A volta

Ítalo Ogliari

Romance

Disponibilidade: Em estoque

R$29,00

A volta

Sinopse

A volta apresenta a história de um jovem que se encanta por Marina, uma adolescente extremamente simples e comum, como qualquer outra. Menos para ele. Poderia ser apenas uma paixão platônica, como tantas da fase juvenil, mas este amor marca o início da sua viagem, só de ida e sem volta, rumo à idade adulta. Nessa trajetória de vida, incerta e insólita como todas as outras, ele reveza ingenuidade e desencanto frente aos pequenos nadas que determinam toda a sua existência. A volta irá deliciar os leitores de Um sete Um, que já conhecem o sabor intenso da prosa de ítalo, representando igualmente oportunidade ideal para um primeiro mergulho na narrativa ágil e segura do autor.

Resenhas

Entrevista de Ítalo Ogliari para o site Amálgama, por Vanessa Souza


QUE O ACASO NOS SEJA GENTIL: ENTREVISTA COM ÍTALO OGLIARI


A volta (7 Letras), romance do gaúcho Ítalo Ogliari é, sobretudo, um livro sobre o acaso. Como um gesto banal pode mudar toda a vida de um sujeito? Como algumas pessoas apenas passam por nossas vidas, enquanto outras, mesmo ausentes, permanecem para todo o sempre? Como uma pequena escolha, ou aquilo que nem se escolhe, desencadeia todo um processo. O autor, que já publicou outros três livros, também é professor do Curso de Letras da Universidade Luterana do Brasil – ULBRA, e nos contou sobre seu romance.


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AmálgamaA volta parece-me ter (também) o tempo como temática. Concordas? Discordas em absoluto? Qual o tema do seu romance?
Ítalo Olhiari: Concordo plenamente. O tempo é, talvez, um dos principais assuntos do livro, assim como outros tantos que são enfatizados. Responder qual é o tema, assim, em sua singularidade, com precisão, é algo muito difícil. Eu poderia arriscar na questão do acaso… E isso também envolve o tempo, pois o tempo é parte fundamental de possíveis encontros e desencontros que temos na vida. Basta um segundo antes ou depois para você deixar de conhecer a pessoa que poderia ter mudado o rumo de sua existência (e isso não é nenhuma novidade). Mas também basta uma brincadeira, uma coisa dita sem pretensão alguma por alguém, mas que te faça pensar, que te incomode, para mudar tudo em sua vida. E por mais bobo que isso seja, é assim que somos, é assim que nos pega o acaso, nos pequenos detalhes, nas coisas mínimas, e elas me deixam sempre fascinado. Gosto disso, gosto de pensar nas pequenas coisas que dizemos, nos pequenos atos, nos incógnitos gestos que vemos e fazemos, nas minúsculas atitudes que tomamos e que são, muitas vezes, as mais significativas de toda nossa vida e nem nos damos conta disso.


A primeira parte do romance traz um adolescente (personagem principal e narrador) e um episódio marcante de sua vida, passado na escola. Gostei da descrição: “A escola é uma etapa delicada, perigosa e cruel.” Podes me falar um pouco a respeito?
Posso sim, sem problemas. Mas em primeiro lugar, gostaria de lembrar que também já fui estudante de ensino fundamental e médio (em escolas privadas e públicas) e, principalmente, professor de tais instituições… Digo isso apenas para justificar meu discurso, sem teses preestabelecidas, sem rodeios. Conheço muitas teorias, das mais exóticas às mais utópicas, proferida muitas vezes por gente que nunca entrou em uma sala de aula, ou pelo menos não entra há tempo. A escola é, com toda a certeza, uma etapa muito delicada na vida de uma criança, na vida de um pré-adolescente e de um adolescente. Os famosos bullyings, que sempre existiram, mas que agora ganharam este belo nome e estão em alta, servem como exemplos do que afirmo como etapa delicada… É entrando na escola (hoje em dia cada vez mais cedo) que o indivíduo se depara efetivamente, sozinho e pela primeira vez, com aquilo que chamamos de sociedade: um lugar onde encontramos gente legal, gente não tão legal assim, gente que podemos confiar, gente que gosta de nós, gente honesta, desonesta, gente que nos admira e gente que não nos admira tanto assim, e que quer, por motivos variados, até mesmo nosso mal. Nada diferente de tudo aquilo que teremos, pelo resto de nossas vidas, de enfrentar dia após dia; mas, na escola, com uma única diferença: tudo acontecendo em um momento em que estamos em formação (no mais amplo sentido), e algumas experiências certamente podem ser traumáticas e decisivas para nosso futuro… Por isso um lugar perigoso e delicado.


Após beijar Marina, o adolescente acredita que algo mudará em sua vida. No entanto… “Marina foi embora como vai a vida da gente e minha vida, como não poderia ser diferente, seguiu. E seguiu como era antes. Seguiu como era antes do beijo da Marina: uma vida pacata, idiota e conformada.” Quem é esse jovem?
Acredito que esse jovem seja todo o adolescente, pois todo o adolescente, ou a maioria deles pelo menos, é assim, se sente assim. São todos cheios de vergonhas, preconceitos e receios. Sempre com medo de estar sendo ridículo, sempre com medo do julgamento dos outros. Para um adolescente (não todos, repito), o importante são os outros, aquilo que os outros pensam, e não o que ele propriamente tem como verdade. Somente a vida adulta, e mais ainda a velhice, lhe dá autonomia discursiva sobre você mesmo, lhe dá segurança de voz e opinião, sem tanta preocupação com o olhar alheio. Essa é a recompensa que o tempo lhe dá.


A segunda parte do livro traz um homem adulto (passados muitos anos), lembrando de uma viagem na adolescência que poderia ter mudado sua vida. E não muda. Ou mudou?
Sim, perfeitamente. É onde a história sincroniza-se. É onde o narrador, esse adulto rememorando seu passado, chega ao seu presente, à sua atual situação. Ao lembrar-se de toda sua trajetória, de toda sua caminhada existencial (principalmente a de sua fase adolescente) ele percebe que escolheu caminhos, apenas isso. Muitos deles através de uma visão ingênua, culpa da própria idade. Certamente ele poderia ser outro hoje, diferente, mas não é, e ponto. Não temos como mudar os passado, apenas podemos, como disse no livro, perdoarmos a nós mesmo, caso nossas escolhas não tenham sido as melhor, e perdoarmos os outros por suas atitudes, caso elas não tenham sido boas para nós. Nada mais pode ser feito sobre aquilo que passou.


Marina sai da vida do adolescente. E não sai nunca. Ausência sempre presente. Quem é Marina?
Uma simples personagem de ficção, mas ao mesmo tempo todas aquelas pessoas que algum dia passaram por você e que ficaram em você para sempre, que o transformaram em outra pessoa, mesmo de forma imperceptível. Como já falei: nas pequenas coisas, nas coisas mínimas. O tempo todo, em todo o livro, o micro, o detalhe, o quase imperceptível é sempre maior que o macro. Não é por toda Marina que ele se apaixona, mas pelo sinal em seu braço, pela forma como mordisca o lábio; pelos mínimos gestos…


Ao final do livro, o narrador percebe que um gesto grandioso do passado foi em vão. Não por sua inércia, mas pelo ato de um outro. Que sensação é essa?
A sensação de como a vida funciona, acontece, é. A sensação de que tudo é incerto e que estamos à deriva em um jogo de possibilidades.


Quando você começou a escrever ficção?
Já que estamos falando de adolescência e de escola (pelo menos este é o espaço-tempo de A volta), gostaria de revelar que meu gosto pela leitura e pela escrita iniciou-se justamente no colégio. Mas não se assuste. Não sou um ser quase de outro mundo, que fez o milagre de se encantar pelas aulas de literatura e que se apaixonou quando foi obrigado e ler Iracema. Nada disso. Infelizmente, sempre repito, a escola está muito mais encarregada (com inúmeras exceções, óbvio) em eliminar leitores, não formar. E isso desde cedo, desde as primeiras séries. Não entendo como ainda é permitido tal absurdo, principalmente no ensino médio.
Comecei a me encantar por ler e ao mesmo tempo criar histórias quando comecei, junto com um grupo de amigos na escola, a jogar o famoso RPG, que em meu tempo, no início da década de 90, mais ou menos, era muito pouco conhecido (e ainda é)… Com o RPG (que originalmente são livros, e bem grandes, onde encontramos todas suas “regras”), o hábito da leitura veio naturalmente, e, como bem sabemos, uma leitura puxa a outra. Dentro dos próprios livros de RPG havia dicas de leituras para que nossa imaginação como jogador aflorasse (e aí apareceram os primeiros contatos com Poe, H.P. Lovecraft, Tolkien, Clive Barker etc.). Depois, claro, isso foi se ampliando, a vontade de escrever sempre aumentando, a ideia de cursar letras cutucando aqui e ali, e assim foi tudo acontecendo naturalmente… Acho que é isso. Para se narrar ou mestrar uma partida de RPG (assim de diz), precisamos criar históri as, e esta atividade era minha preferida.


Como escreves um livro? Existe alguma espécie de método ou rotina?
Não. Não há uma rotina preestabelecida. Há, sim, momentos propícios. Eu, por exemplo, depois de escrever um livro, depois de publicá-lo, levo um bom tempo para começar a escrever outro. Pelo menos um ano sem produzir nada. Há em mim uma espécie de esvaziamento, esgotamento criativo, que é renovado justamente com leitura. No entanto (e principalmente porque gosto de narrativas enxutas, rápidas) quando a vontade de escrever aflora novamente, um livro do tamanho de A volta, com média de cem páginas, é escrito em um mês ou dois. Depois, claro, mais ou menos um ano trabalhando o texto, ajustando aqui e ali etc. Mas sempre estou, mesmo assim, achando mil defeitos em minha produção (talvez culpa da pressa, da impaciência; ou talvez sinal de crescimento, amadurecimento, sei lá. Mas é mais ou menos assim que funciona).


Quais livros estão na sua cabeceira hoje? E quais obras foram importantes na sua estante ontem?
As obras foram muitas. Toda leitura que fiz colaborou para minha formação como escritor, ainda jovem e com muito a aprender, sem dúvida. Qualquer tentativa de lista seria uma maldade com aqueles que certamente ficariam de fora devido à traiçoeira memória. A única coisa que posso garantir é que ler os clássicos faz você perceber que não são obras imortais à toa; que se você busca uma verdade na arte, ela está, de alguma forma, esgueirando-se entre as páginas de qualquer texto de Edgar Allan Poe, de qualquer diálogo das personagens de Dostoievski, de qualquer ironia machadiana, de toda a musicalidade textual de Guimarães Rosa ou de qualquer absurdo admirável de Kafka. Se você ler toda a obra desses cinco autores, tenho minhas dúvidas se precisa de qualquer coisa a mais para entender a humanidade, para compreender a alma humana e para perceber o que é literatura.
E o que está neste exato momento em minha cabeceira (ou melhor, na cabeceira de minha cama, lutando contra todas as leituras derivadas de minha profissão de professor e orientador) é a célebre Hermenêutica do Sujeito, do nosso amigo Foucault. Estou louco para uma releitura bem calma (o que duvido), do início ao fim, sem muitas lacunas temporais, o que sempre é um desafio… Haja tempo para lermos tudo o que desejamos… Haja vida…


(http://www.amalgama.blog.br/04/2011/entrevista-com-italo-ogliari/)

Informação Adicional

Número de páginas 96
Ano 2010
Formato Não
Edição 1
Número da revista Não
ISBN 978-85-7577-679-7