obras e autores, 2009

TRÁGICO MONÓLOGO
Romance de Rinaldo de Fernandes é um convite à decifração, no qual o leitor, ao cabo de tudo, defronta-se consigo próprio, por trás de suas próprias máscaras.
por Carlos Ribeiro (Professor da Universidade Federal da Bahia)

Rita no pomar é o primeiro romance de Rinaldo de Fernandes. Pode-se, sem prejuízo da coerência, defini-lo como uma novela – ou, ainda, um conto, que, a partir do seu núcleo básico, do seu epicentro, expande-se em ondas que vêm, pouco a pouco, penetrando a sensibilidade do leitor, adquirindo novas tonalidades, multiplicando perspectivas, aprofundando a sua estranha e não pouco perturbadora ambigüidade. [...] Como toda boa literatura, o livro de Rinaldo é um convite à decifração, no qual o leitor, ao cabo de tudo, defronta-se consigo próprio, por trás de suas próprias máscaras. Como em alguns dos seus melhores contos, a exemplo de O cavalo, Duas margens, O mar é bem ali e O perfume de Roberta, Rita no pomar guarda nas entrelinhas a sua vocação – que é a vocação, plena, de Rinaldo de Fernandes, como ficcionista. Por isso, a leitura dos seus textos, é, ao final, sempre, um convite à releitura. Como se diz na orelha do livro, de forma bem acertada, “Rita no pomar parece, à primeira vista, um texto inofensivo”. Nele, encontram-se elementos aparentemente simples: uma jornalista, revisora de textos, que, após deixar a cidade de São Paulo, instala-se numa paradisíaca praia do litoral paraibano. Ali, sobrevive como garçonete, compra uma casa numa praia semideserta – a Casa do Pomar – e ocupa suas horas brancas escrevendo mini-contos, preenchendo um diário caótico e conversando, longamente, interminavelmente, com o seu cão, Pet. Conversando? Seria mais preciso dizer, como o faz Silviano Santiago, no posfácio, realizando “um monólogo a dois, em que o cachorro é mero e indispensável acessório teatral”.

É nesse monólogo, nesse intenso fluxo de consciência, que a narradora reconstrói, de forma fragmentária, mas sem que se deixe perder o fio narrativo, uma história, na verdade, uma travessia – dramática – mas uma travessia cujas margens mantêm-se, ao final, opacas, indistintas, inquietantes, pois que o seu sentido, se existe, prescinde totalmente de uma conclusão. Embora haja, ao final, uma revelação, uma revelação terrível que redimensiona os sentidos do texto, a história de Rita continua sendo uma espécie de castelo com passagens secretas e calabouços, apenas pressentidos, mas fora do ângulo de vista do seu incauto visitante. As palavras com as quais Rita se revela são as mesmas que a esconde.

Quem é, de fato, Rita? Uma vítima de traições sucessivas, dos seus grandes amores – André e Pedro? Uma, como diz Silviano Santiago, “solitária e descontente com a sorte que lhe coube no latifúndio das grandes empresas jornalísticas e no submundo universitário das pequenas falcatruas”, que “migra para o Nordeste supostamente em pleno e alvissareiro desenvolvimento sustentável”? “Uma Medéia tropical, no melhor estilo serial killers de Hollywood”? O que podemos dizer, se não se é possível afirmar sequer que o seu discurso é, de fato, verdadeiro, ou mesmo, real?

Não importa. No reino da ambiguidade instaurada, o texto de Rinaldo tem a grande qualidade (e aqui me amparo mais uma vez nas palavras de Silviano) de oferecer ao leitor “uma forma bela e incompleta de ver o mundo fragmentado e degradado e as pessoas miseráveis e partidas que nele vivem.” A se expor, mais uma vez, a diáspora, só que, desta vez, num sentido inverso”, diz Santiago, “são as vidas secas do Sul Maravilha que migram para o Nordeste”, com a intenção de “lavar a alma carcomida pela violência na metrópole”. Mas, nem aqui há uma saída, pois que, no texto implacável de Rinaldo de Fernandes, a violência, como um vírus, viaja com aquela que mais dele deseja livrar-se. Eis, portanto, um romance representativo da nossa tragédia – aquela mesma que você vê, como mera informação, pobre e descontextualizada, nas páginas dos jornais, nas telas das TVs, Rita no pomar é um esforço – um admirável esforço – no sentido de compreendê-la.

Carlos Ribeiro é jornalista, escritor e professor universitário. Autor, entre outros, dos livros O chamado da noite (7Letras, 1997), Abismo (Geração Editorial, 2004) e Lunaris (Banco Capital, 2007).

(In: livro À Luz das narrativas: escritos sobre obras e autores – Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia, 2009, pp. 205-207)

 

 

Resenha de Rita no Pomar

UM PEQUENO GRANDE ROMANCE
por Ravel Paz*

Rita no pomar é um desses livros que enganam: a aparente despretensão do título e o parco volume de páginas mal deixam perceber o que o primeiro romance de Rinaldo de Fernandes esconde. Suas 96 páginas - muitas delas com nenhuma ou pouquíssimas linhas - chegam a fazer duvidar que se trata mesmo de um romance, ou seja, de uma narrativa que se alce além do episódico do conto, plasmando, de alguma forma - ainda que fragmentariamente, como é quase de regra no romance moderno -, uma totalidade existencial. Sem enveredar por questões teóricas, cumpre notar que justamente nisso - nessa prova de fogo - Rita no pomar revela sua grandiosidade: como um pequeno frasco de uma essência mais viva que a de um perfume, e que ao final da leitura trouxéssemos partido em nossas mãos, é de toda uma vida que nos sentimos venenosamente inebriados quando fechamos o livro. A vida, evidentemente, dessa Rita, esse “caso” tão sui generis quanto sintomático das condições de vida e de discurso sobre ela que se produzem contemporaneamente.

O artista, dizem frequentemente, é uma espécie de “antena”, que capta a realidade como que intuitivamente para investi-la das cores e formas de sua arte. Seja essa metáfora justa ou não - principalmente em vista de como esses dois gestos são inseparáveis -, o fato é que se sente em Rita no pomar o quanto a sensibilidade para o mundo e suas micro ou macrotensões (e conflitos, e neuroses etc.) é fundamental na composição de um bom romance. Leiam-se as páginas em que Rinaldo nos apresenta, por meio de sua narradora-protagonista, a mãe desta: a afetação que emana de seus gestos e falas não exprime um dado da escrita autoral, mas testemunha o acuro no registro de dados exteriores que permitem vislumbres profundos do que se passa interiormente.

A bem da verdade, sensibilidade e engenho são elementos que se complementam e, mais do que isso, potencializam mutuamente no romance de Rinaldo. Percebe-se isso quando se reconhece o quanto suas estratégias enunciativas são fundamentais na construção de sua densidade psicológica, sobretudo no jogo de ocultamento e desvelamento do interior de Rita que a narrativa opera o tempo inteiro: o diálogo com o cachorro Pet, os registros no diário e os pequenos contos autobiográficos configuram estratégias discursivas que arrastam sutilmente o leitor para um lusco-fusco, num mundo penumbroso que apenas ao final se deixa clarear em toda a sua espantosa realidade. “Toda”, é claro, nos limites de uma narrativa elíptica e fragmentária como exige a modernidade e o próprio senso de realidade - ou seja, o senso do incomensurável do outro - de Rinaldo, mas ainda assim o bastante para que tenhamos o sentimento vivo, como dissemos, de uma totalidade existencial.

A Rita de Rinaldo soma-se assim à imponente galeria de grandes personagens femininas de nossa literatura. Passando ao largo de moreninhas excessivamente mornas, lembre-se a abrasiva Lúcia de Alencar (Lucíola), a Capitu de Machado (Dom Casmurro), tantas personagens de Clarice Lispector e, claro, a xará Rita Baiana, a habitante mais “fatal” d’O cortiço de Aluízio Azevedo; e ainda aquela outra Rita “matadora” que é a da canção de Chico Buarque. Ao mesmo tempo, no Pomar e em outros lugares por onde transita essa Rita paulistana exilada na Paraíba é toda a realidade de uma coletividade - naturalmente, a que habita esta nossa terra em brasas - que se deixa captar de forma não menos viva, e decerto que isso não é menos fundamental para tornar esse livro o pequeno grande romance que ele é.

* Doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da Universidade Estadual de Goiás; é autor de um longo ensaio inédito sobre o romance Rita no Pomar

 

 

Resenha de Rita no Pomar / site Wellington de Mello (09.08.09)

O POMAR DE DESILUSÃO E DO REENCONTRO
André Cervinskis (ensaísta e Mestre em Letras)

O que torna um livro em prosa agradável de ler? É a verossimilhança, que nos faz identificarmo-nos com as personagens do livro? É o uso de expressões típicas do nosso quotidiano? Ou seria o ritmo, o enredo, a fluidez da história, que nos envolve com as vidas, os problemas e os sucessos dos seus protagonistas?

Pois tudo isso encontramos no livro Rita no Pomar , de Rinaldo de Fernandes. Esse autor, professor universitário, antologista, romancista, contista, não se deixou levar pelos vícios de empáfia e pretensa superioridade de quem está na academia. Escreve bem sem ser pedante. Seu livro é de uma linguagem simples, direta, mas profundamente elaborada. Através de solilóquios e diálogos, algumas vezes desenvolvendo fluxos de consciência, com lances de suspense e humor, o autor desperta em nós uma empatia toda especial pela personagem Rita, paulista que emigra para o litoral da Paraíba, tentando fugir de si e de seu mundo familiar e social.

Sofrendo a desilusão de traições e a falta de apoio de familiares e contra-parentes, detalhes só revelados no último capítulo do livro, Rita busca, no total anonimato de um emprego de garçonete de um restaurante à beira-mar do Pomar, cabana que ficava à beira-mar: “A primeira vez que visitei a Casa do Pomar… A noite estava fresca, o céu estrelado. Eu com uma lanterna. Andei pela vereda, muito mato nas margens, me aproximei. Perto do portão, um móvel arruinado ao pé de uma árvore. Adiante, após uma rocha rachada, a casa. Estava decidida a entrar ali, não tenho medo de fantasmas, avisei ao Rômulo. Vi o pomar, as palmeiras perfiladas ao fundo, junto á cerca, mas por que Rômulo não em falou isso, que tudo aqui está preservado?, eu me perguntava. Achei belo o cajueiro, a areia embaixo alvinha, arbustos ao lado do tanque” (p. 31 ).

Rita busca reinventar sua vida, tendo como único confidente um cachorro de nome Pet, designação geral para cão, que a remetia ao seu antigo bicho de estimação, Rex, também esse um nome comum de um membro da raça canina: “Minha mãe era cega, Pet. E o meu primeiro marido, o André, foi ladrão, ah, mas por que te conto isso?… Ui, não lambe a unha!… Mas o André depois se corrigiu, virou professor. Minha mãe, metida a escritora, gostava de escrever contos, cartas na juventude, acho que veio dí… Ah, mas às vezes penso que só escrevo porcaria, pode?… Pode, sim. Ponho nos papéis impressões irrealidades…. E também cometo meus contos, o padre podia para ler… Ih, mas o vento hoje zune tanto ali nos coqueiros… “(p. 29 )

Entre diálogos e elucubrações, Rita vai revelando, aos poucos, ao leitor toda problemática que a trouxe ao litoral do Nordeste: suas esperanças e fracassos, e as perspectivas para o futuro, motivos de sua solidão. Solidão de quem sofreu muito e não mais confia nos seres humanos. Solidão madura, contemplativa, que usufrui dos momentos em que nos descobrimos e curtimos nossos pensamentos e reflexões sobre a vida e os outros, sempre pensando alto ou com o cachorro: “O vento chama, é ali nos coqueiros, pede. Pula! Os grilos, agora apareceu tanto grilo, hein? Você já reparou que o mar tem hora que fica rouco, tem mar rouco? (…) O mar ali pega forte!… Mas como eu penso na vida… Você não pensa e piorou, o pêlo, heim? Parece que piorou, piorou? Não bate o rabo! Mesmo aqui, na tem jeito, é sempre pensando, São Paulo presente” (p. 55 ).

Pessoalmente, identifiquei-me com o seguinte trecho do livro, em que a personagem relata seu fracasso como revisora de textos, por também estar desenvolvendo esse ofício: ”A maioria das pessoas sequer reparava em meus papeis com o anúncio: Revisão de texto requer pessoa experiente. Tratar com Rita. Eu deixava anotado o telefone em tirinhas para a pessoa arrancar e levar. Tinha semana em que não faltava trabalho. Eu ficava até altas horas, a TV baixinha, revisando os textos. Cuidadosa. Sempre fui. Desde a época do jornal.” (p. 8 )

Relembrando a relação com seu antigo companheiro, André, Rita nos conta suas intimidades sexuais, numa interessante e ousada passagem do livro: “Seguimos par ao terreno baldio. A lua deixava o terraço claro, refletia intensa na vidraça do consultório. Ao me aproximar do tronco, André adiantou-se, abraçou-me, beijou-me fundo. Foi tirando a blusa, lambendo meus seios. Sacou do bolso uma camisinha, meteu no pênis. E veio assoprando., afastou minha calcinha, enfiou firme em mim, eu vergada, as pernas bem abertas, unhando-o. O céu brilhando – e nós dois ali nos mordendo. Em certo momento, tremeram as folhas dos arbustos no fundo do terreno. (…) Fomos pela rua mal iluminada. Despedimo-nos friamente na porta do restaurante. André ainda tentou me reter, mas me afastei, empurrei a mão na bolsa, tirei a chave da casa do meu tio. Segui pela calçada, desviando-me das motos estacionadas” (p. 52).

Como um mestre da prosa, Rinaldo consegue envolver-nos até o fim das 96 páginas de seu romance, finalmente revelando os motivos da mudança de domicílio e endereço da protagonista: “Um dia peguei os dois, putz!… Quer saber mesmo? Eu… desconfiei do André e de seus cuidados com a minha mãe. Minha mãe era cega… e bela. Ela gostava de ouvir a TV, o noticiário. Ela sentava ao lado, na poltrona, prendia, por baixo da almofada, a mão dela na dele, imagina!… Eu via, mas não acreditava. Não acreditava… Dia seguinte, eu ia pra rua e eles ficavam sozinhos no apartamento, a Telma tinha perdido o filho. Até que descobri: minha mãe, apaixonada, lhe dava parte do dinheiro da pensão, ai, meu pai Bernardo! Era… O André da minha idade, ela 43 anos, as pernas perfeitas, ô, mas não fui feita pra ser traída, você foi?… Hein?… quer saber agora? Eu… vim aqui pra praia do Pomar.. foi para me esconder. Foi. Quer saber mesmo? Eu… não late! … eu convenci minha mãe, tínhamos que economizar, sei as contas da Telma e… um de cada vez…eu… acabei com o André e com minha mãe, foi.. O André? No acostamento da Washington Luís… num bueiro. Minha mãe? No parque da Água Branca… na areia atrás dos arbustos. Encontrei o Rex na rua, recolhi, vivi ainda um mês e meio com ele no apartamento, o pai do André o tempo todo telefonando, insistindo, quando vocês aparecem em Rio Claro, o que foi que houve?… aí achei o mapa. Eu vim, o ônibus duro, fiquei… Pedro e o amante? No pomar do velho, ali no alto… embaixo da mangueira. E não late, que eu também te mato!” (p. 96 ).

No Pomar – o do flagrante e o da praia, Rita descobre o amargor da traição e o sossego do refúgio. Pois é na natureza, enfim, que nos reencontramos conosco mesmos.

http://wellingtondemelo.com.br/site/2009/08/o-pomar-da-desilusao-e-do-re-encontro/

 

 

 

Resenha de "Rita no pomar" / Musibrasil.net / (22.12.2009)

Nordeste: paradiso o purgatorio?
Scritto da Silvia Marianecci • 22 dicembre 2009

 

Con «Rita no pomar», romanzo pubblicato nel 2008 da 7Letras, Rinaldo de Fernandes si avventura nel complicato universo femminile assumendo la voce di una donna, emblema di una generazione in continua ricerca della propria identità e proiettata verso una incomunicabilità insuperabile.
Rita è una giovane giornalista di São Paulo che sceglie di trasferirsi dal caos della grande città alla rassicurante calma di una spiaggia paraibana. Qui Rita cambia completamente stile di vita trovando impiego in una piccola pousada nascosta tra la spiaggia, ancora incontaminata e lontana dai grandi poli turistici, e un morro ricoperto da un rigoglioso frutteto selvatico.

Attraverso un intenso e frammentario monologo, Rita racconta la propria vita a Pet, un bastardino che la segue passo passo nelle lunghe e solitarie passeggiate sulla spiaggia, silenzioso e inerme depositario dei suoi segreti. Il racconto è intercalato da stralci di diario e alcuni brevi testi narrativi con cui la protagonista continua ad esercitare in privato l'arte della scrittura, un insieme disconnesso di frammenti attraverso i quali, pian piano, ricostruiamo le vicende che l'hanno indotta a questa sorta di auto-esilio.

La narrazione, tutta intrisa di sonorità e dettagli sensuali - dagli odori dolciastri della frutta, ai colori, azzurro verdeggianti dell'orizzonte, dal soffio sordo del vento litoraneo alle numerosissime interiezioni con cui Fernandes riproduce l'oralità del dialogo col cane di cui pare di sentire sbuffi e scodinzolii -, ci conduce inesorabilemente verso un epilogo inaspettato. Rita è alla ricerca di una sua nuova identità, un viaggio di ritrovamento del sé che prende una direzione contraria a quella, ad esempio, dei tanti retirantes che affollano la narrativa brasiliana nei loro esodi verso le grandi metropoli del Sud. Ma come Macabéa, protagonista lispectoriana alla quale non possiamo evitare di pensare leggendo il romanzo di Fernandes, anche Rita non riesce a sfuggire al proprio destino.

Emerge una ferinità animale in questo essere dominato da passioni forti - e forse non è un caso se l'uso continuo di certe sonorità del linguaggio ci fanno ricordare, seppur molto lontanamente, il Guimaraes di Meu tio o Iauaretê. Incapace di decodificare la realtà secondo le regole della società, Rita costruisce le proprie leggi con cui dominare la bufera emotiva che di volta in volta si abbatte sulla sua vita. La scelta del luogo isolato e distante dai circuiti della società post-industriale, rispecchia la solitudine strutturale dell'uomo di fronte a una realtà difficile da riordinare, impossibile da cogliere nella sua integrità, una realtà che affiora alla coscienza come polverizzata ma allo stesso tempo col suo peso schiacciante.

Per questo la Rita di Fernandes con il suo soliloquio suggestivo e frammentario, ora nostalgico, ora rancoroso, rappresenta la condizione del genere umano che, di fronte alla perdita delle proprie certezze e al turbinio delle proprie angosce, nell'impossibilità di una comunicazione autentica e nella crisi totale delle relazioni, trova rifugio nell'apparente calma di un paesaggio marino e nella follia della solitudine o, se vogliamo, nella solitudine della follia.

 

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