Chove nos campos de Cachoeira

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Chove nos campos de Cachoeira

Sinopse

A primeira edição de Chove nos campos de Cachoeira foi publicada em 1940, depois que o romance ganhou o prêmio “Dom Casmurro” oferecido pela Editora Vecchi. O prêmio e a publicação deste seu primeiro livro abriram caminho para que Dalcídio Jurandir se tornasse um dos mais importantes autores brasileiros do século XX, com uma obra que revela o universo urbano e provinciano de uma região afastada dos grandes centros, ao mesmo tempo em que toca naquelas questões universais do ser humano que permeiam toda boa literatura. A este romance seguiram-se outros nove para formar uma série que ficou conhecida como “Extremo-Norte”, reunindo as principais obras do autor. Reeditado em 1976 pela Editora Cátedra e esgotado desde então, Chove nos campos de Cachoeira chega agora às mãos dos leitores do século XXI numa versão inédita, preparada a partir de anotações, correções e emendas feitas pelo próprio escritor num exemplar da primeira edição – localizado no acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro – após minucioso cotejo e preparação do texto pela professora e pesquisadora Rosa Assis.

Resenhas

Dalcídio Jurandir, o “Chove...” e a reinvenção do caroço de tucumã
Paulo Nunes


Sempre que releio Chove nos Campos de Cachoeira, de Dalcídio Jurandir, fico inicialmente tomado de um sentimento de estranha contemplação, sentimento que depois transmuta-se, aguilhoado pela expressiva força do texto criado pelo, opinião pessoal de que algusn discordarão, nosso maior romancista. Digo mais, o fio que me ata a este livro está, muito provavelmente, em minha ligação avoenga, uma vez que minha avó marajoara, Judith (filha de um cristão novo com uma índia), me trazia, mesmo sem que ela e eu soubéssemos, uma certa “dicção inconcisa” que mais tarde eu encontraria nesta escrita que “desfossaliza” ad eternum a saga/antissaga de Eutanázio. Digo antissaga, pois alguns autores (entre eles está Jorge Luis Borges) apontam que a opção da humanidade pelo romance, significa, em síntese, um decréscimo de tom enunciativo da narrativa, e por que não dizer, de qualidade, pois se considerarmos a representação do mundo pela epopeia – predecessora do romance –, constata-se a humanidade desgarrando-se das tragédias altissonantes dos heróis gregos para a banal fixação dos dramas burgueses, empambandos porque mundanos demais. Pois bem, Chove... (como passarei a partir de agora a abreviar) é, sabe-se, o livro-portal do “Ciclo de Extremo Norte” e é ao mesmo tempo uma obra-prima (opinião pessoal novamente, embora complexa para ser partilhada) de um autor único no universo do moderno romance brasileiro.


Não sei se estou certo, mas, Chove... – insisto na tese – é o livro mais instigante parido por Dalcídio Jurandir, este internacionalista, socialista convicto, ser humano que amava a humanidade (como bem diz Maria de Belém Menezes, uma de suas mais constantes missivistas) que se fez o “inventor”, para nós – os belemenses – do caroço de tucumã. Esta “invenção” do caroço de tucumã, embora pareça estranha, não deve ser desconsiderada pelos leitores dos romances do Extremo Norte. Claro que o vocábulo “invenção” tem sua significação ligada à seara criativa. Chove... é, vários leitores eficientes já o disseram, um romance retroalimentador da demiúrgica ficção dalcidiana. Livro de introspecção (Benedito Nunes vai falar em renovação introspectiva da árvore do realismo), painel que se desenvolve mais na interioridade que na tentadora exterioridade descritiva do Marajó (improvável é diante da exuberância da paisagem, a interioridade das personagens ganhar destaque). A cada nova leitura, fica-me a certeza da singularidade de Chove, singularidade que me sopra cada dia mais forte. Meus sentimentos de leitor não se modificaram agora que me chegou às mãos, durante a XV Feira Panamazônica do Livro, o trabalho de reformatação do romance, promovido pela professora Rosa Assis, publicado pela 7Letras, do Rio de Janeiro. Tal reformatação, é preciso deixar claro, veio da vontade expressa pelo próprio autor, conforme se lê pelas anotações de próprio punho de Dalcídio Jurandir (as páginas foram fotografadas uma a uma) e que somente agora vem à luz. Todo este manancial que possibilitou a reformatação do primeiro romance de Dalcídio Jurandir se deu graças ao acervo do autor, que foi depositado pelos herdeiros na Fundação Casa de Rui Barbosa, na cidade do Rio de Janeiro. Alvíssaras à editora 7Letras, leia-se Isadora Travassos e equipe, que, associada à Casa de Cultura Dalcidio Jurandir, que localiza-se em Niterói, tirou Dalcídio Jurandir dos 30 anos esquecimento, em que ele se encontrava entre as editoras nacionais não universitárias.


As mudanças efetivadas nesta nova edição são significativas, como poderá o leitor perceber ao folhear o livro, publicado em papel pólen soft. Rosa Assis queimou pestana durante meses e desvendou um quebra-cabeças de anotações, recortes e colagens, balões, frases, riscos e rabiscos transformados em desejos que levados em conta, e deu no que deu. Em termos práticos, a pesquisa da professora desestruturou a própria “Edição Crítica de Chove nos campos de Cachoeira” que ela organizara e que publicou, em 1998, através da EDUNAMA. Se foi virtuosa a trajetória que culminou na referida edição, muito mais engenhosa é esta pesquisa que modifica substancialmente, a bem dizer, anula as versões anteriores. Não pense o leitor que se trata apenas de ressignificar alguns significantes (muitas palavras e expressões foram depuradas por Dalcídio). As mudanças de enunciação são imperiosas e vão mais além do que imagina o leitor. Que tal nos referirmos a algumas delas?


Comecemos pelo título do capítulo XVII: onde antes se lia “A saleta era o universo”, observa-se a troca do tempo verbal do enunciado, o “é” substitui o “era”, portanto, o pretérito transforma-se em presente. A modificação enfatiza o drama existencial de Eutanázio, que agoniza na rede, sendo circundado por todo um séquito de assistentes. Ironicamente, é na ante-sala da morte – a morte nos interiores do Brasil é um acontecimento coletivo, bem diferente de certas e solitárias mortes na grande cidade, como se atesta em “Belém do Grão-Pará”, por exemplo – que o filho mais velho de Major Alberto obtém toda a atenção dos familiares e amigos da família. As falas em discurso direto comungam, mais sistematicamente, com o monólogo e o discurso indireto livre. O narrador, infectado pelo drama de Eutanázio, resolve, entretanto, compartilhar os sentimentos de que está acometido, fazendo personagens expressarem-se vivamente na “boca de cena”. No referido capítulo, mais de cinco falas, até então inexistentes, foram acrescidas. O tom dramático, mais uma vez, é ali enfatizado. E os limiares entre narrativa e drama são diluídos. Se não estou enganado, as reticências tiveram seu uso alargado, enfatizando-se a expressividade do narrador. Outros capítulos também têm seus títulos modificados, como se pode notar: No capítulo II, onde se lia “Irene, angústia, solidão” passamos a ler “A curadeira e doente”. Já no VI, onde se observava “Casa de Seu Cristóvão”, passa-se a ler “Os funerais do sétimo noivado”. O XIV, por sua vez, que tinha “Irene assim é mais amada” passa a ser enunciado como “Um tiro”.


Ganha destaque na nova edição a antecipação do episódio do roubo do “gadinho” pertencente à família do Major Alberto por João, personagem que gozava da confiança da casa, mas que cai em tentação e trai a confiança que lhe tinham depositado. Os últimos parágrafos das páginas 346 e 347 são antecipados por Dalcídio, num recorte que empresta maior fluidez introspectiva ao caso do roubo contra o qual dona Amélia, ó personagem fundamental!, reage indignadamente.


Um relato de assassinato, seguido de suicídio contorna o capítulo com concisa e pungente importância humana. Cristino descarrega sobre si uma cartucheira e dá fim à sua vida, uma vez que estava sendo acusado do estrangulamento de uma mulher. E o que mais se pode acrescentar às emendas do “novo” romance? Novo? Sim, pois segundo a pesquisadora e organizadora do volume, 95% do texto foi modificado.


Dalcídio Jurandir, consciente de seu poder de carpintaria, após as duas primeiras edições de “Chove...”, redesenha diversas passagens, modifica nome de personagens (Substitui o nome de Ulisses, que passa a denominar-se Lício, e Estefânia que vira Ciana). O autor acrescenta vírgulas onde antes não havia, o que, de certa forma, faz conter a fluidez do estilo líquido da aquonarração; são transformadas frases afirmativas em interrogativas, intensificando o conhecimento os dramas das personagens. Dalcídio modifica tempos verbais (talvez o mais expressivo exemplo já foi comentado anteriormente), acrescenta períodos, recria expressões, acresce falas, modifica, em alguns casos, o discurso indireto em direto, o que, salvo engano, aumenta a expressividade do enunciado.


A mais radical mudança parece ser a fusão de dois capítulos. Com este recurso, Dalcídio prolongou, através do discurso do narrador, a agonia de Eutanázio: ali, mais do que nunca, “as horas pingam vagarosamente na solidão” do irmão mais velho de Alfredo.


No mais, o leitor perceberá que com todas estas modificações, Dalcídio deixou mais tênues os limites entre gêneros literários, fazendo com que o dramático se aproxime do narrativo, operação que talvez pouco importe ao leitor, mas que fará efeito determinante no arcabouço de um texto que já era fascinante e que se tornará mais preciso, mais revelador, ao demonstrar, entre outras coisas, que Dalcídio Jurandir foi um autor exigente que, se necessário, reescrevia um texto inúmeras vezes contanto que o texto remexido se aproximasse da perfeição. Sobre este perfil, digamos mais perfeccionista, o autor de “Marajó” já se manifestara em carta escrita a Nunes Pereira, conforme atestam as correspondência por eles trocadas, pertencentes ao acervo de Selda Vale, professora da Universidade Federal do Amazonas.


Nossa grande expectativa concretizou-se, e os que gostam da boa literatura, podemos acessar a versão definitiva do romance portal do Ciclo do Extremo Norte. Versão completa e depurada, de uma obra, que se o autor não teve oportunidade de ver publicada em vida, deixou as pistas para superar o que, em carta a Maria de Belém Menezes, ele chamou de “edição bárbara” do Chove... Queria o destino que Rosa Assis, filha de Machado Coelho, amigo do romancista marajoara, protagonizasse tais modificações textuais que fazem de Chove nos campos de Cachoeira, mais do que nunca, uma obra realmente superior. E insuperável. Vale a pena ler de novo.


Paulo Nunes é Professor da Unama; autor de Útero de areia, uma leitura de Belém do Grão-Pará, inédito, fruto de tese de doutoramento orientada por Audemaro Taranto Goulart na PUC-Minas.


 


Romancista da Amazônia - Reedição valoriza obra pouco conhecida do paraense Dalcídio Jurandir
Roberto S. Kahlmeyer-Mertens
Prosa & Verso (24/12/2011)


Após um jejum de quase 30 anos, a obra literária de Dalcídio Jurandir (1909-1979) começa a ser revisitada com fôlego renovado. À margem das editoras comerciais, até a data de seu centenário de nascimento, o escritor que durante as primeiras décadas do século XX foi lido, reconhecido e admirado pelas gerações de Graciliano Ramos e Jorge Amado, esteve durante todo este tempo relegado ao nicho acadêmico ou submetido ao rótulo de regionalista. Dalcídio Jurandir escreveu onze romances, dez dos quais integram o que ficou conhecido como o Ciclo do Extremo-Norte. Contendo títulos como “Marajó” (1947), “Três casas e um rio” (1958), “Belém do Grão-Pará” (1960), o conjunto destas obras arrebatou em 1972 o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. 

As criaturas de Marajó em prosa trabalhada e lavrada 

O primeiro título deste conjunto — que o filósofo e crítico literário Benedito Nunes chamou de “ciclo romanesco” — é “Chove nos campos de Cachoeira”. O livro, que também é considerado o primeiro romance amazônico moderno, recebe agora uma nova edição. Com grande força e intensidade narrativa, e marcado pela influência da segunda geração do romance modernista no Brasil, esta obra faz mais do que pintar quadros da vida singular de quem a escreveu. Dalcídio Jurandir descreve o horizonte amazônico a partir de vivências regionais, o contexto humano e geográfico com a pluralidade de suas imagens, suas elaborações linguísticas típicas, a cultura e, até mesmo, as concepções sociopolíticas que perpassam esta mundividência. 

“Chove nos campos de Cachoeira” foi originalmente publicado em 1940. A obra se ambienta em Cachoeira do Arari, lugarejo no qual habita Alfredo, personagem que se identifica paradigmaticamente com a gente que povoa a Amazônia paraense rural. O romance retrata com plasticidade a existência humilde e agreste de personagens que são pequenos proprietários de terra, campeadores, pescadores, barqueiros, empregados das fazendas, enfim, a matéria humana que Dalcídio chamava carinhosamente de a “farinha-d’água de meus beijus”. 

No enredo, tem-se a ida do menino Alfredo para a capital com a finalidade de dar prosseguimento aos estudos. Os contrastes entre o interior e a metrópole, os costumes da europeizada Belém frente aos da provinciana Marajó se fazem sentir na trama que envolve tanto as memórias afetivas do narrador, quanto um sentimento de pertença à terra marajoara. Destaque-se na referida narrativa o capítulo “Caroço de tucumã”; neste, uma pequena semente de palmeira nativa, que viajou com o pequeno protagonista desde Marajó, ganha significação especial no romance. Longe do solo inundado de Cachoeira na época de cheia, era na semente que o menino buscava a segurança de quem o compreendesse e o animasse: “Sentia-se só, distante, imaginando sempre. Só a bolinha tomava corpo de gente, era sua amiga. Era o corpo da imaginação. Bolinha fiel e rica de fazer de conta!”. Mais do que produto da imaginação e carência pueril, a semente de tucumã faculta interpretações que o tomam como metáfora da semântica amazônica que Dalcídio Jurandir, bem como Alfredo, seu alter ego, jamais deixou de rever. 

Nova edição corrigida e apontada pelo autor 

A presente edição de “Chove nos campos de Cachoeira” foi estabelecida a partir de um exemplar da primeira edição com apontamentos marginais e correções do próprio Dalcídio. A observância dos anseios do autor a partir deste texto de referência permitiu a depuração do original que constitui sua colação definitiva. As modificações são sensíveis, embora nenhuma delas altere substancialmente a prosa dalcidiana. Se comparada com a edição anterior (a crítico-filológica, caprichosamente organizada pela pesquisadora Rosa Assis em 1998), notam-se pequenas alterações de formulação e vocabulário; vez por outra, mudanças de pontuação reduzindo longos períodos. 
Mesmo com essas corrigendas, continuamos a ter em “Chove nos campos de Cachoeira” o mesmo romance que garantiu a seu criador o Prêmio Dom Casmurro, oferecido pela Editora Vecchi, a mesma narrativa densa e fluente, a mesma essência e virtualidade que fazem com que Gunter Karl Pressler, em um de seus ensaios, nos afiance a autenticidade e universalidade do Romancista da Amazônia. 

Informação Adicional

Número de páginas 264
Ano 2011
Formato 16 x 23
Edição Não
Número da revista Não
ISBN 9788575777749